Oratório Peregrino
Um oratório à maneira de um viático para tempos de carestia
Uma proposta desenvolvida em parceria com
Irmãs do Carmelo de Cristo Redentor – Aveiro
XXXIII Passo | «Esse belo silencio interior»
Isabel, já decidida a percorrer «sem rodeios» o caminho maravilhoso da presença de Deus, explica-nos o perigo que encerram os rodeios, os altos no caminho e o dar marcha atrás. O texto recordar-nos-á o nescivi – o «e já nada soube» – do segundo «dia» (UR 3-5), mas explicitará mais o objectivo supremo da «adoração de Deus por Ele ser quem é». Isabel mantém-se na óptica geral da sua vocação: a glória do céu (que aparece evocada com a fórmula do «eterno presente») vivida já na terra no céu da alma (à qual hoje chama a sua «casa» interior).
Isabel, retoma, no concreto, tudo o que há a «deixar», «esquecer», «perder» para «percorrer» o maravilhoso caminho da Presença adorada. E que temos de fazer, entre o começo e o final dessa escada espiritual, se nos queremos deixar guiar pelo Espírito? Do ponto de partida (o «eu» ainda não purificado, a vida «natural», «todo esse mundo que forma parte, por assim dizer, de nós mesmos») haverá que afastar-se («ruptura», «afastamento», «desnudez», «desapego») para chegar à «perfeita» adoração do único Deus, que é o ponto de chegada.
Precisamente a unicidade de Deus e a sua «divindade» convertem a Deus num «grande solitário» que vive numa «imensa solidão». Escutamos aqui, como em eco, o final da oração «Ó meu Deus, Trindade que eu adoro»: «Ó meus Três, meu Tudo, minha Beatitude, Solidão infinita, Imensidade em que me perco!» (NI 15).
Mas esse «grande solitário» é Trindade. E Trindade que nos cumula dos seus «dons». É Amor criador e salvador, e não há uma só alma que não possa chamar-se a si mesma, como Isabel, «filha de Deus, esposa de Cristo, templo do Espírito Santo». «Escuta, filha – diz Deus –, inclina o teu ouvido».
Em consequência, Isabel quer ser também «uma grande solitária» à imagem de Deus, «livre de tudo» («destruída e liberta»), «perfeita como o seu Pai celeste». Se esse Deus a ama tanto, ela não pode permitir-se o luxo de ser «trivial»: tem de ser bela para «prestar homenagem», para agradar ao coração de Deus que se reflecte nela (UR 8). Hoje tudo é belo: «belo» o silêncio interior, «beleza» da alma e «beleza» do seu Rei.
Quase esqueceríamos que a enfermidade física vai desfigurando a apaixonada Isabel. Quase esqueceríamos que este décimo «dia» trata de tudo o que há a «abandonar». Mas o vocabulário recorda-nos as páginas tão exigentes de S. João da Cruz, cantor ele também – que grande verdade! – da beleza de Deus e do Amor desmedido. A sua fórmula das «quatro paixões» (gozo, esperança, dor e temor) – representantes das onze paixões da filosofia escolástica (e das doze ramificações das mesmas que há em nós) – recorda a necessidade de uma cuidadosa vigilância e do perdão de Deus que Ele sempre nos oferece (UR 31).
Isabel concentra a sua visão ascética em torno a três conceitos:
- A Unidade interior (estar «toda inteira na unidade do meu ser»), que se opõe às rupturas e ao tumulto dos «actos» que provêm das paixões e que fazem que a alma e as suas energias vitais não estejam em paz («sossego», «sono das potências»), não estejam «perfeitamente orientadas a Deus» (pensemos na lira da alma «orientada totalmente para Deus» de UR 3).
- O «silêncio interior», que se opõe ao «ruído» e às vozes de todo esse «povo» exterior: «sensibilidade», «recordações», «emoções», etc».
- A «atenção a Deus»: «É preciso que a alma tenha a fé muito desperta e os seus belos olhos fixos no seu Mestre». Também aqui não podemos deixar de pensar no desejo que Isabel formula na sua Oração: «Pacificai a minha alma. (…) Que eu nunca aí vos deixe só, mas que esteja lá inteiramente, toda acordada em minha fé, perfeita adoradora, toda entregue à vossa Acção criadora» (NI 15). Observem-se as expressões inteiramente, toda, perfeita, toda, e a ânsia de absoluto que denotam.
A vigilância interior propicia o louvor. Isabel, «toda acordada na sua fé», cantará: «Acordarei a aurora». Passada já a sonolência da noite, chegou o estado de vigília: Isabel espera «a aurora», como Maria Madalena encontrou o seu Mestre «ao amanhecer» do dia de Páscoa (Jo 20).
Isabel move-se em clima pascal com a sua vitória sobre a morte de Sexta-feira santa. Talvez tenha diante dos olhos a recordação da manhã de Páscoa, que pouco antes havia evocado: «Esse dia de Páscoa, às 5 tivemos a Missa de Ressurreição, seguida de uma magnífica procissão pelo nosso belo jardim. Tudo estava tão calmo, tão misterioso, parecia que através das alamedas solitárias o Mestre ia aparecer-nos como outrora à Madalena, e se os nossos olhos o não viram, pelo menos as nossas almas encontraram-n’O na fé. É tão boa a fé, é o Céu nas trevas, mas um dia o véu cairá e contemplaremos na sua luz Aquele que amamos; esperando o «Veni» (Vem) do Esposo é preciso gastar-se, sofrer por Ele, e sobretudo amar muito» (Ct 162).
Em breve, cairá esse véu para Isabel, que se prodiga e que, sobretudo, ama muito. Repete: «Por seu amor, tudo perdi» (Fil 3, 8), olhando unicamente para o Amado e o Amor. Já só tem olhos para a Vida e para o Deus vivo.
O texto de Isabel
- «Sede perfeitos como vosso Pai celeste é perfeito» (Mt 5, 48). Quando o meu Mestre me faz escutar esta palavra no fundo da alma, parece-me que me pede para viver como o Pai «num eterno presente», “sem antes nem depois”, mas inteiramente na unidade do meu ser neste «agora eterno». Mas, que presente é este? Eis que David me responde. Adorá-lo-ão sempre por causa d’Ele próprio» (Sl 71, 15).
Eis o presente eterno, em que Laudem gloriae [Louvor de glória] se deve fixar. Mas, para ser verdadeira nesta atitude de adoração, para poder cantar: «Acordo a aurora» (Sl 56, 9), é preciso que também possa dizer com São Paulo: «Por seu amor, tudo perdi» (Fil 3, 8); quer dizer, por causa d’Ele, para sempre o adorar, “isolei-me, separei-me, despojei-me” (S. João da Cruz) de mim mesma e de todas as coisas, tanto no plano natural, quanto na ordem sobrenatural e perante os dons de Deus. Porque uma alma que não esteja assim «destruída e libertada» de si mesma, será forçosamente banal e natural em determinados momentos, e isso não é digno de uma filha de Deus, duma esposa de Cristo, dum templo do Espírito Santo.
Para se precaver desta vida natural, é preciso que a alma esteja por inteiro desperta na sua fé, com esse belo olhar assim voltado para o Mestre. Então, «caminhará, como cantava o rei-profeta, na rectidão do seu coração, no interior da sua casa» (Sl 100, 3). Então, adorará sempre o seu Deus por causa d’Ele próprio» e viverá, à sua imagem, nesse eterno presente em que Ele vive…
- «Sede perfeitos como o vosso Pai celeste é perfeito». Deus, como diz S. Dionísio, é o «grande solitário». O meu Mestre pede-me que imite esta perfeição, a fim de lhe prestar homenagem, como alma de grande solidão. O Ser divino vive numa eterna, numa imensa solidão; nunca sai dela, apesar de todo o interesse pelas necessidades das suas criaturas, pois nunca sai de Si mesmo; e esta solidão não é mais que a sua divindade.
Para que nada me faça sair deste belo silêncio interior: manter sempre a mesma condição, o mesmo isolamento, a mesma separação, o mesmo despojamento! Se os meus desejos, temores, alegrias ou dores, se todos os movimentos provenientes dessas “quatro paixões” (S. João da Cruz), não estiverem perfeitamente ordenados para Deus, não serei solitária, e em mim haverá ruído; é necessário, pois, o apaziguamento, o “sono das potências”, a unidade do ser. «Escuta, minha filha, presta atenção, esquece o teu povo e a casa de teu pai, e o Rei ficará enamorado da tua beleza» (Sl 44, 12-13). Parece-me que este apelo é um convite ao silêncio; escuta… presta atenção… Mas para ouvir, deve-se esquecer «a casa de seu pai», isto é, tudo o que respeita à vida natural, essa vida a que se quer referir o Apóstolo, quando diz: «Se viverdes segundo a carne, morrereis» (Rm 8, 13). Esquecer o «seu povo», parece-me mais difícil; porque este povo, é todo este mundo que, por assim dizer, faz parte de nós mesmos: é a sensibilidade, as recordações, as impressões, etc., numa palavra, o eu! É preciso esquecê-lo, deixá-lo, e quando a alma tenha feito isso, o Rei fica enamorado da sua beleza. Porque a beleza é a unidade, ou, pelo menos, assim é a de Deus!…
Sugestões para orar
O primeiro que temos de «orientar para Deus» e adornar com o «belo silêncio interior» é todo esse mundo que há em nós. O interior é decisivo, e a nossa carmelita recorda-o aos seus amigos: «Esta melhor parte, que parece ser o meu privilégio na minha bem amada solidão do Carmelo, é oferecida por Deus a toda a alma de baptizado. Ele oferece-lha, querida Senhora, mesmo entre os seus cuidados e solicitudes de mãe» (Ct 129).
Embora não tenhas feito votos de pobreza e de obediência, a tua vida pode estar muito sujeita e ver-se muito controlada e não ter outra saída senão o amor e a Presença. Isabel escrevia à jovem mamã Guida: Com as meninas, tens muitas oportunidades. Oferece tudo ao Mestre» (Ct 298). Ele «está no “centro da nossa alma”. (…) Enquanto estás toda entregue aos teus anjinhos, podes retirar-te nessa solidão, para te entregares ao Espírito Santo (…) Quando estiveres distraída pelas teus numerosos trabalhos, hei-de tentar compensar-te» (Ct 239).
Reza hoje amiudadas vezes: Ó meu Deus, Trindade que eu adoro, pacificai a minha alma, fazei dela o vosso céu, a vossa morada amada» (NI 15).