Dom. Set 19th, 2021
‘Duas Asas’ – rubrica dedicada ao pensamento e escritos de Edith Stein
(Parceria com o Carmelo de Cristo Redentor – Aveiro)

A EXPERIÊNCIA MÍSTICA E RELIGIOSA

Javier Sancho*

A pessoa é constituída pelo chamamento, pois o homem pessoal e espiritual surge, por meio do chamamento de Deus, como aquele a quem Deus constitui para si num tu e existe nessa condição de ter sido chamado e distinguido como este tu, mas além disso é chamado a conhecer, valorizar e configurar o mundo, e tornar-se responsável dele. Este processo que define o viver cristão ou todo o âmbito da espiritualidade cristã, implica uma relação experiencial. O ser espiritual do homem justifica e torna possível essa relação com o Ser Pessoal. Tudo isto, necessita, no entanto, da acção sobrenatural da graça que, – como se afirmou – vem ao encontro do homem para o levar à sua plenitude.

Aqui vamos aproximar-nos da visão que Edite tem de dois temas estreitamente relacionados: a experiência religiosa e a experiência mística.

 

a) É possível uma experiência de Deus?

A resposta a esta pergunta é necessariamente condicionada pelo ponto de partida que adopte aquele que deve responder. Em definitivo, dependerá da compreensão que tenhamos do «homem». A posição de Edite é sumamente interessante e luminosa. Encontramo-la reflectida na sua tese de doutoramento Sobre o problema da Empatia. A análise dos actos da empatia no homem leva-a a uma compreensão do ser humano como ser «espiritual», transcendente. E só porque é «espiritual» é capaz de empatizar. Na última página deste trabalho Edite coloca-se num nível hipotético e pergunta-se sobre a possibilidade de uma relação entre pessoas puramente espirituais, noutras palavras, sobre a possibilidade de uma experiência religiosa. A sua posição aparece ser positiva, sempre e quando se aceite a existência do Espírito. No entanto, como era de esperar, não afronta a questão e «deixa a resposta da pergunta formulada a ulteriores investigações» (Sobre o problema da empatia, 135).

A própria Edite Stein, ainda que brevemente, oferecer-nos-á numa ocasião a sua concepção da experiência religiosa e da sua possibilidade, precisamente num diálogo epistolar aberto com o filósofo (por então bastante céptico) Roman Ingarden. Numa carta escrita a 20 de Novembro de 1927 afirma: «Creio que se pode e deve falar de experiências religiosas; mas com isto não se trata de uma “contemplação directa” de Deus… O caminho normal reflecte sobre os efeitos que notamos em nós, nos outros e nos acontecimentos, etc., na natureza e na vida dos homens, dos quais nenhum – tomado em si mesmo – remete tão claramente à autoridade divina, de modo que já não fosse de pensar outra explicação; contudo, todos eles contêm em si uma tal indicação, alguns tão fortes no seu isolamento, que é impossível fugir dela, em todo o caso o seu impacto é tal que metodologicamente podemos duvidar, mas não realmente… Não é necessário que no final da nossa vida cheguemos a uma prova convincente da experiência religiosa. Mas sim é necessário que tomemos uma decisão a favor ou contra Deus. É sito que nos exige: decidir-nos sem uma prova de garantia. Este é o grande desafio da fé» (OC I, 801-802).

Com o passar do tempo, e olhando para a sua própria experiência, Edite constata que é fundamental a atitude de abertura, da parte da pessoa, a esta experiência: «Não é possível ajudá-lo com argumentos. Se fosse possível libertá-lo de toda a argumentação, então seria ajudado. E aconselhar? Já lhe dei o meu conselho: ser como uma criança e pôr a vida com toda a investigação e cavilação nas mãos do Pai. Se ainda não conseguimos isto: pedir, pedir ao Deus posto em dúvida e desconhecido que seja ele a ajudá-lo. Agora olhe para mim assombrado, que não tenho medo de me apresentar diante de si com tão simples sabedoria de criança. É sabedoria, que conduz com total garantia à meta» (OC I, 778).

 

b) Experiência mística

Edite Stein foi uma mulher mística no sentido mais autêntico da palavra: quer pela vivência da união com Deus, quer por ter experimentado uma série de graças sobrenaturais especiais. Mas não nos ocupamos agora deste tema. Sublinhamos apenas os elementos que, na opinião dela, configuram a autêntica experiência mística.

Em primeiro lugar, teríamos que indicar que a experiência mística surge do conceito mesmo do que é a religião: «… a religião não é algo para viver num canto tranquilo e durante uma horas de festa, mas … deve ser raiz e fundamento de toda a vida, e isto não só para alguns escolhidos, mas para todo o cristão que o seja de verdade…» (OC I, 809).

Mas, que entende Edite por mística? Na sequela dos grandes mestres, Dionísio Areopagita, João da Cruz e Teresa de Jesus, compreende a mística como «encontro pessoal com o Senhor» (OC V, 150), como «sentimento da presença de Deus» (ib.). Mas o mais fundamental é, sem dúvida, a meta: a união com Deus, à qual é chamado todo o ser humano, ou expresso com outras palavras: «a união da alma com Deus» (SF 422).

A experiência mística é qualificada, além disso, não só como uma realidade experiencial, mas também pelo conhecimento de Deus, o modo mais sublime de conhecimento: «neste encontro pessoal tem lugar o conhecimento íntimo de Deus» (OC V, 152).

Na discussão sobre se todos são chamados à mística, Edite dá uma resposta claramente afirmativa: «todos os cristãos são chamados ao essencial, a saber, à união com Deus» (Ct 1278). Surge o problema da razão pela qual, de facto, são muito poucos os que realmente alcançam os cumes da vida mística, sobretudo quando se fala de graças sobrenaturais. «Que realmente chegam poucos aí, explica-se pelos obstáculos da parte do homem» (Ib.).

Estas afirmações steinianas fundam-se na convicção de que a vida mística «é a confirmação experiencial do que ensina a fé: a presença de Deus na alma. Aquele que guiado pela verdade da fé, busca a Deus, dirigir-se-á por livres esforços ao lugar preciso ao qual é atraído o ser favorecido pela graça mística» (SF 457). Mais contundente ressoa esta outra afirmação: «Se se designou o conhecimento experiencial como “realização” da fé, então indica-se com isso que a fé tende para o mesmo que se oferece no conhecimento experiencial» (OC V, 154). A fé, quando é uma realidade viva e assumida conscientemente, busca assumir, viver e experimentar aquilo que crê. Deste modo, a experiência mística é uma consequência da fé, mesmo quando seja sempre obra da graça.

Edite dá-nos um conselho em relação a isto: «penso que fazer da nossa parte tudo o que é possível, a fim de chegar a ser um vaso para a graça divina, é um caminho mais seguro» (Ct 1278). E conclui com um aviso que aplica a Santa Teresa: “Desapega o teu coração de todas as coisas. Busca a Deus e encontrá-lo-ás».

Outro tema estreitamente relacionado é o da teologia mística. Ocupar-se-á dele de perto na sua obra Caminhos do conhecimento de Deus sobre o Areopagita (cf. OC V, 125 ss.), e na Ciência da Cruz (Ib. 201 ss.). A teologia mística é a ciência secreta de Deus, o grau supremo de falar de Deus.

*Javier Sancho. 100 Fichas sobre Edith Stein. Edições Carmelo, Avessadas, 2008. Pp. 195-197.


Imagem: Êxtase de Santa Teresa | Gian Lorenzo Bernini [1598-1680]