‘Duas Asas’ – rubrica dedicada ao pensamento e escritos de Edith Stein
(Parceria com o Carmelo de Cristo Redentor – Aveiro)
O PROBLEMA DA EMPATIA
Javier Sancho*
a) O processo de redacção
Podemos seguir muito bem o processo de gestação deste escrito. De facto, possuímos informação directa da própria autora em relação à sua elaboração na sua Autobiografia (cf. OC I).
Sabemos que se trata da sua tese de doutoramento em filosofia e que vai surgir no âmbito da escola fenomenológica. Quando decidiu fazer o seu doutoramento com Husserl (em 1913), concertando com ele o tema, concordaram que o trabalho fosse sobre o tema da “empatia”, esse acto de conhecimento que Husserl mencionava nas suas aulas e que ainda estava por definir claramente: “No seu curso sobre a natureza e o espírito, Husserl tinha falado de que um mundo objectivo exterior só pode ser experimentado intersubjectivamente, isto é, por uma pluralidade de indivíduos conhecedores que estivessem situados em intercâmbio cognitivo. Segundo isto, pressupõe-se a experiência dos outros. A esta peculiar experiência, Husserl… chamava-lhe Einfühlung (Empatia). No entanto, Husserl não tinha precisado em que consistia. Isto era uma lacuna que havia que preencher. Eu queria investigar o que era a Einfühlung” (A 374).
Husserl, que tomara emprestado o conceito de Theodor Lipps, aceita contente o tema, mas com a condição de que fizesse um estudo comparativo e histórico-crítico preliminar sobre o tema. Infelizmente esta parte não se conservou pois a publicação da sua tese em 1917, apareceu sem este primeiro capítulo histórico.
Todo o processo de elaboração da tese, aparentemente três anos, vai ser muito irregular. De facto, Edite ver-se-á obrigada a fazer longas interrupções por diversos motivos: a preparação do exame de estado, o início da guerra mundial e a sua actividade como voluntária da Cruz Vermelha, o seu compromisso de dar aulas de latim na sua antiga escola, etc… Mas o resultado não se ressente destas interrupções.
A preparação do seu trabalho de tese prolongar-se-á até 1916. Nessa altura Husserl tinha sido nomeado professor da Universidade de Freiburg. E será aqui onde Edite terá que fazer a defesa da sua tese a 3 de Agosto de 1916. Vai obter a nota máxima.
Com a finalidade de se dar a conhecer Edite quis publicar esta obra o mais depressa possível. A situação económica não era nada favorável, dada a crise económica provocada pelo acontecimento da guerra, que tinha encarecido muitíssimo o preço do papel. Isto obrigou-a a ter que se conformar com publicar só a parte essencial da obra, prescindindo do capítulo inicial, um estudo histórico comparativo do conceito da empatia. A obra apareceu publicada em 1917 com o título: Zum Problem der Einfühlung (Sobre o problema da empatia). Encarregou a publicação à editorial Weisenhauses de Halle.
b) Estrutura e conteúdo
A obra, tal como foi publicada, consta de três partes:
- A essência dos actos da empatia
- A constituição do indivíduo psicofísico
- A empatia como compreensão de pessoas espirituais.
A primeira parte é um estudo da essência dos actos da empatia seguindo o método fenomenológico, o da “redução fenomenológica” tomando como fim o da mesma fenomenologia, a saber, “o esclarecimento e portanto a última base de todo o conhecimento”. A “Einfühlung” (termo alemão que traduzimos por Empatia) não se confunde com a memória, nem com a imaginação, nem com a percepção externa, embora tenham com elas algo em comum. “Todos estes dados de vivências de outros remetem para um género básico de actos, em cuja vivência estranha se expressa e que nós, depois de considerar todas as tradições históricas ligadas à palavra, queremos designar como empatia”. É o primeiro objectivo que Edite se propõe: “perceber e descrever estes actos numa grande generalidade de essência”.
Conclui esta primeira parte com uma confrontação crítica com as teorias da apreensão alheias formuladas por Lipps e Sheler. Este último terá em conta as anotações feitas por Edite quando publique em 1931 o seu estudo Wesen und Formen der Sympathie (Essência e forma da simpatia).
A segunda parte da obra está dedicada à análise da Empatia como problema da constituição do indivíduo psicofísico. O indivíduo “psicofísico” não é algo simples: é um “composto” de vários extractos: o Eu puro, como sujeito de experiência e unidade de consciência; a alma como parte essencial do indivíduo, a sua unidade substancial; o corpo que está unido à alma e que se vive como “experiência”, como “meu corpo” e portanto como algo vivo (Leib e não Körper). Antes de concluir enfrenta o tema das relações intersubjectivas, a capacidade de comunicação com o outro, a possibilidade de empatizar. Então a Empatia manifesta-se como uma forma de experiência intersubjectiva que possibilita a constituição de um mundo objectivo.
A terceira parte trata o problema da pessoa em relação com a Empatia. O ponto de partida na interpretação do ser da pessoa parece ser o naturalista, no entanto, a sua visão é de um carácter totalmente personalista. De facto, põe o seu acento na consciência do indivíduo enquanto constituinte do objecto. Neste sentido, a sua visão da consciência é entendida como espírito e não como algo de ordem natural. A Empatia move-se neste campo espiritual.
Do ponto de vista do que implica e significa este estudo na vida da autora podemos tirar algumas conclusões:
– o ser humano não se compreende senão como um ser espiritual, capaz de sair de si mesmo, de se transcender. E este transcender-se é algo fundamental para o desenvolvimento do seu ser, tanto para conhecer o mundo, o outro, como para se conhecer a si mesmo.
– o exercício da empatia é fundamental para o ser humano reconhecer os outros como “sujeitos” de experiência, e não como meros objectos.
– Em definitivo, o problema que Edite pretende resolver é o da pessoa como sujeito espiritual. É o fundamento de todas as suas investigações posteriores nas quais o interesse antropológico constitui a sua preocupação primordial.
Javier Sancho. 100 Fichas sobre Edith Stein. Edições Carmelo, Avessadas, 2008. Pp. 98-99.
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