Mystérios lusitanos | A vinte e três (23) de cada mês, habitamos o mundo pelo imaginário de Alberto Ferreyra…

(Nos ramos da escrita, repousam, vezes sem conta, as gralhas da distração, ocultas, sob múltiplos disfarces, até que alguém as enxote. Alberto Ferreyra contou com o fino olhar da sua amiga Teresa Correia, detentora do segredo da sua identidade, para afastar ou caçar o grasnar das gralhas. Está-lhe, por isso, muito grato…)

Alberto Ferreyra*

É noite.
Um suave luar –daqueles de que se fazem todos os fantasmas! – enche de sombras as largas paredes da casa da encosta. Três grandes janelas rasgam a fachada. Uma só varanda estende-se, por toda a frontaria, de uma ponta à outra. Pode entrar-se por um dos lados e sair pelo oposto. Naquela casa, tudo é vastidão. Tudo é feito com espaço e imensidão. Foi já, outrora, casa de crianças e muitas correrias. Era a casa dos sonhos de toda a conversa de miúdos. A casa de todos os avós do mundo.
Sobranceira à encosta, dava para um florido jardim. Tudo é beleza, cor, frescura.
M. olha, à distância, sentada, junto ao irmão, J., os rebuliços de outrora. Não são mais do que sombras do que foram.
Sombras. São, agora, só sombras.
Parece ouvir-se, ao longe, num longe já só feito memória, os gritos felizes dos filhos e netos daquela avó Raquel. Há um permanente subir e descer de passos, entre movimentos de adultos que preparam demorados manjares.
Muitos à mesa, mas ainda mais pelos degraus e longos corredores da mansão.
Tudo é movimento. Tudo é alegria.
Recheiam as paredes robustos troféus de caça e luzidias armas.

M. repousa, com doçura, a cabeça sobre o ombro do irmão. Fecha, demoradamente, os olhos e parece encher de alma o vivido.
J. pressente onde andam as memórias da irmã. Viveram, com um quê de inveja, as inúmeras vidas daquela casa vizinha.
Observam, agora, o que resta de uma casa farta. Pendurados nos pregos onde repousavam, outrora, troféus de caça, restam, agora, o pó do tempo e o contraste das cores, na tinta das paredes, com a silhueta das armas.

Na encosta, resiste, apenas, uma árvore, uma oliveira, retorcida pelo vento.
E Raquel, solitária.
Sente-se um sumido gemer, colado às paredes daquela lúgubre morada.
Raquel sai, direita à árvore.
Encosta-se a ela, abraça-a e regressa ao interior.
Apenas uma árvore, aquela oliveira, e a terra, sem ervas. Em noites de luar assim, aquela árvore sulca, no chão, uma sombra sem fim.

– É o que lhe resta! – Sussurra M. A solidão é, agora, a sua companhia.

A solidão que se seguiu a um dos numerosos jantares vívidos e suculentos.
Entre o contar dos dias e das suas surpresas, ouve-se o toque da campainha.
Era frequente. Um ou outro vizinho que vinha pedir fruta ou legumes da extensa quinta para que davam as traseiras da casa.
Mas, naquele dia, ninguém esperara para ser atendido. Deixara, apenas, um cesto e, nele, uma enigmática mensagem: ‘nada do que é vosso vos pertence’.
Um súbito silêncio invadiu aquela casa. Um antigo pomo de discórdia viera sob a forma de um cesto.
Ao silêncio, sucedeu o exaltar das vozes. Tiros. Vários!
E, por fim, um choro. Um demorado choro.
As suspeitas mútuas avolumaram o terror e cegaram os olhares.
Estavam na ‘fase de partilhas’, como se dizia entre o povo. E como é terrível esse tempo!
Aquele em que as alegrias de outrora parecem nada contar; tudo parece sumir-se no temor da perda do mais pequeno recanto justamente reivindicado.
A casa da encosta, vivaz e generosa, dava lugar ao abismo e amnésico mundo de Hades.
Uma mão seca, mirrada, arrastava para si toda a vida, em melodiosa sedução sem resistência.
O mais simples sobreiro, a mais estreita faixa de terra, a mais decaída parede de casa servira de pretexto para a disputa. Os olhos cegaram-se como se tivesse sido noite toda a sua vida.
No meio da contenda, restou, por fim, Raquel que chora os seus filhos e netos.
E a aridez da terra que, silenciada a última arma, tomou conta do jardim da encosta. Tudo é secura e flores tombadas. No chão, folhas secas e a escuridão da terra. Uma brisa levanta, da terra, um pó já seco.
De entre os dedos do filho, deitado sobre o chão, Raquel recolhe o papel que trouxera a fatídica mensagem. Enrolado entre as suas letras, um caroço de azeitona…
A noite, grávida do dia, dá lugar à aurora…


Imagem de Tumisu por Pixabay


*Alberto Ferreyra diz que as suas letras habitam a mente e saem da mão de alguém nascido em terras gaulesas, ainda que afirme, em sussurro, que o seu real nascimento ocorreu nas margens do Antuã, em abril de 2024. É, por isso, um prematuro autor literário, germinado da inspiração que a realidade proporciona quando se tem a companhia, nos livros, de génios como Jorge Luis Borges, Miguel Torga, Gabriel García Marquez ou personagens como Poirot ou Padre Brown.
Na sua escrita, cruzam-se o real e o imaginado, o fictício e o histórico, numa embrenhada teia em que o leitor continua a ler, mesmo já depois de fechado o conto. O real continua a fecundar histórias na mente de quem lê Ferreyra. Cada conto, feito dos mistérios desvelados, aproxima o tempo e distancia o espaço, esticando-o até ao eterno e ao infinito. Ao ler Ferreyra, faz-se ‘silêncio’ (‘mystério’ alude à etimologia grega da palavra, que remete para o ‘fazer silêncio’, ‘emudecer-se’…) para que possam ecoar as palavras, para que possa desenovelar-se o enredo sucintamente desvelado.
J. e M., protagonistas de cada um dos contos, acompanhados, em alguns deles, pelo seu periquito ‘branquinho’, fazem emergir, do real em que se enredam, histórias que, nascendo da imaginação de Ferreyra, permanecem como realidades possíveis, deixando a suspeita de terem mesmo ocorrido.
Se não foi real, Ferreyra o criará, inspirado numa cosmovisão que tanto deve àquela religião que fez do encarnado a condição fundamental do existir.
A vinte e três (23) de cada mês, habitaremos o mundo pelo imaginário de Alberto Ferreyra…