Ter. Dez 7th, 2021

ALICE CAVADINHA MAGALHÃES E ARMÉNIO ALVES DA COSTA


Georgino Rocha

Alice Cavadinha Magalhães e Arménio Alves da Costa nascem no Brasil, respectivamente no Rio de Janeiro e em Belém no início do século vinte, filhos de emigrantes do Porto, vêm depois para Portugal com as suas famílias, conhecem-se e casam, e vão morar para S. Jerónimo de Real, paróquia de Braga. São pais de uma família numerosa, nascendo a primeira filha em 1927.

Era o tempo do fim da primeira república, com o General Gomes da Costa a levantar-se em armas e a promover a revolução de resgaste da dignidade nacional ferida pela situação de miséria vivida e de política criada. Era o tempo de a Igreja, pela voz dos seus Bispos, “tocar a rebate” para convocar os católicos a e
mpreenderem a reconquista cristã, consignada no Concílio Plenário Português e na Pastoral Colectiva que o promulga. Era o tempo da crise económica internacional e da ascensão ao poder de partidos que vieram a revelar-se totalitaristas. Era o tempo de Pio XI com o seu magistério luminoso a pretender intervir em áreas decisivas, designadamente na compreensão da família e das políticas relacionadas com ela.

Em Real, o casal Alice e Arménio encontra um ambiente social marcado pela indiferença, frio nas relações de vizinhança, desordeiro e violento. Ainda se faziam sentir os “ares belicosos” dos regressados da I Grande Guerra que ali se acolheram. “A autoridade era um militar que, muitas vezes, se passeava a cavalo”, atesta o P. Valdemar em depoimento no livro “Sinfonia”, de que adiante se falará. A vida cristã, por factores vários, de que se destaca a frequente mudança de pároco, ia perdendo força, em quantidade de praticantes e em qualidade de devoções. As tradições religiosas mais arreigadas mantinham-se como “património” comum e enchiam de brio quem promovia as respectivas festas.

Os vizinhos, primeiro, e depois a população vai, gradualmente, dando conta do comportamento do casal e das atitudes das crianças que iam nascendo. E dispensa-lhe grande consideração. “Meus pais bem cedo se evidenciaram pela educação e pela proximidade para com toda a gente. Eram muito respeitados, por todos e, sobretudo a partir da minha mãe”, confessa a filha Assunção em texto escrito para o presente trabalho.

 

Passos auspiciosos do Casal

A formação cristã de Alice era sólida e abrangente. Beneficiada por um forte testemunho de fé dos pais, é educada num colégio católico no Porto. A de Arménio vai crescendo progressivamente, sobretudo a partir do exemplo da esposa e da família, da participação num Cursilho de Cristandade e do aproveitamento de outras oportunidades surgidas e procuradas.

Com a acção conjunta de ambos, cada um a seu modo, e cultivando um constante e renovado espírito de iniciativa, os seus passos “estariam a ser os primeiros e fundamentais passos dos futuros filhos”, confessa o P. Valdemar, que adianta: “Adivinharam-no, sentiram-no e alegraram-se com a maior humildade e satisfação”.

Alice e Arménio sabem ajudar-se a crescer como casal e geram uma numerosa família. Os filhos, à excepção de Olinda, Conceição e José que morrem cedo, fazem o percurso normal da existência, cultivando os dons recebidos e valorizados e tomando opções de realização pessoal abertas ao serviço do próximo: no casamento e no celibato. Dois são ordenados padres diocesanos – O Valdemar e o Arménio – e desempenham funções pastorais relevantes.

 

Família: uma “betânia” em Aveiro  

A família, por razões de trabalho, vem para Aveiro em 1947, ficando a viver em Esgueira. Aqui estabelece-se uma forte relação de proximidade com o pároco, tanto pela colaboração em alguns serviços paroquiais, como também influenciada pela presença dos filhos Valdemar e Arménio, seminaristas em Braga. Graças ao grande desejo do pároco para que eles viessem para Aveiro, D. João Evangelista assume esta causa e consegue do Arcebispo Primaz a transferência.

Passa, depois, a residir junto ao Paço Episcopal, na Vera Cruz, proporcionando um agradável ambiente familiar a quem lhes bate “à-porta” para um serão ou uns momentos de sã convivência, já iniciados em Esgueira. “Era para mim como que uma “betânia”, no fim dos afazeres diários” reconhece João Gaspar, ao tempo secretário de D. Domingos Fernandes.

Procurando dar os traços biográficos do P. Arménio, no livro “Sinfonia” elaborado por D. Manuel Trindade, a pedido do Centro Universitário Fé e Cultura, o P. Valdemar apresenta as características principais da sua família afirmando ser uma família cristã, numerosa, marcada pelo chamamento de Deus, onde os gérmenes iniciais atingiram uma realização admirável de vida, fé e cultura, “na qual o Padre Arménio tem uma posição bem distinta”. E ao descrever cada uma destas características, destaca em primeiro lugar os “pais, profundamente crentes, traduzindo na vida o mistério da presença de Deus e dos valores de retidão; capacidade do serviço dos outros e honestidade de vida que derivam do Evangelho”.