Ter. Dez 7th, 2021

Pessoa Notável*

ANÍBAL DE OLIVEIRA MARQUES RAMOS 

Pe. Georgino Rocha

Aníbal Ramos, assim era nomeado habitualmente, na freguesia do Bunheiro, Murtosa, a 27-02-1925, no seio de uma família cristã numerosa. Banhada pelo braço norte da Ria de Aveiro e beneficiando de um ambiente rural, rico de tradições, a cultura popular estava impregnada de valores humanos que serviam de suporte às virtudes religiosas.

Após a escola primária, Aníbal entra no seminário de Vilar, Porto ( a Diocese de Aveiro é restaurada em 1938), de Santa Joana e dos Olivais, onde termina o curso de teologia. É ordenado a 20-09-1947, por D. João Evangelista de Lima Vidal. Inicia o ministério presbiteral num clima de grande entusiasmo com a aplicação da Constituição do Bispado, fruto do Sínodo Diocesano de 1944, e com o ambiente de carestia de bens pós II Grande Guerra, cujas consequências se faziam sentir profundamente também entre nós. Vem a ser nomeado Monsenhor por João XXIII, a 19 de Junho de 1959.

De alma e coração 

O P. Aníbal Ramos, na “Diocese de Aveiro, foi vigário paroquial em duas freguesias, foi professor, perfeito, vive-reitor e reitor do Seminário de Santa Joana, assistente de organismos da Acção Católica e de outros movimentos de apostolado laical, foi professor de Educação Moral e Religiosa, foi consultor diocesano, vigário judicial e vigário- geral. Em todos estes cargos, ele soube dar-se e deu-se à Igreja, com lealdade, verdade e fidelidade, como convinha a quem a ela se entregara nos anos moços, de alma e coração”. João Gonçalves Gaspar, Caminhar na Esperança.

O autor menciona também outras funções como a colaboração na formação de leigos chamados a realizar serviços específicos nas paróquias, em acções de esclarecimento de sacerdotes e diáconos, no âmbito do Secretariado Diocesano de Pastoral, e assume a responsabilidade da Comissão Diocesana de Arte Sacra. Durante muitos anos acompanhou o povo do bairro de Santiago, celebrando na capela de Nossa Senhora da Ajuda, e fazendo-se solidário com os seus protestos aquando da expropriação dos terrenos onde viriam a ser construídos alguns edifícios da Universidade de Aveiro. No seu proceder, revela uma personalidade forte, distinta, superior, algo distante e fria.

Experiência marcante

Evoco, hoje, a sua memória com emoção, referindo dois momentos cruciais que me envolvem, também.

O primeiro, tem a ver com a participação num curso breve de “personalidade e relações humanas”, elaborado pela escola francesa do mesmo nome. Que se inscreve “na corrente da psicologia humanista e se fundamenta numa visão dinâmica e positiva da pessoa, acreditando nas suas capacidades, quaisquer que sejam a sua situação, a sua história, as suas dificuldades”.

Orientado por uma equipa sediada em Cascais, mas de procedência madrilena, os participantes são convidados a mergulhar no seu eu mais profundo e a percorrer as diversas zonas da sua personalidade e sua repercussão no relacionamento interpessoal e em grupo. Sem atender à roupagem social, aos títulos e funções. O ambiente facilitava a introspeção que, normalmente, era provocada por breves palestras e exercícios e acompanhada ora de música suave, ora de oração espontânea e orientada, seguida de partilha voluntária.

Aníbal Ramos experienciou tão intensamente este encontro que “modificou” o seu modo de estar e de se relacionar: proximidade mais familiar e afectuosa, simplicidade de presença e estilo de vida, e outras atitudes expressivas. O contraste com o seu  anterior modo de ser e de proceder era notório.

O Monsenhor, carinhosamente

Foi-me pedido um testemunho pessoal sobre o padre Aníbal de Oliveira Marques Ramos, o Monsenhor, como aqui, pelo Bunheiro, sua terra natal, era carinhosamente tratado. Fui aluno do Seminário de Santa Joana, era ele, ao tempo, seu Reitor. Derivam daqui, essencialmente, os muitos contactos que tivemos. Eu era para ele, como qualquer outro Bunheirense, sempre com indisfarçável simpatia, um patrício. (…).

Recordo, andaria eu pelos meus 16 anos, ter um dia recebido recado de que o reitor queria falar comigo, que me aguardava nos seus aposentos. De coração bem apertado bati, ao de leve, à porta do seu quarto e logo surgiu o cumprimento: olá patrício, então como estás? (…) Já num clima mais sereno, disse-me que o motivo de me ter chamado era um pedido dos meus pais, seus patrícios e contemporâneos. Tinham-lhe pedido para ter uma conversa comigo para saberem se eu estava seguro de querer continuar no seminário, pois, se assim não fosse, queriam fazer-me ir ter com eles para o estrangeiro, pois eram emigrantes; tinham receio de eu poder de ir para a guerra do  ultramar, como aliás veio a acontecer. E falou-me do amor dos meus pais e do respeito que teriam pela minha decisão e de que ele estava ali a fazer apenas de elo nesta ligação que o mar tornava  tão distante. Despediu-se de mim, depois de ouvir que desejava continuar no seminário, sem sermão, nem outros considerandos e com a mesma simpatia de sempre.

Se hoje recordo este facto, que, aparentemente, nada tem de extraordinário, é porque terá sido o momento em que “mais próximo” estive dele; e, sei-o bem, esta proximidade sabia-a ele fazer com uma mestria que só os grandes homens possuem; não é fácil fazer de pai e de mãe e, sobretudo, fazê-lo com todo o afecto. Obrigado, Monsenhor. António Sousa

 

Visita a familiares e amigos: A surpresa da morte

O segundo momento crucial foi a sua ida ao Brasil em visita familiar e trabalho pastoral. Destaco apenas dois episódios marcantes: A doença que o atacou e levou à morte, e a evocação agradecida e emocionante feita no XX Encontro Nacional de Pastoral Litúrgica na sessão de encerramento a 29 de Julho de 1994. Monsenhor Aníbal havia sido o grande obreiro na sua organização e preparação.

Sobre a doença, passo o relato para a Irmã Marília Gonçalves, da Comunidade das Irmãs da Casa do Pobre, que solicitamente o acompanhou após a manifestação dos primeiros sintomas e teve acesso às anotações, que o Monsenhor como sempre costumava fazer, constituíam um autêntico diário. O relato foi apresentado no referido encontro nacional e publicado no boletim de Pastoral Litúrgica, em Setembro: “pelo almoço, realizado «em clima de tranquilidade, recolheu-se para algum repouso. Quando o chamaram para continuar o passeio, Monsenhor não estava bem. Tinha-se sentido mal, com suores frios, aperto no peito e falta de forças»… Chamada “a equipa médica constatou uma «angina e insuficiência coronária aguda», pelo que foi hospitalizado na Unidade de Tratamento Intensivo… O enfarte, segundo a avaliação médica, “ocupara uma extensa área e a insuficiência cardíaca inspirava cuidados”… “Na quinta-feira, dia 11, pediu que avisassem o seu irmão Adriano e pediu o sacramento da Unção dos Enfermos. Disse ao sacerdote: «Vou aproveitar. Não sei o que vem pela frente». “Confessou-se, recebeu a Comunhão, a Unção dos Enfermos e acompanhou as orações respondendo em voz alta e com muita paz e tranquilidade”. Pelas 16 horas do mesmo dia disse à irmã Marília: “De manhã estive preocupado, senti uma dorzinha no peito. Falei à cardiologista e agora estou melhor. Vamos adiar os nossos passeios”. Na madrugada do dia 12 de Agosto (01h e 30 min.) enquanto dormia, o Monsenhor teve uma paragem cardíaca (que lhe trouxe a morte).

O Bispo de Recife e um grupo numeroso de fiéis e Irmãs velaram e rezaram o ofício de defuntos, terminando com a Eucaristia. Diligenciaram para que a urna com os restos mortais viesse prontamente para Portugal. Acolheu-a no Porto D. Júlio Rebimbas e o cortejo fúnebre seguiu para o Bunheiro. Na igreja matriz e imediações, aguardava numerosa multidão, que participou na celebração da missa exequial que foi presidida, devido à ausência do bispo de Aveiro, D. António Marcelino, por D. Manuel de Almeida Trindade e concelebrada por alguns bispos, muitos sacerdotes e diáconos.  onde foi sepultado no cemitério local.

“Memória agradecida” deixa-nos a última sábia exortação de Monsenhor Aníbal Ramos: adiar “passeios” para ter tempo de preparar a “grande viagem”, a definitiva.

Constante alegria no ministério 

De modo muito particular, e em nome da Comissão Episcopal de Liturgia e de todos os participantes neste Encontro, quero dizer uma palavra de vivo agradecimento a Mons. Anibal Ramos. Ao longo de dezanove anos ele dirige o Secretariado Nacional de Liturgia e exerce as funções de Secretário da Comissão Episcopal. Além de trabalho diário requerido por tais cargos, a ele se deve a impecável e cuidada organização e orientação deste nosso Encontro. (…)

Escolhido e nomeado pela Conferência Episcopal Portuguesa, assumiu em 1975, as funções de Director do Secretariado Nacional de Liturgia e de Secretário da respectiva Comissão Episcopal e, mais tarde, de Presidente da Comissão Nacional de Arte Sacra e do Património Cultural da Igreja. Foram dezanove anos de meritório trabalho pastoral que oportunamente realcei no mencionado encerramento do XX Encontro Nacional de Pastoral Litúrgica. É de salientar também a participação entusiástica esclarecida nas reuniões dos Secretários das Comissões nacionais de Liturgia da Europa e nos Encontros das Comissões Episcopais de Liturgia dos Países de língua oficial portuguesa, em que suas qualidades de relacionamento fácil, de grande capacidade de diálogo e de reconhecida competência naturalmente lhe granjearam enorme consideração, estima e a profunda amizade, que gostava de cultivar. Em todas as circunstâncias e actividades sobressaíam a riqueza espiritual de que era ornado e a constante alegria no ministério sacerdotal. D. António Francisco Marques, bispo de Santarém e presidente nacional da Comissão Episcopal de Liturgia. 

 

Evocação de Mons. Aníbal Ramos: Ensinou Portugal a rezar

Um telefonema trouxe-me a notícia inesperada: tinha morrido no Brasil Mons. Aníbal Ramos! Raras vezes senti uma emoção tão profunda. Ligava-me a Mons. Aníbal uma velha amizade que já vinha de antes da minha nomeação para bispo de Aveiro. (…).

Havia ido ao Brasil para visitar membros da família e para participar da Missa nova de um sacerdote seu conhecido, recentemente ordenado. D. Júlio, que o conhecia de perto, desde os tempos do Seminário, tinha-o dissuadido de fazer esta viagem. Sabia que estava esfalfado dos trabalhos da Semana Pastoral Litúrgica, que terminara poucos dias antes, e sabia também que o seu estado de saúde nos últimos tempos não aconselhava longas viagens. Mas, neste terreno, Mons. Aníbal não era para se deixar convencer facilmente. (…)

Presidi às exéquias, na ausência do bispo da Diocese, D. António Marcelino, que celebrou a Missa de 7º dia. A igreja do Bunheiro estava repleta de fiéis. (…)

Na altura própria, tive de pronunciar algumas palavras. Estava emocionado. Agarrei-me às folhas do Missal aberto na minha frente e, sem um gesto, deixei, por alguns minutos, falar o coração. Dirigi-me a Mons Aníbal e, pela primeira vez, tratei-o por tu. Recordei a família, o seminário, onde tinha prestado serviços como Reitor, a ajuda que me deu como meu Vigário Geral e, a partir de 1975, de modo particular a acção desenvolvida como Director do Secretariado da Pastoral litúrgica. Mons. Aníbal, e a equipa de que se fez rodear, tinha, nestes vinte anos, ensinado Portugal a rezar. Basta lembrar as Semanas de Liturgia, que, tendo começado por umas escassas dezenas de pessoas, passara em breve a contar os participantes pela casa das centenas, atingindo mesmo, nos últimos anos, mais de um milhar. À equipa se deve a edição, em língua portuguesa, dos livros litúrgicos surgidos do Concílio Vaticano II, desde os Rituais dos Sacramentos e dos Sacramentais até à da Liturgia das Horas, ultimamente à do Missal. Este traz no rosto os seguintes dizeres: “ Missal Romano com os próprios de Angola, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique, Portugal, São Tomé e Príncipe”. Quem reflectir um pouco poderá avaliar, para além do mais, o valor cultural de um Missal editado em língua portuguesa, por onde povos de vários países, poderão, de futuro, participar na celebração da Eucaristia. (..). D, Manuel, Bispo em Aveiro

Pessoa querida, amor pela comunhão

Monsenhor Aníbal Ramos, há longos anos, dedicou sua atividade à causa da Liturgia, não só em Portugal e na Europa, mas também na América e na África promovendo proveitoso intercâmbio entre os países de língua portuguesa. Seus dotes pessoais, sua gentileza que a todos conquistava, e, acima de tudo, seu amor pela comunhão na liturgia dos países lusófonos, o tornaram uma pessoa querida que não será esquecida por aqueles que o conheceram. Bispos do Brasil, responsáveis pela Liturgia.


*Em parceria com a revista Igreja Aveirense
Foto recolhida do Boletim de Pastoral Litúrgica, n.º 75 | JULHO — SETEMBRO | 1994