Sáb. Set 25th, 2021
‘Duas Asas’ – rubrica dedicada ao pensamento e escritos de Edith Stein
(Parceria com o Carmelo de Cristo Redentor – Aveiro)

VIVER NAS MÃOS DE DEUS

Javier Sancho*

Viver nas mãos de Deus é a dinâmica da vida cristã que caracteriza a vivência espiritual de Edite Stein. Uma atitude que empapa a sua vida e permeia, inclusive, a sua ontologia, a sua compreensão última do ser «sustentado» nas mãos de Deus. Poderíamos afirmar que nesta dinâmica espiritual se englobam todos os elementos característicos do seu pensamento antropológico, teológico e espiritual convertidos em prática existencial Indicamos os elementos mais característicos (cf. Temas 267 ss.).

 

a) Consciência do próprio ser

As consequências práticas de toda a espiritualidade steinina radicam na sua visão antropológica e teológica. O conhecimento do ser da pessoa humana constitui a base de todo um processo de entrega e confiança. A tomada de consciência da própria pequenez, finidade, limitação é o ponto de partida imprescindível no caminho, tal como indicam também Teresa de Jesus ou João da Cruz. Edite Stein observa-o a partir de um carácter mais antroplógico existencial: o ser do homem que descobre o seu «nada», o seu vazio, que percebe que não se pode dar a vida a si mesmo, a qual lhe é dada continuamente (cf. SF 72).

 

b) Descobrindo o sentido de Deus na própria vida

Juntamente com esta descoberta da própria finidade, é necessária a experiência de que o ser vazio remete para a existência de um Ser que sustém o ser, que lhe dá sentido e lhe assegura a permanência. É o reconhecimento do sentir-se «sustido» por uma mão forte, que protege e cuida. É a tomada de consciência de quanto a fé apresenta diante dos olhos (cf. SF 131).

É começar a viver em consequência com quanto a fé me anuncia: é começar a descobrir o sentido que Deus tem para a minha vida, e como sem Ele não posso alcançar a plenitude do meu ser. Implicará transformar o conteúdo da fé em vida, abrindo-se à amizade com Ele, à graça; descobrindo que Ele é Pai misericordioso que só deseja a minha felicidade. Para Edite Stein, enquanto não se descobre e experimenta que Deus é antes de tudo «amor», dificilmente a pessoa chega a encaminhar-se pelo abandono.

 

c) Viver segundo a Sua vontade

Para se entregar a Deus sem reservas, para fazer da vida uma vida nas mãos de Deus, o homem há-de viver convencido da sua pequenez e da bondade de Deus. Quer dizer, compreender que o seu caminho para a plenitude se identifica com a união com Deus. Mas, para viver a união, é necessário configurar-se com a vontade de Deus: «A confiança em Deus pode chegar a ser inamovível só se estivermos dispostos a aceitar tudo o que vier da mão do Pai», pois «só Ele sabe o que nos convém» (OC IV, 238). Além disso, é o autêntico caminho de seguimento de Cristo e de Maria que fizeram da vontade do Pai o único conteúdo da sua vida.

A disposição para cumprir e aceitar a vontade de Deus há-de definir a vida do cristão, ser o fio condutor da sua existência. É um descobrir progressivamente quanto Deus nos pede, quanto Deus espera de cada um de nós: «O faça-se a tua vontade em todo o seu conteúdo tem que ser o fio condutor de toda a vida cristã. Tem que regular o curso do dia, da manhã à noite, o passar dos anos e a vida inteira. Esta será então a +única preocupação do cristão» (OC IV, 239).

 

d) A segurança de saber-se protegido

Para a nossa autora, a pessoa que configura o seu viver com a vontade de Deus vive toda a realidade em atitude de profunda confiança. É a fé daquele que experimenta que Deus sustém toda a sua vida: «Eu sei que sou protegido e esta protecção dá-me calma e segurança. Certamente que não é a confiança segura de si mesma do homem que, com a sua própria força, se mantém de pé sobre um chão firme, mas a segurança suave e alegre da criança que repousa sobre um braço forte, quer dizer, uma segurança que, vista objectivamente, não é menos razoável. Efectivamente, a criança que vivesse constantemente na angústia de que a sua mãe a deixasse cair, seria razoável?» (SF 75).

Este saber-se protegido, tal como ela afirma, não é fruto de uma segurança humana, mas da experiência amorosa de Deus. Não é resultado da observância de umas normas, nem de méritos conquistados e acumulados. Tão-pouco surge de uma palavra externa, de um dogma ou de uma promessa. É dom do próprio Deus que acolhe a quem na humildade e simplicidade se entrega a Ele. Edite Stein vive convencida desta verdade que está no centro da espiritualidade de Teresa de Lisieux. Quem se descobre tão só uma vez  amado por Deus, já não pode duvidar nem da sua existência nem do seu coração misericordioso. A partir desta experiência vê-se tudo como que inscrito no plano da providência divina. Toda a vida é contemplada como que inscrita no projecto de Deus: «O que não estava nos meus projectos, encontrava-se nos projectos de Deus. E quanto mais vezes se me apresentam tais acontecimentos, mais viva se torna em mim a convicção de fé de que não existe o azar – visto da parte de Deus –, que toda a minha vida, até nos seus mais pequenos pormenores, está prevista no plano da providência divina e que ela é, diante dos olhos de Deus que vê tudo, uma coerência inteligível perfeita. Então começo a alegrar-me de antemão da luz da glória na qual me será descoberta esta coerência inteligível. No entanto, esta consideração não vale somente para a vida humana individual, mas também para a vida da humanidade inteira e, ainda mais, para a totalidade de todo o ser» (SF 130).

Quem se entrega a Deus sabe que Ele «é paciente e rico em misericórdia». Por isso, a segurança que surge da confiança em Deus Pai, empurra o homem a seguir aprofundando nessa entrega. Saboreou a suavidade da mão de Deus e quer entregar-se cada dia mais. Conheceu que o abandono é o único caminho para chegar a Deus, é o acto mais livre da liberdade. Só o Deus Amor é que te dá segurança.

 

e) Vivência do quotidiano

A vivência de se sentir seguro em Deus não é um sentimento que se perceba só nalguns momentos. É a dinâmica que empapa toda a vida da pessoa, em todo o momento e circunstância. Quer dizer, o dia a dia, o minuto a minuto, adquirem um sentido totalmente diferente e desaparece a «monotonia». O homem sente-se salvo nas mãos de Deus. Põe a sua vida nas mãos de Deus, e deixa que seja Ele a indicar o caminho. A confiança leva consigo a aceitação do modo de agir de Deus (cf. Ct 941).

Pôr-se nas suas mãos implica também a aceitação do mistério ao qual se entrega, e um compromisso constante por tornar vida a vontade salvadora de Deus em qualquer circunstância (cf. Ct 854-856). Em definitivo, viver protegidos nas mãos de Deus não é uma atitude passiva. Implica colaborar com Deus na sua obra de salvação fazendo da jornada uma oblação ao Senhor. Propõe um caminho prático e simples: iniciar o dia com um momento dedicado ao diálogo com o Senhor, e a ser possível com a Eucaristia, para pôr nas suas mãos o dia que começa e obter as forças necessárias para fazer tudo segundo a sua vontade (cf. Ct 809-810).

*Javier Sancho. 100 Fichas sobre Edith Stein. Edições Carmelo, Avessadas, 2008. Pp. 206-208.


Imagem de Myriams-Fotos por Pixabay