Sáb. Set 25th, 2021

Pe. Georgino Rocha 

“Vinde comigo para um lugar isolado e descansai um pouco” é o apelo/convite e a recomendação de Jesus, após ter acolhido e ouvido os discípulos regressados da primeira experiência missionária. Como Jesus é humano, está atento, é compassivo! Mc 6, 30-34.

A narração do que acontecera deixava perceber que a missão decorrera bem. As instruções tinham sido observadas. A confiança na palavra do Mestre estava confirmada. O êxito enchia de alegria contagiante o coração de todos. A sobriedade de meios, a simplicidade de vida, a itinerância doméstica, a eficácia do anúncio, a libertação do espírito oprimido pelas forças do mal são credenciais comprovadas e adquirem valor distintivo de quem é discípulo de Jesus em qualquer circunstância. Partilham o belo da missão. Nada que pareça fofoquice, reacções negativas das pessoas, sacudidelas do pó das sandálias, comentários negativos ào que viram e ouviram.

Marcos – o autor deste relato – condensa a atitude do Mestre no apelo à união fraterna e na recomendação ao descanso revigorante. “Vinde comigo” e tomaram a barca, a fim de fazerem a travessia do mar de Tiberíades, rumo à outra margem. A travessia converte-se de facto real em símbolo da trajectória humana ao longo da vida, em expressão da evolução do mundo interior de cada um, em sinal da maturidade alcançada por quem deseja saber conviver em sociedade e transmitir uma herança valiosa às gerações vindouras, em ícone da Igreja peregrina, inserida na história, próxima de todos, que sabe comtemplar e agir “a tempo e fora de tempo”, como testemunha São Paulo.

A barca ia deslizando sobre as águas e os discípulos saboreando o ambiente repousante na companhia do Mestre. O percurso terá sido o espaço do descanso. Não tanto físico, mas psicológico e espiritual. Constituem dimensões fundamentais de um repouso consistente e gratificante: o estarem juntos, na companhia do Mestre, partilhando experiências e ouvindo comentários de apreço e valorização, o dialogarem sobre expectativas que alimentam sonhos e criam novos impulsos apostólicos, o verem-se confirmados no desempenho da missão confiada e, sobretudo, o de serem reconduzidos à fonte da verdadeira alegria – Deus que tem o nome de cada um inscrito no seu livro de bênção.

Ronchi Ermes, teólogo italiano, afirma na sua reflexão sobre o Evangelho: “Precisamos que cada um acredite no seu dom, na sua unicidade, e assim possa manter elevada a vida com a inventiva, a coragem, a criatividade, que são dons do Espírito…“Então nunca faltará o vento ao meu veleiro, ou àquela pequena vela que se agita alta no vazio do mar”. Avvenire.

Marcos, com o seu relato, traça-nos o perfil do agir do discípulo em missão: ver as pessoas, compadecer-se da sua situação, aproximar-se, agir em consequência. Como Jesus. Deixa-nos também o núcleo principal de umas boas férias vividas à maneira humana, de forma integral.  Maravilhoso ideal que sempre há-de atrair-nos e manifestar a que distância ainda nos encontramos, sempre que malgastamos o tempo, desperdiçamos as oportunidades, queimamos as energias e os sonhos, ficando mais vazios e esgotados, sem razões de esperança no sentido nobre da vida.

O descanso faz parte da dignidade humana, manifesta a semelhança original do homem com Deus – ao sétimo dia, Deus descansou – e aponta para o futuro definitivo – felizes os que morrem no Senhor, desde agora descansam em paz porque as suas obras os acompanham – garante o Apocalipse. O descanso convida à contemplação da beleza e da bondade, à experiência fruitiva do lazer, à valoração da sabedoria, ao crescimento humano, à satisfação das carências fundamentais a fim de alcançar uma personalidade amadurecida.

O descanso e o lazer são vitais para a pessoa cultivar o seu ser integral. Fazem bem ao corpo e ao espírito. O exemplo de Jesus constitui o gérmen das férias dignas da condição humana que a história veio a consagrar em direito e que a legislação laboral vem delimitar. Oxalá que, acertadamente, para todos!


Imagem de Avi Chomotovski por Pixabay