‘Duas Asas’ – rubrica dedicada ao pensamento e escritos de Edith Stein
(Parceria com o Carmelo de Cristo Redentor – Aveiro)
A ESTRUTURA DA PESSOA HUMANA
Javier Sancho*
a) O contexto
O presente trabalho é o resultado do curso que vai leccionar durante o semestre de inverno de 1932-1933 no mesmo instituto, mas, desta vez, na área da antropologia filosófica.
Nesta caso, as aulas eram também ao sábado, mas semanalmente e no horário das 3, 30 às 5. 00 da tarde. O primeiro dia de aulas foi a 5 de Novembro. O curso prolongou-se até ao mês de Fevereiro de 1933.
A elaboração do manuscrito foi algo sucessivo. De facto, lembra nas suas cartas que está a procurar aproveitar algo da sua obra Acto e Potência para as suas aulas (cf. Ct 330). Não obstante, o resultado tem pouco a ver com essa obra, fundamentalmente porque a pretensão é diferente.
Pelas notas que deixou manuscritas, podem seguir-se, inclusive, os temas que foi dando durante os primeiros nove sábados. Parece ser que foram um total de 13 sábados que necessitou para desenvolver todo o temário deste escrito. Conserva-se também o manuscrito dos apontamentos destas aulas tomadas por uma aluna: Tagebuch für Colleg Dr. E. Stein. A. Hendlker.
– A estrutura da pessoa humana (Der Aufbau der menschlichen Person), é o título do curso e da obra publicada. Neste caso, não se publicou senão muitos anos depois, em 1914, em ESW 16.
b) A estrutura
A obra está estruturada com base em 9 capítulos:
- A ideia do homem como fundamento da pedagogia e do trabalho educativo
- A antropologia como fundamento da pedagogia
- O homem como coisa material e como organismo
- O homem como animal
- O problema da origem das espécies. Género, espécie, indivíduo
- O animal do homem e o especificamente humano
- A alma como forma e como espírito
- O ser social da pessoa
- Passagem da consideração filosófica do homem à teológica.
No esquema de toda a obra observam-se uns elementos que vão ser fundamentais neste curso: o carácter pedagógico progressivo, que vai ser acompanhado pela dinâmica interna estabelecida por Edite. Embora ofereça conclusões, durante todo o processo estimula os alunos a que façam eles mesmos o caminho. Neste sentido, segue uma metodologia claramente fenomenológica.
c) Conteúdo
Sem dúvida alguma, estamos diante de uma das mais belas obras de Edite Stein. Nela encontramos reflectido, numa síntese maravilhosa, o seu pensamento antropológico, desde as suas reflexões filosóficas, até às suas conclusões teológicas e práticas. Apresenta uma vantagem em relação aos seus outros estudos: ao tratar-se de um curso, a dureza da precisão terminológica, abre espaço à dimensão pedagógica. Isto facilita muito a sua leitura e compreensão aos que não estão habituados á linguagem filosófica.
Ao longo de toda a obra analisa o ser do homem, quer a partir da sua unidade pessoal quer a partir da sua unidade com Deus e com a humanidade inteira. Junta a antropologia filosófica com a antropologia teológica, para concluir com propostas para a vida prática do cristão.
O discurso é claramente ascendente. No primeiro capítulo, propõe-nos a sua «tese de trabalho», que servirá de fundamento e justificação a todo o discurso. O fundamento de toda a acção educativa e formativa, bem como da pedagogia, depende, em última instância, do conceito de pessoa humana que se tenha. Constata alguns exemplos e suas consequências na pedagogia: o homem do idealismo alemão, o homem da psicologia da profundidade, a filosofia de Heidegger, etc… Como contraposição coloca a visão cristã do homem em relação com essas outras concepções. Para chegar, deste modo, a tirar as consequências para uma pedagogia cristã: as Revelações constituem uma fonte para a pedagogia cristã, daí a necessidade de ter em conta a postura de uma educação cristã autêntica.
O segundo capítulo fundamenta o discurso dos capítulos seguintes. A concepção do homem, quer dizer, a antropologia, torna-se o fundamento da pedagogia. Aqui coloca Edite a base hermenêutica de tudo o que segue e que articula em três pontos: a importância que têm para a pedagogia os resultados das diversas antropologias (filosófica, teológica, ciências humanas…); o método que pensa usar na investigação, que será o fenomenológico; e uma análise preliminar do homem, que dá as pautas dos capítulos seguintes.
Nos capítulos seguintes, do 3 ao 6, faz a sua abordagem fenomenológica ao homem numa dinâmica ascensional, com o objectivo de alcançar uma compreensão o mais completa possível do ser humano. Assim, no terceiro capítulo, examina o homem enquanto ser material, e enquanto organismo vivo. No capítulo quarto dá um passo em frente, onde estuda o homem como animal. O capítulo quinto faz um parêntese para tratar uns elementos de capital importância para o capítulo seguinte: o problema da origem das espécies, quer do ponto de vista das ciências positivas quer da filosofia. No capítulo sexto, dá outro passo em frente e examina o animal do homem para chegar a descobrir o especificamente humano: a estrutura pessoal, a sua espiritualidade, liberdade, o eu e o si mesmo, e o poder de autoconfiguração.
Dentro do especificamente humano, os capítulos sétimo e oitavo estão dedicados ao estuda da alma humana e do seu ser espiritual, e do ser social do homem.
O último capítulo, o nono, serve de ponte ao que teria que ser o complemento necessário a todo este discurso: a visão do homem desde a antropologia teológica. A autora faz constar que a imagem do homem, à qual se chegou pelo caminho filosófico, necessita de ser completada pela revelação. É interessante constatar que o capítulo fecha com um tema, também presente nas conferências steinianas: o carácter formativo da eucaristia.
Javier Sancho. 100 Fichas sobre Edith Stein. Edições Carmelo, Avessadas, 2008. Pp. 130-131.
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