Qui. Jun 17th, 2021
Modos de interação entre ciência e religião

Perspectivas


Nona Perspectiva: Temporal

Miguel Oliveira Panão

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É possível possuir o tempo quando sabemos tão pouco o que é, realmente, o tempo? Talvez o tempo não se possua e, por isso, não faça sentido dizer que temos ou não temos tempo. O tempo talvez seja, acima de tudo, uma experiência. Mas creio que a grande dificuldade que temos em compreender a perspectiva temporal da nossa existência seja por termos apenas uma palavra para essa experiência. Os gregos tinham três.

Quando procuramos usar uma palavra como “tempo” para expressar a realidade complexa a isso subjacente, corremos o risco de a compreender menos bem e essa poderá ser a génese das dificuldades que temos em lidar com a perspectiva temporal. Os gregos reconheciam três dimensões dessa perspectiva e, por isso, criaram a Fraternidade do Tempo com os irmãos mitológicos Aion, Chronos e Kairos.

Aion é o irmão do tempo cíclico, ilimitado, um deus das eras que inspirava o sentido religioso da experiência que faziam do tempo. Chronos é o irmão do tempo sequencial, com um acontecimento depois do outro, fragmentado, quantitativo, não pára e tem uma só direcção: em frente. Kairos é o irmão do tempo certo, tempo criado pelos eventos em si, tempo que perdura e faz memória, tempo de sermos e nos tornarmos naquilo que poderemos ser. Não há uma perspectiva temporal certa de entre estas três senão a que procura harmonizá-las, de modo a que a nossa vida não seja demasiado etérea, fragmentada ou desligada da narrativa dos outros e do mundo.

O tempo “aionológico” dá-nos a esperança de uma existência eterna. O tempo cronológico permite distinguir o passado, do presente, e do futuro, ajudando-nos a reconhecer os ritmos e a sincronizá-los. O tempo “kairológico” leva-nos a uma experiência de liberdade, escuta, interiorização, pensar, descansar, ou seja, a um tempo de aprendizagem existencial.

Quem rejeita a possibilidade da eternidade, reduz a sua perspectiva temporal ao sequencial ou ao tempo certo. O resultado pode ser uma vida ditada pelos eventos, ou à deriva pelo próximo evento, sem nunca tomar consciência do significado mais profundo do fio de ouro que a história nos revela. Quem rejeita a possibilidade do antes, agora e depois, reduz a sua perspectiva temporal à eternidade e ao tempo certo. Esse corre o risco de ficar eternamente à espera do tempo certo para fazer seja o que for, vivendo na permanente ansiedade do “ainda não”, perdendo a oportunidade do “já, mas não ainda” que o momento presente escatológico lhe oferece. Quem rejeita a possibilidade do tempo certo, reduz a sua perspectiva temporal ao eterno e sequencial, nunca vivendo realmente o presente onde tudo o que é mais concreto na vida tem sabor e torna-a plena.

Se pensas que pensar no tempo é uma perda de tempo, só o tempo o dirá. Ou se pensas que o tempo de viver bem o tempo já passou, fica sabendo que podes sempre recomeçar. E se pensas que as pessoas à tua volta não compreendem a razão de andares a correr atrás do tempo, talvez seja o momento de parar para pensar nas razões que te levam a viver assim. E se o tempo é uma perspectiva tão complexa assim, valerá a pena questionar o que é o tempo? Podemos responder como Santo Agostinho que — se não me perguntarem, eu sei o que é, mas se mo perguntarem, não faço a menor ideia. Mas a importância da pergunta está na abertura que gera de nos deixarmos transformar por esta perspectiva, vivendo-a intensamente. Pois, onde há uma razão, há tempo.

Quem orienta a sua vida pela quantidade de coisas que consegue fazer no mínimo tempo possível, desorienta-a. E quem perde a direcção, perde a razão de fazer, pensar e viver seja o que for. O tempo vivido em cada momento sugere colocarmos, por vezes, o coração nas coisas que não passam. Outras vezes, sugere que pintemos o dia seguinte no dia anterior como preparação para fazer bem cada coisa. E ainda, outras vezes, sugere que paremos, e contemplemos dentro e fora de nós a vida que desabrocha.

Não há uma única perspectiva temporal porque a unicidade de cada pessoa torna cada perspectiva temporal única. Por isso, na partilha de experiências do modo como vivemos o nosso tempo podemos sempre inspirar e ser inspirados. Pois, mesmo que não o possuamos, nada nos impede de dar tempo a quem precisa. Mas como posso dar tempo quando o tempo não se possui? Posso amar. Do nada, o amor tudo cria, e, misteriosamente, até o tempo que ninguém possui.


Imagem: A persistência da memória | Salvador Dalí [1931] – Museu de Arte ModernaNova Iorque