Pe. Georgino Rocha 

Os Magos, protagonistas da procura de Jesus-Menino, são guiados por uma estrela em todo o seu percurso: da terra natal à cidade de Jerusalém e a Belém, local onde O vêm a encontrar. Mais do que a importância histórica, os Evangelhos da Infância destacam o alcance simbólico desta procura, as fases do processo de amadurecimento humano que se expressa na prostração e adoração, gestos típicos de quem alcança uma fé sólida e profunda. Fazem o itinerário pessoalmente e em conjunto, dimensões específicas da fé cristã. Sentem dificuldades e deparam-se com obstáculos que, persistentemente, vão superando. Aguentam períodos de ocultamento das certezas e afrouxamento das convicções, mas a força do desejo, alimentado pela confiança, impele-os a avançar. A estrela ilumina, mas a escolha do percurso e o ritmo da caminhada é deles. Estão condicionados pela sua convicção e coragem. Mt 2, 1-12.

O Papa Francisco, na audiência de 4ª feira passada, dedicou a catequese – a quinta – a São José na fuga para o Egipto e deteve-se no alcance da coragem como virtude motora da vida.

“A vida quotidiana duma pessoa requer tanta coragem para enfrentar as dificuldades do dia a dia. E como não lembrar inúmeros homens e mulheres corajosos que, para permanecer coerentes com a sua fé, enfrentaram todo o género de dificuldades, superando injustiças, derisão pública e até a morte? A coragem é sinónimo de fortaleza, a qual, juntamente com a prudência, a justiça e a temperança, forma o grupo das chamadas «virtudes cardiais» necessárias a todo o homem e mulher sobre a terra”.

Após as peripécias do caminho, os Magos chegam finalmente. A estrela-guia pára “sobre o local onde estava o Menino”. Exultam de alegria e entram em casa. Os seus olhos podem ver o que o coração pressentia: O Menino com Maria, sua Mãe. Ele é o Rei dos Judeus, como declarará, mais tarde, perante Pilatos. A atitude consequente é de entrega total, de aceitação incondicional de quem é aquele Menino e do que representa como oferta de Deus à humanidade. Prostram-se em adoração, abrem os tesouros de ouro, incenso e mirra, dons expressivos da nobre e frágil condição daquele que, tão ardentemente, queriam contemplar. Fazem um gesto ritual que se converte em símbolo qualificado do encontro pessoal com Deus e da comunhão envolvente no seu propósito de salvação.

O candidato à vida cristã pode inspirar-se no exemplo-tipo dos Magos no itinerário catecumenal: deixar-se surpreender pelos sinais de Deus no mundo de hoje – o que supõe vencer a indiferença e estar atento ao que acontece -, corresponder ao desejo suscitado pela curiosidade e procurar respostas adequadas, aceitar a companhia de outros que alimentam aspirações semelhantes, vencer as provas inevitáveis em todo o percurso humano, cultivar a alegria dos passos dados, viver o entusiasmo do encontro e celebrar a comunhão alcançada.

Os sinais de Deus estão presentes nas realidades da vida. Ora se manifestam, ora se ocultam. Manifestam-se em tudo o que humaniza verdadeiramente a sociedade e, nela, a convivência entre as pessoas e a organização das instituições e serviços. Ocultam-se sempre que se criam situações indignas da condição humana e se procura legitimar a injusta ordem estabelecida. A estrela de Belém ilumina com a sua luz admirável estas realidades, a bondade e maldade de cada uma delas. O Deus-Menino, como faz aos magos de modo emblemático, mostra-nos outro caminho para chegarmos a uma terra que seja de todos, anunciarmos a fraternidade que nos vincula e repartimos os bens preciosos que nos sustentam. E a flor do Natal manter-se-á vigorosa a alimentar a nossa esperança.


Adoração dos Magos | Domingos Sequeira [1768-1837]