Seg. Jun 14th, 2021
Modos de interação entre ciência e religião

Conectar pontos

Miguel Oliveira Panão

Blog & Autor

Vivemos na Era da Conectividade. Estamos ligados fisicamente pelos relacionamentos, mais ou menos profundos, que temos com os que estão à nossa volta, e com o mundo que nos rodeia. Mas nos últimos anos abrimos o mundo a um outro tipo de conectividade: a digital. Não imaginaríamos que esse criasse um outro mundo diferente daquele em que nascemos. Um mundo digital onde todos estão conectados entre si, 24/24 horas, 365 dias por ano.

O ser humano é no seu íntimo um ser relacional. Aliás, a relacionalidade é a marca que Deus imprimiu no Universo e foi através de Jesus, que nos ofereceu uma visão trinitária de Deus, que nos foi possível ligar algumas peças do puzzle da realidade a esse respeito. A visão desse puzzle revelou um princípio universal que orienta os eventos neste mundo. O princípio narrativo que permeia tudo o que existe de uma marca relacional.

Teilhard de Chardin apercebeu bem disso quando desenvolveu a sua Lei da Complexidade-Consciência. Isto é, desde os quarks que constituem a ínfima natureza da matéria, às partículas elementares, átomos, moléculas, macro-moléculas, organismos unicelulares, organismos multicelulares, plantas, animais, ser humano e com esse, um mundo que toma consciência de si mesmo. Nesta narrativa que se desenrola a partir do “nascimento” do Universo, assistimos a um incremento de complexidade. De facto, a complexidade é um tecido relacional de histórias que se cruzam e entrelaçam para tocar no mundo uma sinfonia de sons, cores, ideias, culturas, conectividade. Mas, se a conectividade faz parte da nossa natureza mais profunda, por que razão a sua permanência, através do mundo virtual por nós criado, nos isola do mundo exterior e nos torna mais desconexos?

Falta-nos conectar dois pontos importantes: o real com o virtual.

A realidade virtual materializa as histórias que antes ficavam remetidas para a nossa imaginação, de tal modo que, quem vive por demasiado tempo no mundo virtual, corre o risco de perder a noção da realidade física e social.

Não é possível, ou desejável, recusar a existência do ponto virtual que a mente humana deu origem, mas se centrarmos a vida apenas nesse ponto, poderá tornar-se num verdadeiro buraco negro sobre o qual sabemos, ainda, pouco em relação às reais consequências. Mas importa reconhecer o imenso horizonte aberto pelo ponto virtual.

O ponto virtual superou o limite do tempo e do espaço em relação ao fluir das ideias, acontecimentos, informação, dando início a uma era digital que transformou a face do nosso planeta. Trouxe a oportunidade de superarmos a barreira do desconhecimento que aprisionava muitos povos à ditadura imposta por alguns. Trouxe a oportunidade de qualquer um poder dar a conhecer os seus talentos sem estar sujeito à opinião toda-poderosa de outros. Trouxe voz a quem por mais que gritasse, nunca seria ouvido. Trouxe um incremento de complexidade à nossa vida e estamos ainda a adaptarmo-nos a este novo mundo e, daí, o risco.

Os alpinistas que fazem escalada, por vezes, só têm um modo de continuar em frente: saltar. Dizem fazer um “dyno.” Mas qualquer salto só tem a mínima possibilidade de sucesso se partir de uma posição de equilíbrio. Por analogia, sinto que a emergência da era digital levará a humanidade a um passo evolutivo cultural, mas será um salto que só terá a mínima possibilidade de sucesso se partir de uma posição equilibrada entre a realidade física e a virtual.

Se a nossa natureza é relacional, a nossa vocação é conectar pontos, sobretudo o ponto real com o virtual. Como se conectam, então, estes pontos e todos os outros?

Com perspectivas.


Imagem de Pexels por Pixabay