Qui. Jun 17th, 2021
‘Duas Asas’ – rubrica dedicada ao pensamento e escritos de Edith Stein
(Parceria com o Carmelo de Cristo Redentor – Aveiro)

A VIDA CONSAGRADA

Javier Sancho*

 

O desenvolvimento do tema da Vida Consagrada é de grande extensão em Edite Stein. E embora não tenha escrito nenhum tipo de tratado sobre ela, reflectiu demoradamente sobre o tema, especialmente por ocasião das sucessivas renovações comunitárias dos votos. Por esse motivo conserva-se um material precioso em relação à sua visão da vida consagrada e dos votos. Para completar quanto aqui indicamos, remetemos para a leitura dessas breves «meditações espirituais».

 

a) A vida religiosa como vocação

Embora seja algo que Edite aborda em diferentes contextos, considera o termo «vocação» como algo essencial e concreto na vida do homem. Falar de vocação é falar de realização, de desenvolvimento, de cumprimento da vontade de Deus. Por isso, todo o ser humano é um ser «vocacionado», com uma missão própria, que dá sentido peculiar à sua vida. O desafio que todo o ser humano tem diante de si é a descoberta e a realização dessa vocação.

A vocação à vida religiosa, mesmo quando nos seus valores centrais respeita a vocação originária do ser humano, é uma «vocação sobrenatural». É seguimento radical de Cristo: imitação e vivência dos conteúdos que Ele na sua vida e mistérios nos transmite. Mas antes de tudo caracteriza-se pelo carácter de entrega total e indivisível ao amor de Deus: «A profissão religiosa consiste na entrega total de todo o ser humano e de toda a vida ao serviço de Deus; ela exige a obrigação de usar os meios que resultam idóneos para o cumprimento da vocação: renúncia a toda posse de bens, renúncia a todo o vínculo humano-vital, renúncia à própria vontade. (…) O motivo, princípio e fim da vida religiosa está na entrega amorosa a Deus sem nenhum limite e no esquecimento de nós mesmos para que a vida de Deus esteja presente dentro de nós mesmos» (OC IV, 170. 171).

O dom total de si a Deus, como essência da vida consagrada, manifesta, quer o sentido escatológico quer o nupcial que o mistério da consagração a Deus contém em si e simboliza: «Aquele a quem o Senhor chama a deixar os vínculos naturais (família, povo, ambiente), para se entregar somente a Ele, nele se destaca o vínculo nupcial com o Senhor com maior força do que na multidão dos redimidos. Por toda a eternidade têm que pertencer de maneira preferida ao Cordeiro, segui-Lo aonde Ele vá e cantar o hino das virgens que mais ninguém pode cantar (Ap 14, 1-5). Se se desperta na alma o desejo da vida religiosa, é como se o Senhor pedisse a sua mão em casamento. E se ela se consagra a Ele através dos santos votos e acolhe o “Veni, sponsa Christi”, é como se se antecipasse a festa das bodas celestiais» (OC V, 650-651).

A partir desta perspectiva compreende-se a razão pela qual a consagração religiosa, enquanto vocação sobrenatural, represente a vocação «mais alta» à qual pode ser chamado o homem ou a mulher, pois implica uma configuração total com o amor de Deus. Daqui poderíamos concluir, também, a grande missão de conduzir o homem para a sua plenitude.

Os meios adequados para viver esta vocação deduzem-se do próprio estilo de vida de Cristo: os conselhos evangélicos que a Vida consagrada procura viver na mesma forma e radicalismo que Cristo. Por isso, a visão geral que Edite Stein tem da consagração religiosa manifestada através da profissão dos votos de castidade, pobreza e obediência, apresenta sempre uma imagem totalmente positiva. Os votos são em si o meio e o caminho que orientam a resposta do homem.

b) Virgindade como fecundidade espiritual

A virgindade, como os outros votos, tem razão de ser somente em Cristo. Ele é o ponto de partida para a sua compreensão. E, por extensão e proximidade, também o é a Virgem Maria. O conteúdo que qualifica a virgindade consagrada é a disponibilidade total e absoluta ao serviço da obra redentora (cf. OC IV, 515). A virgindade em Jesus «é um elemento constitutivo» da sua humanidade, não é algo que tenha a ver n’Ele com uma opção tomada, é parte da sua natureza e missão, que não pode atar-se nem depender de ninguém senão de Deus. Por esta razão é também o caminho para todo aquele que se sente convidado a segui-Lo estreitamente. A virgindade, portanto, implica uma opção por Cristo de modo totalizador, uma entrega e disponibilidade absoluta ao seu amor (cf. ib. 543).

A virgindade é, além disso, um caminho de libertação de tudo aquilo que impede o coração da união total com o Cristo, com o Crucificado: «O voto de castidade procura libertar o homem de todos os vínculos naturais, para o sujeitar à cruz por cima de toda a agitação e libertar o seu coração para a união com o Crucificado» (OC V, 653).

Mas o valor supremo do voto de castidade, juntamente com a união amorosa com Deus, radica na fecundidade espiritual, na maternidade ou paternidade espiritual. É o rosto apostólico da castidade, e ao mesmo tempo um aspecto mais do valor positivo que contém: não é renunciar ao homem para abraçar a Deus, mas é abraçar a Deus para abraçar a todo o homem (cf. OC V, 662-663). É, sobretudo, participação no amor divino e na missão redentora de Cristo.

 

b) Pobreza como libertação

Edite compreende a pobreza evangélica como libertação «de toda a atadura aos bens terrenos, da preocupação por eles, da sua dependência e das ânsias de os possuir» (OC V, 645): «O voto de pobreza abre as mãos para deixar cair tudo o que as mantém atadas… pretende dar-nos a despreocupação dos pássaros e dos lírios, para que o espírito e o coração estejam livres para Deus» (OC V, 651).

A nível de vivência significa a confiança absoluta na «providência de Deus», aceitando tudo o que ela envia: «Não basta com que uma vez tenhas deixado tudo fora e tenhas vindo para o convento. Tens que fazê-lo agora também muito a sério. Acolher com gratidão o que a Providência te envia; privar-se com  alegria do que Ele te faz carecer; não se preocupar com o próprio corpo, nem pelas suas necessidades ou apetites, mas antes entregar-se às ocupações encomendadas; não se preocupar com o dia que vem, nem pela próxima comida» (OC V, 633). A pobreza é o meio que liberta o coração do homem para o pôr em disponibilidade total nas mãos de Deus.

 

c) Obediência e cristificação

A obediência tem em comum com os outros votos ter a Cristo como ponto de partida e modelo. Mais ainda, no voto de obediência a configuração com Cristo é essencial, já que implica a assimilação total da vontade de Deus: «não ter mais desejo senão o de cumprir a vontade do Pai» (OC V, 633). A obediência é o meio imprescindível para encontrar o caminho para a redenção da humanidade.

Pela obediência Cristo recuperou para todo o homem a possibilidade de ter acesso novamente ao estado de filhos de Deus. «Faça-se a tua vontade”. Foi este o conteúdo da vida do Salvador. Ele veio ao mundo para cumprir a vontade do Pai; não só para reparar com a sua obediência o pecado da desobediência, mas para guiar a todos os homens no caminho da obediência… A obediência estabelecida por Deus liberta a vontade escravizada das ataduras das criaturas e leva-a novamente à liberdade. Por isso, é também o caminho que conduz à pureza do coração» (OC V, 661).

*Javier Sancho. 100 Fichas sobre Edith Stein. Edições Carmelo, Avessadas, 2008. Pp. 211-213.


Imagem de Jose Antonio Alba por Pixabay