Dom. Out 17th, 2021

Oratório Peregrino

Um oratório à maneira de um viático para tempos de carestia
Uma proposta desenvolvida em parceria com

Irmãs do Carmelo de Cristo Redentor – Aveiro


XXXVIII Passo | O céu já começou

 

Há dois incisos importantes para entender bem o fio condutor do pensamento neste reflexão. Em primeiro lugar, o «e contudo». «Como a cerva busca correntes de água», a carmelita – que vive entre dores, mas sobretudo que vive enamorada – «tem sede do Deus vivo». «E contudo»… O seu «ardente desejo da Beatitude» (UR 14) não é impaciente. Não «encontrou já o seu céu na terra, pois o céu é Deus e Deus está na minha alma» (Ct 122)?

Embora seja pobre e pequena como o «pássaro» ou a «rola», ali, no céu da sua alma, não «vacilará» por causa dos ventos e das chuvas do sofrimento, mas terá em Deus o seu «rochedo» e a sua «cidadela» inexpugnáveis. Ali, sobretudo, prosseguirá a sua vida de louvor. Sendo filha de Deus, por ser «membro da família de Deus», a sua casa interior é puro acolhimento diante dessa inaudita realidade de amor: «O meu Mestre, que quer habitar dentro de mim, com o Pai e o seu Espírito de amor».

E aqui é onde entra em cena o segundo inciso importante, tomado de um salmo: a «ascensão no seu coração». Isabel tem dentro de si uma escada secreta. Ao renunciar a si mesma (e pode reconhecer-se facilmente o acento tão típico de Isabel na expressão «sem mim mesma»), «desce» ao seu próprio «abismo interior» para ser a anfitriã dos Três Hóspedes interiores que – intercomunicação e interpenetração recíprocos – a convidam, por sua vez, a entrar ainda mais n’Eles, para «penetrar no interior do seu Amado», «no seio da tranquila Trindade», da «insondável Trindade». Realmente, Isabel desce «ao fundo do abismo sem fundo» (UR 1).

Isabel pode aplicar-se a si mesma as palavras que dedicava a Maria: «Nela tudo se passa no interior», «no seu coração» (UR 41). Mesmo a morte: pois essa passagem para o céu da glória que hoje entrevê pela fé e onde amanhã habitará numa claridade esplendorosa realizar-se-á simplesmente «desaparecendo no seu Deus» («essência tão sublime» da alma habitada).

Isabel pensou certamente na morte de amor descrita por S. João da Cruz. A sua será uma morte com amor e em amor, despojando-se de si mesma num grande esquecimento de si: as palavras «desfalecimento» e «desvanecimento» estão aí para o evocar, mas são ainda mais a expressão do seu ardente desejo de louvor e adoração «diante desse Amor todo-poderoso, diante dessa Majestade infinita que mora nela». «Esse é o mistério que hoje canta a minha lira», hoje como ontem e hoje como amanhã.

O paradoxo «descer-subir» (movimento que, em qualquer caso, é vertical) esclarece-se à luz do céu da alma, «o seu céu antecipado onde começa já a viver a sua vida eterna». Ao morrer, o seu gérmen abrir-se-á na Vida. Quando terminar a sua Sexta-feira santa, Isabel viverá «no seu coração» a sua «ascensão» pascal em Jesus ressuscitado, glorioso, mas já presente nela. «Subirá» acima de tudo, «através das nuvens», «sem sair da fortaleza santa» da sua alma. Pois o céu está ali!

O céu já começou. Um dia trazer-nos-á a plena e inacabável floração de um olhar cheio de assombro, «um olhar cada vez mais simples e mais unitivo». O olhar recíproco será por fim claridade e plenitude de comunicação amorosa. A beleza de Deus estalará sobre a alma: «Contemplai o Senhor e ficareis radiantes» (UR 17). E na visão de Deus, toda a criatura será reconhecida e amada pelo seu verdadeiro valor divino, eternamente!

O texto de Isabel

  1. «Como a cerva sedenta anseia pelas nascentes de água viva, assim minha alma suspira por ti, ó Deus! A minha alma tem sede do Deus vivo! Quando irei e comparecerei diante da sua face?…» (Sl 41, 1-2).

E, contudo, como “o pássaro que encontrou um lugar para se proteger”, como “a rola que achou um ninho para abrigar os seus filhinhos” (Sl 83, 4), assim Laudem gloriae encontrou – enquanto espera ser levada para a santa Jerusalém, «beata pacis visio» [sagrada visão de paz] – o seu retiro, beatitude e Céu antecipado, em que começa a vida de eternidade. «Em Deus a minha alma está silenciosa; é d’Ele que espero a minha libertação. Sim, Ele é o rochedo em que encontro a salvação, a minha cidadela, e não hei-de ser abalada!…» (Sl 61, 2-3).

Eis o mistério que hoje canta a minha lira! Como a Zaqueu, diz-me o meu Mestre: «Apressa-te a descer, pois tenho de ficar em tua casa…» (Lc 19, 5). Apressa-te a descer, mas onde? Ao mais profundo de mim mesma: depois de me ter deixado, separada, e despojada de mim mesma, numa palavra sem mim mesma.

  1. «Tenho de ficar em tua casa!». É o meu Mestre quem me manifesta esse desejo! O Meu Mestre que quer habitar em mim, com o Pai e o seu Espírito de amor, para que, segundo a expressão do discípulo muito amado, tenha «comunhão» com Eles (1 Jo 1, 3). «Já não sois hóspedes ou estrangeiros, mas antes da casa de Deus», diz São Paulo (Ef 2, 19). Eis como entendo ser «da casa de Deus»: é viver no seio da tranquila Trindade, no meu abismo interior, nessa “fortaleza inexpugnável do santo recolhimento” de que fala São João da Cruz!

David cantava: «A minha alma cai em desfalecimento ao entrar nos átrios do Senhor» (Sl 83, 3). Parece-me que esta deve ser a atitude de toda a alma que entra nos átrios interiores para aí contemplar Deus e se unir intimamente com Ele: «cai em desfalecimento», num desmaio divino em presença deste Amor todo-poderoso, desta Majestade infinita que nela mora! Não é de modo nenhum a vida que a abandona; mas é ela que menospreza esta vida natural retirando-se… Porque sente que não é digna da sua essência tão rica, e vai assim morrer e derramar-se em Deus.

  1. Ó! como é bela, esta criatura assim despojada, liberta de si mesma! Está em estado de “dispor das ascensões em seu coração para passar do vale de lágrimas” (quer dizer, de tudo o que é menor que Deus) “ao lugar que é o seu fim” (Sl 83, 6), esse «lugar espaçoso» (Sl 17, 20), cantado pelo salmista, que é, parece-me, a insondável Trindade: «Immensus Pater, immensus Filius, immensus Spiritus sanctus!…».

Sobe, eleva-se acima dos sentidos, da natureza; transcende-se a si mesma; ultrapassa tanto a alegria como a dor, e passa através das nuvens, para não se repousar senão quando tiver penetrado «no interior» d’Aquele que ama, e que lhe dará «o repouso do abismo» [Ruysbroec]. E tudo isto, sem ter saído da santa fortaleza! O Mestre disse-lhe: «Apressa-te a descer

É ainda sem sair de lá, que há-de viver à imagem da Trindade imutável, num eterno presente, «adorando-A sempre por causa de Si-mesma» e tornando-se, por um olhar sempre cada vez mais simples, mais unitivo, «o esplendor da sua glória» (Hb 1, 3), dito de outro modo, o incessante louvor de glória das suas adoráveis perfeições.

Sugestões para orar

Recebe esses conselhos de Isabel como de uma amiga.

«À luz da eternidade é que a alma vê realmente o que são as coisas; oh, como tudo aquilo que não foi feito para Deus e com Deus é vão! Oh, peço-lhe, marque tudo com o selo do amor! (…) Deixo-lhe a minha fé na presença de Deus, do Deus todo Amor que habita nas nossas almas. Confio-lhe: é esta intimidade com Ele «no interior» que constitui o belo Sol que ilumina a minha vida, tornando-a já como um Céu antecipado; é o que hoje me sustém no sofrimento» (Ct 333).

«Encontro-vos no Lar do Amor; é lá que decorrerá a minha eternidade e podeis já começá-la aqui. (…) Ficarei invejosa da beleza da sua alma, porque, já o sabeis, o meu coraçãozinho ama-vos muito e, quando se ama, deseja-se bem ao ser amado. Parece-me que, no Céu, a minha missão será de atrair as almas ajudando-as a saírem de si mesmas para aderirem a Deus por um movimento muito simples e todo feito de amor, e de as guardar nesse grande silêncio do interior que permite a Deus imprimir-se nelas, transformando-as em Si-próprio. (…) O meu Mestre apressa-me. Ele já não me fala senão da eternidade de amor. (…) Quereria viver cada minuto em plenitude. (…) Vivamos de amor para de amor morrer e a fim de glorificar a Deus todo Amor» (Ct 335).

E chegam os últimos dias. Isabel beija o crucifixo da sua profissão e pronuncia estas simples palavras sumamente eloquentes: «Tudo passa… Na tarde da vida só o amor permanece…». Doravante apenas fala. Depois de uma violenta crise, exclama: «Amor! Amor! Tu sabes quanto Te amo e como desejo contemplar-Te! Tu sabes também quanto sofro. No entanto, trinta, quarenta anos mais, se queres, estou disposta. Apura toda a minha substância para tua glória, que se destile gota a gota pela tua Igreja».

Isabel morre ao amanhecer do dia 9 de Novembro. Na véspera, as suas últimas palavras inteligíveis foram: «Vou para a Luz, para o Amor, para a Vida…». Três palavras chave de São João; Deus é Luz, Amor e Vida. Três palavras que explicam a fascinação que Deus exerceu sobre Isabel e sobre muitos outros. Três palavras que exprimem tudo o que Deus quer ser para ti, para sempre sem fim.

Leva contigo, no teu coração, esse lugar santo onde o Amor espera a tua voz e o teu olhar para te encher pouco a pouco da sua Vida, amanhã um pouco mais do que hoje. Ele chama-te constantemente e constantemente quer enviar-te. Pois, diz Isabel, «como é poderoso em relação às almas aquele apóstolo que sempre permanece na Fonte das águas vivas; pode assim transvasar à sua volta, sem que nunca a sua se esvazie, pois comunga com o Infinito» (Ct 124). E a Guida, no seu lar, faz-lhe esta maravilhosa concreção: «Através de ti Deus quer fazer-se amar» (Ct 233).

«Na tarde da vida só o amor permanece…». Nunca é demasiado tarde para aprender a amar o Amor, para dizer-lhe «Amor», para pagar-lhe com amor. Estas são as grandes perguntas num Retiro: Apesar de tudo, creio eu no seu Amor (1 Jo 4, 16)? Amo eu o Amor? Amor, que queres de mim hoje?

Não sabes o que a vida ainda te pode trazer. No céu compreenderemos o segredo de muitas coisas e a fidelidade de Jesus a quem crucificamos. Isabel podia dizer: «Há uma palavra de São Paulo que é como que um resumo da minha vida, e que se poderia escrever a cada um dos seus momentos: «Propter nimiam charitatem». Sim, todas estas torrentes de graças, é «porque Ele muito me amou» (Ct 280). E dizia isto durante a sua última doença, sabendo que já não se curaria aqui na terra. Mas tinha aprendido a viver de fé em Jesus Cristo presente no céu da sua alma, um céu iluminado por essa fé, que, com frequência, se tornava luminoso de amor.

No céu da nossa alma, onde nunca estamos sós, hoje, amanhã e sempre cantemos muitas vezes o Sanctus que nunca terá fim: Santo, Santo, Santo é o Senhor, Trindade de amor! O céu e a terra estão cheios da vossa glória!


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