Dom. Nov 28th, 2021
Bioética e sociedade
(Parceria com o Centro de Estudos de Bioética)

Carlos Costa Gomes*

1 – A Homem é, essencialmente, comunicação. E comunica com os outros seres humanos pelo corpo que é o instrumento adequado para a comunicação direta e pessoal mas, pela morte, a comunicação direta é anulada.

2 – Porém, quando uma pessoa morre o que deixa de si aos outros? Tudo o que foi, ao longo da vida de pessoa concreta, a cultura que ela própria criou – os seus escritos, os seus dizeres, os objetos que foi capaz de construir, a memória da sua palavra, os seus gestos ou o seu sorriso, os filhos ou não que gerou – tudo exprime uma realidade que está para além do corpo físico que essa pessoa usou no seu tempo limitado de viver. (Daniel Serrão).

3 – É esta realidade (in)visível que permanece viva e dá à pessoa que morre uma imortalidade que se manifesta na comunicação, com os outros, indireta mas real e eficaz.

4 – A morte é a não comunicação e, em consequência desta não comunicação, o esquecimento dos que nos morrem.

5 – Mas há pessoas que estão livre da lei da morte – todos aqueles que lembramos porque não serão esquecidos e, como ensina Camões, são aqueles “em que poder não teve a morte”.

6 – Yeshua (Jesus) um judeu fascinante que há mais de dois mil anos falou para uma pequeníssima parte dos habitantes deste mundo, é hoje recordado diariamente, por muitos milhões de pessoas em todos os continentes.

7 – Ressuscitou porque está vivo na consciência de todos os que ouvem a repetição das suas palavras e ensinamentos, quer as aceitem, quer as recusem no que valem elas para o presente de cada um que as escuta.

8 – São palavras de vida eterna, palavras que continuarão vivas para sempre – como memória e atualização do passado, como guias do presente e como semente de vida futura.

9 – O que vale para Yeshua, que foi pessoa concreta e que habitou este mundo e hoje permanece vivo, vale também para os que nos morrem, porque a morte a apesar de anular a comunicação através de um corpo físico não anula aquela parte de comunicação invisível mas real e eficaz.

10 – Por isso falamos (ou rezamos) dos que nos morrem sempre no presente.

11 – Na verdade quando falamos deles, e com eles, a sua presença invisível é real e eficaz na intimidade mais íntima da consciência dos que deles falam e dos que ouvem falar deles…

12 – Não morrem porque não foram esquecidos.


*Presidente do Centro de Estudos de Bioética | Professor e investigador do Instituto de Bioética da UCP | Membro da Academia ‘Fides et Ratio’

Imagem de Michal Jarmoluk por Pixabay