Sáb. Out 16th, 2021

Rubrica ‘QUE ESPAÇO PARA DEUS?’

Um espaço de reflexão acerca da arquitectura e da sua importância nas nossas vidas.
Por Manuel Vilaça Ribeiro, 25 anos, arquitecto, natural de Coimbra, actualmente a trabalhar no Porto, nos DepA Architects.*

TEMPO NOVO

Manuel Vilaça Ribeiro
Distanciamento e isolamento são porventura as palavras mais usadas e que mais interiorizámos nos últimos tempos. Agora, confinados às nossas casas e, por isso, privados dos espaços e lugares que naturalmente faziam parte do nosso dia a dia, fomos confrontados com uma nova realidade que radicalmente nos obrigou a mudar a forma como vivemos, redescobrindo novas formas de existência e co-existência com as pessoas e os espaços.

Apesar do historial de sobrevivência e superação às mais diversas adversidades a que a Igreja Católica foi sujeita – recorde-se, a título de exemplo, os primeiros três séculos, onde os cristãos foram fortemente perseguidos e martirizados – o confinamento a que fomos subjugados originou a que, pela primeira vez na história da humanidade as igrejas fechassem portas, colocando em causa algo absolutamente vital na vivência da fé, que em dois mil anos de história nunca se tinha posto desta forma: a impossibilidade de instituição dos Sacramentos.

Esta altura de grande provação para a Igreja Católica, e em especial para os fiéis, que se viram impossibilitados de participar fisicamente nas celebrações, fez com que a Igreja tivesse de, uma vez mais, se reinventar, adaptando-se às necessidades de cada momento, procurando ser próxima, apesar de toda a distância física. O digital ocupou um lugar central neste processo de mudança, permitindo um não tão sofrido e desconectado distanciamento e isolamento.

Graças à resiliência e capacidade de adaptação, os Católicos foram capazes de manter viva a sua fé. Certo é que de uma forma diferente, mas não deixaram de celebrar em comunidade, transformando as suas casas em pequenas igrejas, à semelhança do que acontecia nas primeiras comunidades, criando espaços de encontro com Deus: o sofá transformou-se em banco de igreja, a mesa de apoio da sala em altar e a televisão ou computador em janelas que se abriam para Deus, transportando os fiéis para uma realidade mais próxima, comunitária e visível da fé. Uma realidade estranha, sim, mas importa não esquecer que “onde dois ou três estiverem reunidos em meu nome, ali estou no meio deles”. (Mt 18,20)

Um tempo novo, onde novas portas e janelas se abrem. Um tempo que clama reflexão.
Nesse sentido, há que aproveitá-lo, aproveitá-lo para dar o salto que todavia ainda não se deu. Falo do aggiornamento das igrejas, da sua adequação e reabilitação arquitectónica. Pois, apesar do grande esforço do Movimento Litúrgico em renovar a Liturgia e o espaço litúrgico, de resto confirmado no Concílio Vaticano II, os seus desenvolvimentos posteriores, em grande parte, não se concretizaram.

Não esquecendo alguns esforços por parte da Igreja de um encontro com o mundo da arte, ainda é muito visível a divisão, o conflito, algo perceptível nas igrejas do nosso país e um pouco por toda a parte, mantendo-se uma crise na imagem da igreja nos dias de hoje. Salvo raros exemplos, a Igreja não tem sido capaz de traduzir e transmitir, através da sua arquitectura, uma imagem actual e contemporânea.

É certo que projectar uma igreja não é tarefa fácil, uma vez ser necessário conjugar tantos aspectos dicotómicos, como o terrestre e o celeste, o mundano e o sagrado, o visível e o invisível, mas é necessária uma renovação, é necessário transmitir uma imagem actual, que respeite a tradição milenar, mas que corresponda às necessidades do tempo presente. É necessário reabilitar muitos dos edifícios de culto católico que se encontram hoje desactualizados, em parte devido a conservadorismos pretensamente viciados.

Procurarei ao fim de cada artigo, partilhar algumas sugestões relativamente à temática. Entre livros, artigos, obras de arte, arquitectos/escritórios de arquitectura ou, ainda, obras de arquitectura.

Livro
https://snpcultura.org/os_espacos_liturgicos_primeiros_cristaos.html
Recente publicação do livro “Os espaços litúrgicos dos primeiros cristãos. Fontes literárias dos primeiros quatro séculos”, de Isidro Lamelas.

Artigo
https://www.snpcultura.org/luz_para_o_mundo_clarissas_chegam_aos_tops_de_musica.html?fbclid=IwAR13Mii5s76gjvrHGpuYKZphrOPgTybJDbwFqi96zdtzU8Z8I7An57K3_yY
Apresentação de um projecto musical inovador e de grande sucesso desenvolvido pelas Clarissas do Convento de Arundel, em Inglaterra, “no qual hinos sagrados, ecos do gregoriano e textos de S. Francisco e Santa Clara, encontram sons, atmosferas e elaborações contemporâneas”.

Obra de arte
https://www.timeout.pt/lisboa/pt/coisas-para-fazer/broteria-a-nova-casa-da-cultura-do-bairro-alto-mora-num-edificio-aristocratico
Fotografia de João Penalva, Looking up in Osaka, colocada em cima de um antigo oratório no Centro cultural Brotéria, dos Jesuítas, situado no Bairro Alto, Lisboa.

Arquitecto/escritório de arquitectura
https://cerejeirafontesarchitects.com/pt/
Cerejeira Fontes

Obra
https://www.youtube.com/watch?v=G_mi2YxJPMA
Capela Árvore da Vida, Braga, 2012


Imagem: Capela Árvore da Vida | Braga
* A educação católica que de berço recebi aliada à formação universitária em Arquitectura e ao gosto pela História, fez com que, ao terminar o curso, desenvolvesse a minha dissertação de mestrado subordinada ao tema “O ESPAÇO DE CULTO CATÓLICO: Reabilitação de igrejas segundo a reforma litúrgica do Concílio Vaticano II”.
Neste espaço procurarei desenvolver algumas das questões que fui aprofundando acerca da problemática do espaço de culto católico, de olhos postos nos desafios que o presente e o futuro impõem.