GLOSASEspaço de comentário a obras que interpelam o tempo presente

Glosas a Brève apologie pour un moment catholique

– Laïcité ou séparation –

(pp. 48-82)

(Cont.)

 [Primeiro texto: aqui.]

Tiago Azevedo Ramalho

 

– 20. As três ordens. – É, no fundo, um problema de incoerência que se suscita: o poder público a pretender regular aquilo que, à partida, declara radicalmente desconhecer. Como poderá uma comunidade política pensar-se de um modo tal em que, primeiro, não renuncia ao seu modo próprio de racionalidade pública, mas, ao mesmo tempo que a exerce e porque a exerce, liberta e reconhece espaços para a prática religiosa? Há, com efeito, alternativas ao «cientismo» que passam pelo reconhecimento dos limites das pretensões do próprio discurso.

Marion, aqui como noutras paragens do seu pensamento, convoca o célebre excerto de Pascal sobre as «três ordens» (pp. 79-80). Uma é a ordem do «corpo»; outra é a ordem da «alma»; outra, finalmente, é a da «santidade». Admitindo a restrita divulgação daquele excerto entre nós, transcreve-se a totalidade do fragmento dos Pensamentos (com o n.º 290 na edição traduzida por Miguel Serras Pereira, Relógio d’Água, 2019, pp. 348-349), que será posteriormente objecto de breve exegese:

«A distância infinita dos corpos aos espíritos representa a distância infinitamente mais infinita dos espíritos à caridade, porque esta é sobrenatural.

Todo o esplendor das grandezas é sem brilho para as pessoas que se dão às investigações do espírito.

A grandeza das pessoas de espírito é invisível aos reis, aos ricos, aos capitães, a todos esses grandes da carne.

A grandeza da sabedoria, que só existe em Deus, é invisível aos carnais e às pessoas de espírito. São três ordens diferentes de género.

Os grandes génios têm o seu império, o seu esplendor, a sua grandeza, a sua vitória, o seu brilho e não têm necessidade alguma das grandezas carnais onde elas não contam. São vistos, não pelos olhos, mas pelos espíritos; é quanto basta.

Os santos têm o seu império, o seu esplendor, a sua vitória, o seu brilho e não têm necessidade alguma das grandezas carnais ou espirituais, onde elas não contam, porque elas nada lhes acrescentam nem retiram. São vistos por Deus e pelos anjos e não pelos corpos nem pelos espíritos curiosos. Deus basta-lhas.

Arquimedes sem brilho teria a mesma veneração. Não deu batalhas para os olhos, mas deu a todos os espíritos as suas invenções. Oh, como brilhou perante os espíritos!

Jesus Cristo sem bens, e sem produção alguma exterior à ciência, pertence à ordem da santidade. Não deu invenção, não reinou, mas foi humilde, paciente, santo, santo, santo para Deus, terrível para os demónios, sem pecado algum. Oh, com que grande pompa chegou e com que prodígios magnificência se mostrou aos olhos do coração que sabem ver a sabedoria! (…)

Mas há aqueles que não podem admirar senão as grandezas carnais como se as não houvesse espirituais. E outros que não admiram senão as espirituais como se as não houvesse infinitamente mais elevadas na sua sabedoria.

Todos os corpos, o firmamento, as estrelas, a terra e os seus reinos não valem o mais pequeno dos espíritos. Pois o espírito conhece tudo isso, e a si mesmo; e os corpos não conhecem nada.

Todos os corpos juntos e todos os espíritos juntos e todas as suas criações não valem o mais pequeno gesto de caridade. Este é de uma ordem infinitamente mais elevada.

De todos os corpos juntos não se pode obter um pequeno pensamento; isso é impossível e de outra ordem. De todos os corpos e espíritos não se poderia tirar um movimento de verdadeira caridade; isso é impossível, e de ordem distinta e sobrenatural.»

(Continua.)


Imagem de Jaroslav Šmahel por Pixabay