Dom. Nov 28th, 2021

Sinais dos Tempos

Rubrica dedicada à reflexão sobre os desafios que a pandemia de COVID-19 coloca à Igreja e ao mundo

‘Covid-19:
– Que ‘mundo’ e que ‘Igreja’ estão em ocaso?
– Que ‘mundo’ e que ‘Igreja’ se vislumbram na (estão em) aurora?’

 

João César das Neves*

– Que ‘mundo’ e que ‘Igreja’ estão em ocaso?

Será que uma pandemia chega para gerar um ocaso? Muita gente acredita nisto. Fala-se cada vez mais do «novo normal» e apregoa-se que nada ficará como dantes. No entanto, essas mesmas declarações mostram como tudo permanece igual.

Aquilo que a pandemia mostrou à evidência é o que a Igreja repete há séculos mas o mundo tenta negar: estamos todos nas mãos de Deus, que determina o nosso destino. De repente, devido a um ser microscópico, todos os planos dos poderosos, as certezas dos especialistas, os sonhos dos pobres foram abalados. O mundo viu-se encarcerado, paralisado impotente.

O mundo, porém, recusa ver-se assim. Por isso inventa um mundo novo, para tentar recuperar a ilusão de controlo. Afinal a convicção de que um mundo está em ocaso é mais uma tentativa para manter a ilusão central do mundo caduco em que vivemos. Esta tese resulta da arrogância própria deste tempo, arrogância que a pandemia desafiou, mas que tenta reafirmar-se, inventando um ocaso.

Perante isto, a Igreja, hoje como sempre, ajoelha e pede misericórdia ao Senhor da vida, porque d’Ele dependemos absolutamente, e sem Ele nada sabemos sobre o que somos e para onde vamos. O mundo, porém, não suporta esta incerteza, esta dependência, esta misericórdia. Ele tem de se sentir de novo em controlo, para fazer planos, ter certezas e imaginar sonhos. Por isso, no meio do cárcere, paralisia e impotência, o mundo sobe para cima da cadeira de onde o vírus o derrubara, e proclama a suprema mentira: o mundo que tínhamos morreu e vem aí um novo, gerado pelo vírus que ninguém controla.

Claro que o mundo nada sabes sobre o que aí vem. Mas precisa de fingir que sabe e domina o futuro. O que esta suprema tolice mostra é que, afinal, o mundo continua exactamente como estava antes: arrogante e convencido que controla algo que lhe escapa completamente. Será preciso muito mais que uma pandemia para o mundo compreender que não domina nada e, ajoelhando-se junto à Igreja aos pés da cruz, pedir misericórdia ao Senhor da vida.

– Que ‘mundo’ e que ‘Igreja’ se vislumbram na (estão em) aurora?’

A pandemia Covid-19 é, antes de mais, um mistério. Surgido do nada, derrubando tudo, deixando todos perplexos, a única certeza que podemos ter é que não entendemos o que está a acontecer, nem sabemos o que vai acontecer. Como pode alguém afirmar algo acerca do que se aproxima, quando há poucos meses nos enganámos redondamente nas expectativas que tínhamos?

Que mundo teremos depois de passar a pandemia? A certeza da Igreja, que a pandemia confirmou de uma forma estrondosa, é que o futuro a Deus pertence. Por isso, acerca do mundo que aí vem, a única coisa que sensatamente podemos fazer é rezar. Será aquilo que Deus quiser.

Assumindo a humildade perante a esmagadora realidade que estre vírus manifesta, temos, porém, algumas pistas que nos orientam para vislumbrar esse futuro. O mundo, que Deus fez, tem como característica principal, a sua dinâmica estabilidade. «Deus viu tudo quanto tinha feito; era tudo muito bom» (Gn 1, 31). Por isso, o melhor que podemos dizer acerca do mundo que aí vem é que ele será muito semelhante ao que hoje temos. Quem prevê auroras triunfantes ou misérias devastadoras está dominado pela imaginação, não pela realidade.

O choque da doença foi vasto e profundo. Mas vai passar. Depois da epidemia, o mundo ficará um pouco mais pobre, um pouco mais endividado, um pouco mais desigual, um pouco mais medroso; mas será o mesmo mundo que conhecemos. O vírus pode danificar a economia, mas não chega para mudar o mundo.

A Igreja vive no mundo, e são dela «as alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos homens de hoje» (GS 1). Assim, também ela estará mais pobre, endividada, desigual e medrosa que antes. Mas a sua missão é a de sempre: levar Cristo ressuscitado ao mundo que O matou.

Aprendemos todos muito com esta devastadora pandemia. O problema é que aprendemos muitas coisas boas e também muitas coisas más. Assim, hoje como sempre, a luz de Cristo é o único guia perante o mistério do mundo.


*Professor catedrático de Economia
Imagem de fernando zhiminaicela por Pixabay