Qui. Jun 17th, 2021
‘Duas Asas’ – rubrica dedicada ao pensamento e escritos de Edith Stein
(Parceria com o Carmelo de Cristo Redentor – Aveiro)

UMA ESPIRITUALIDADE DA MULHER

Javier Sancho*

Já foram expostos dois temas que desempenham um papel primordial nas preocupações antropológicas de Edite Stein: a antropologia diferencial e os elementos constitutivos da mulher. Edite Stein não só identifica o peculiar feminino, mas aplica-o à vida cristã e espiritual da mulher. Na ficha 80, indicava-se que quando Edite identifica o específico do género feminino enquanto «companheira», «esposa» e «mãe», pretende captar aquilo que define a mulher como tal. Toda a mulher, independentemente do seu estado de vida (solteira, casada, consagrada), e da sua profissão, tem que saber realizar ali a sua feminilidade. E isso afecta tanto a realidade física, psíquica e espiritual.

Os diversos aspectos que configuram o ser da mulher: companheira, esposa, mãe (e a partir do pecado original: lutadora contra o mal), são os que caracterizam e fundamentam solidamente o desenvolvimento de uma autêntica vida cristã em feminino. Para Edite Stein, todos esses aspectos vão unidos e são comuns a toda a mulher por vocação natural e sobrenatural. O modo de «realização» será diverso segundo o estado vocacional individual. Por isso, seguindo as pegadas de Edite Stein, vamos procurar evidenciar os valores fundamentais que configuram a mulher como «seguidora de Cristo», como «colaboradora no plano da redenção».

 

a) Maternidade

Se o fim último da mulher é reproduzir na sua vida a imagem de Deus, já vimos como isto se dá na medida em que assume a sua condição de «mãe» e de «companheira». A mulher é o «coração da família e a alma da casa» (ESW V, 68). Mas há que entender este ser o coração num sentido muito amplo que se estende mais além dos limites do lar: o âmbito humano.

Edite Stein compreende a «maternidade» como uma característica universal da mulher, o que melhor define a sua feminidade. Isto leva consigo um desafio e um modo de ser característico, comum a toda a mulher, também à consagrada e solteira. Para Edite Stein nem a virgindade, nem o estado de solteira anulam o ser «materno» da mulher. Mais bem, ela caracteriza a virgindade consagrada como fecundidade e maternidade. No caso da mulher solteira tão-pouco descuida essa qualidade, que deve levá-la a desenvolver o seu ser no âmbito do humano. Para a mulher cristã trata-se de uma maternidade que se realiza em «conduzir para a adopção divina» (ESW V, 193), em levar os homens a amar a Cristo, «ajudá-los a tomar parte da vida eterna» (ESW XII, 121). O modelo desta maternidade é Maria, mas sobretudo a própria vida de Deus que é amor e se dá continuamente.

 

b) Companheira

Outro dos aspectos que caracterizam a mulher é o de «companheira», colaboradora com o homem. Isto implica que a presença da mulher, não só é necessária ao homem, mas, além disso, enriquece com a sua presença e acção os diversos sectores da actividade humana, seja profissional, social, política, económica e, por certo, no interior da Igreja (cf. OC IV, 292 ss.). A atitude espiritual da mulher contempla-se desde este ângulo: ela é a ajuda necessária que o homem necessita na conquista dos valores e no domínio da criação: «O relato da criação coloca a mulher ao lado do homem como seu auxílio adequado, a fim de que ambos colaborem como um único ser» (OC IV, 407).

O mesmo se deve dizer em relação à tarefa como educadora dos filhos e como ajuda para que o homem chegue a ser o que tem que ser. A mulher tem a nobre missão de ser educadora e protectora dos autênticos valores humanos ali onde se encontre. Por isso, a mulher, tem uma maior facilidade de desenvolver em si esse dom que lhe é característico de uma sensibilidade particular para o bem moral. De igual modo, deve ser segura e firme no que ensina, ser «receptiva à acção de Deus na alma» (cf. OC IV, 75 ss.), ampla e aberta, cheia de paz, calorosa, luminosa, reservada, vazia de si e dona de si (cf. OC IV, 199 ss.).

 

c) Imagens que iluminam a espiritualidade da mulher

A mulher cristã que quer viver consequentemente a sua vocação tem que aceitar e amadurecer a sua autêntica condição feminina. Edite apresenta, como modelos de actuação e de vivência cristã, umas imagens que resumem o ser da mulher e que na Virgem Maria encontra a sua máxima expressão. As principais são:

mãe dos vivos: «A autêntica maternidade é ao mesmo tempo uma vocação natural e sobrenatural: a natural consiste em educar os filhos para esta vida e conduzir as suas forças físicas e anímicas para o melhor desenvolvimento; a sobrenatural, formar filhos de Deus ajudando-os a participar da vida eterna… Ganhar filhos para o céu, nisto consiste a autêntica maternidade – uma maternidade espiritual que é independente da maternidade física –, a mais formosa, sublime e cheia de alegria, ainda que requer não menos preocupações, sacrifícios e fadigas que a maternidade física. Despertar o raio divino no coração de uma criança, aumentar a vida divina nele e ver como se desenvolve, ou ajudar a acender a vida de graça na alma apagada, degenerada ou abandonada de um adulto afastado de Deus, e poder contemplar o extraordinário processo de transformação que numa tal alma se realiza, e colaborar como instrumento: isto é testemunho e preparação para o céu e uma alegria que não é deste mundo. Tal maternidade espiritual é capaz de encher de sentido a vida do homem, mas esta só é possível nos homens cuja alma tenha sido enchida e frutificada por Cristo» (OC IV, 253).

mulher forte: É o ideal da mulher bíblica, capaz de arriscar tudo pelo bem dos homens. Na opinião de Edite esta função da mulher é urgente e necessária ao mundo de hoje: «Hoje temos tanta necessidade de mães que se correspondam com o ideal da Mulier fortis» (Ib., 520)

esposa de Cristo: «Ela deve, pois, ainda que não pertença a uma congregação religiosa, reclamar para si o título honorífico de “sponsa Christi” e ser consciente da especial solicitude que o Senhor outorga aos consagrados ao seu serviço. Se deixam espaço na sua vida quotidiana para a obra do Senhor – recolhendo forças para o trabalho diário na mesa do Senhor, cuidando uma amizade confiada com Deus em permanente oração – buscando n’Ele conselho, consolação e ajuda, vivendo a vida divina em estreita união com a Liturgia, durante o ano litúrgico –, então a sua alma encher-se-á mais e mais da vida de Cristo e aproximará espontaneamente esta vida divina a todos os homens com os que entra em relação. Uma tal vida cheia do amor divino que desperta vida divina, alimenta, protege e desenvolve, é a mais alta e santa maternidade, o mais alto e santo desenvolvimento da vocação da mulher. Uma tal vida não carece do amor ao próximo. Quem está cheio do amor de Deus, cujo coração transborda de amor para com os homens, encontra também amor em abundância. Em todo o coração humano, inclusive no daqueles que estão afastados de Deus, – precisamente nestes –, vive a nostalgia por um amor compreensivo e desinteressado» (Ib., 253-254).

símbolo da Igreja: Esta última imagem exprime com maior força e originalidade os conteúdos da espiritualidade feminina tal como se foi vendo nas outras imagens. A posição da Igreja diante de Cristo, a sua função e missão na terra, representam de modo sublime a vocação genuína da mulher: «encarnar, no grau mais alto e puro do seu ser a  essência da  própria Igreja, a ser seu símbolo» (Ib., 406).

Desde esta perspectiva, a missão e vocação da mulher no mundo e na Igreja é de importância vital. A ausência de mulheres que vivam conscientes e comprometidas a sua vocação e valores próprios põe em perigo a realização da própria humanidade.

*Javier Sancho. 100 Fichas sobre Edith Stein. Edições Carmelo, Avessadas, 2008. Pp. 213-216.


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