Qui. Out 28th, 2021
‘Duas Asas’ – rubrica dedicada ao pensamento e escritos de Edith Stein
(Parceria com o Carmelo de Cristo Redentor – Aveiro)

A ORAÇÃO EM CHAVE DE AMIZADE

Javier Sancho*

Como preâmbulo indicamos que Edite Stein não vê contraposição entre as diversas modalidades orantes, mas uma estreitíssima unidade que surge da centralidade de Cristo e da presença do Espírito Santo que é quem autentifica a oração, quer esta seja vocal ou mental, litúrgica ou devocional. Só existe uma oração.

Para Edite Stein não há dualismos na oração. O que conta é que esta seja fruto de uma participação consciente, e que além de ser um acto de culto e de louvor, surja como um encontro de amor. Toda a oração vocal para ser uma oração viva há-de transformar-se em oração mental, quer dizer, tem que ser pronunciada com o coração e a boca ao mesmo tempo: «… a oração vocal, que se realiza com determinadas fórmulas faladas: o Pai Nosso, a Ave Maria, o rosário, as Horas canónicas. Essa oração vocal não deve entender-se de forma, que consista só em pronunciar as palavras. Onde a oração vocal for praticada de forma a que o espírito não se eleve para Deus, é uma aparência de oração, não uma oração verdadeira. As palavras são um apoio para o espírito, indicando-lhe um caminho» (OC V, 508).

a) Orar como Jesus

Só e Cristo e a partir de Cristo tem sentido e razão de ser a vivência da oração como vocação e apostolado. Este valor cristológico não só qualifica de autêntica a oração mas, além disso, «objectiva-a» como oração da Igreja. Na sua vida Cristo participou da liturgia oficial. Mas, mais frequentemente, é visto em oração pessoal com o Pai. Uma oração, que pelo que implica de estado de amizade, se prolonga em todo o momento na vida de Jesus. O seu exemplo é um convite a praticá-la e a certeza de que é o caminho seguro de seguimento. Além disso, «a oração da Igreja é a oração de Cristo vivo» e «tem o seu modelo na oração de Cristo durante a sua vida terrena» (OC V, 113).

A oração de Jesus caracteriza-se por ser uma contínua acção de graças e porque revela o mistério da unidade trinitária. Seguir a Cristo no caminho da oração é entrar a participar do seu sacerdócio eterno, é entrar na dinâmica do sacrifício expiatório, é participar da obra de salvação.

A chave para compreender a vida interior de Cristo e a vida de oração do cristão há que buscá-la na «oração sacerdotal de Jesus» (Ib. 114) que desvela «a imanência recíproca das pessoas divinas e a inhabitação de Deus na alma» e, ao mesmo tempo, «desvela o mistério do sumo sacerdócio: todos os seus podem ouvi-lo quando no santuário do seu coração fala com o Pai: devem apreender em que consiste, e aprender a falar no seu coração com o Pai» (Ib.). Se nos aproximamos do capítulo 17 de São João poderemos intuir e constatar quanto Edite Stein pretende dizer: a familiaridade de Jesus com o Pai. Entre os elementos que realçam da sua oração temos: a glorificação de Deus, a salvação de todos os que Deus lhe deu, que estes conheçam a Deus, que alcancem a vida eterna, e que todos sejam um e conheçam o amor do Pai. Em definitivo, os aspectos essenciais da oração cristã: relação familiar entre pessoas, glorificação da Trindade, intercessão pela salvação dos homens (carácter apostólico), conhecimento da Verdade de Deus, experiência do amor de Deus, conquista da salvação eterna e da união entre os homens e com Deus.

Jesus faz da sua missão uma oração ao Pai, para que esta missão chegue ao seu pleno desenvolvimento em toda a humanidade. Esta atitude de Jesus sublinha-nos o poder ilimitado da oração ao Pai, e diz-nos que todo o apostolado há-de tornar-se oração, há-de ser confiado ao poder do Pai, para que seja realmente efectivo.

b) Relação de amizade

Edite Stein quando fala da oração define-a sempre na linha da leitura teresiana do «trato de amizade». Para Edite Stein a oração «é um abrir a alma a Deus», «é contemplar o rosto do Eterno» (OC V, 560). Com isto quer dizer-nos que, sem esquecer que toda a oração só é autêntica no Espírito, tem que surgir no homem como um acto de amor, ou o que é o mesmo, como um acto livre da alma diante de Deus. Daí que uma oração será mais autêntica quanto mais livre for o homem que a realiza. Este agir livre do homem caracteriza-se porque se abre a uma relação de amor: «A oração é o trato da alma com Deus. Deus é amor, e amor é bondade que se dá a si mesma; uma plenitude existencial que não se encerra em si, mas que se derrama, que se quer dar e fazer feliz. Toda a criação deve o seu ser a esse amor trasbordante de Deus. (…) A oração é a façanha mais sublime de que é capaz o espírito humano. Mas não é só rendição humana. A oração é como a escada de Jacob, pela qual o espírito humano trepa para Deus, e a graça de Deus desce aos homens» (OC V, 507). A oração concebe-se, então, como uma «entrega dos grandes amadores a Deus» (OC V, 119).

A relação de amizade, que é o clima apropriado de uma autêntica oração cristã, implica uma relação entre pessoas, entre um eu e um tu, dispostos a acolher-se mutuamente, e no respeito pela liberdade. Amor e liberdade vão necessariamente unidos, e só desde estes pressupostos se torna possível a vida de oração: «O acto livre da oração é autêntico e eficaz só na medida em que se funda no amor a Deus» (ESW VI, 163).

A vida de oração, na medida em que vai crescendo como acto livre e amoroso, transforma-se num caminho de união, ou caminho de participação na essência divina que é amor (cf. SF 520). Mas, além disso, a oração é o caminho único que nos conduz ao mais profundo do nosso ser, a esse lugar onde o homem é mais livre e se sente na sua própria casa» (cf. SF 451).

c) Oração apostólica

A ração vivida como encontro, como experiência de amor com Deus, rompe com o egoísmo do coração, e faz com que a vontade do homem se conforme com a vontade salvadora universal de Deus. Por isso, a oração transforma-se em intercessão pelo bem da humanidade. Assim o compreendeu Edite Stein e o compreenderam todos aqueles que fundamentaram a sua vida na relação de amizade com Deus. A sua oração tem um denominador comum: ganhar almas para Deus, interceder voluntariamente pelos pecadores e pela Igreja universal de Cristo. «Interceder com o sofrimento voluntário e alegre em favor dos pecadores e assim colaborar na salvação da humanidade» (Ct 998).

A força da oração radica em que realiza a união de Deus com o homem. Isto é possível graças à obra da reconciliação selada com o sangue de Cristo na Cruz. Daí que o sentido apostólico da oração tenha que ser buscado na cruz de Cristo. A união com Deus realiza-se mediante a participação e o seguimento da vida de Cristo. A oração, enquanto participação e acolhimento do mistério de Cristo e de configuração com Ele, leva consigo a participação na sua obra de Redenção. É meio de salvação para o orante e para a humanidade pela qual intercede juntamente com Cristo (cf. OC V, 623-624).

A eficácia apostólica da oração é parte do mistério da vontade divina que se abaixa e submete, no seu infinito amor, à vontade do orante: «O facto mais maravilhoso da vida religiosa é que Deus, escutando as orações, se submete à vontade dos seus eleitos. O porquê é algo que supera  toda a conceptualização» (ESW VI, 161).

*Javier Sancho. 100 Fichas sobre Edith Stein. Edições Carmelo, Avessadas, 2008. Pp. 200-203.


Imagem de Annie Spratt por Pixabay