Qua. Out 20th, 2021

Oratório Peregrino

Um oratório à maneira de um viático para tempos de carestia
Uma proposta desenvolvida em parceria com

Irmãs do Carmelo de Cristo Redentor – Aveiro


XIV – Servidor do Reino, enviado pelo Espírito

Se quisermos ser apóstolos, o primeiro que temos a fazer é dar-nos conta da presença do Espírito Santo na nossa alma para que Ele seja o dono da nossa actividade (I 23-8-53).

O apóstolo é um homem de oração que reza com o Espírito Santo. Construímos a Igreja orando. Se não sabemos orar, faremos um edifício com pedras mas sem cimento.

Nas obras do apostolado, somos colaboradores do Espírito Santo. Quer seja dar de comer aos pobres, dar um ensinamento espiritual ou administrar os sacramentos, o Espírito Santo interessa-se por todos os nossos trabalhos. Somos seus colaboradores: temos que pôr-nos à sua disposição. O apóstolo não pode realizar um trabalho puramente humano. Tudo deve girar à volta da construção da Igreja.

Que o Espírito Santo nos ensine a ser ao mesmo tempo audazes e simples nos nossos contactos, nos nossos ensinamentos. Nos mostre nas feridas que teremos que vendar e curar a bondade de Deus e nos faça aceitar a verdade. Saibamos levar o sofrimento com paciência e amor: sofrimentos exteriores, talvez sofrimento pelo ódio, sofrimento pelo pecado que vemos nas almas com que nos relacionamos. O apóstolo leva o peso do pecado interior e às vezes exterior.

Aproveitemos tudo isto para realizar a missão que Deus nos deu, para a realizar tão amplamente como Deus quer. Não a diminuamos por falta de caridade ou por estreiteza de olhar; ofereçamo-nos ao Espírito Santo para que Ele seja o Mestre e para que por meio de nós realize na Igreja o que previu desde toda a eternidade, o que o Pai espera de nós (I 21-8-52).

Tudo o que Deus Pai faz, fá-lo «por Jesus Cristo, no Espírito Santo». É Ele quem realiza a sua obra de amor no mundo.

A nossa colaboração é necessária, mas a acção de Deus é o primeiro. No começo da vida espiritual o homem dirige a sua vida. Mas num dado momento, Deus toma a iniciativa: é então o momento de descobrir profundamente a Cristo e a Igreja, seu Corpo. O homem escolhe caminhar a partir desse momento ao passo de Deus. É uma mudança na vida pessoal e uma boa notícia para o mundo. O Espírito quer trabalhar por meio de nós, em nós. E temos que nos deixar conduzir.

O Pai envia-me por meio de Jesus; mas não conto só com a minha força, mas com a sua graça. Esta eleição é um privilégio da graça baptismal, que nos associa ao gesto salvador de Cristo: «Porque Tu o dizes, lançarei as redes». Quando começar? Hoje mesmo; tal como sou, ir onde me envie. A grande riqueza é que o Espírito Santo me tenha tomado, me tenha transformado (I 8-66). Não só quer ser nosso guia, nossa luz, nosso inspirador, mas quer sê-lo Tudo e realizar o querer e o agir. Que vem fazer em nós senão iluminar-nos e trabalhar em nós? (I 7-66).

Como discípulo e servidor, aprendo a trabalhar no campo do Senhor. Não é o meu; não posso dizer: «Tomo este pequeno terreno e cultivo-o para Deus». O construtor da Igreja é o Espírito Santo! O apóstolo põe-se à sua disposição, pois seremos apóstolos na medida em que Deus tome posse de nós, na medida em que Deus esteja vivo em nós: os nossos gestos serão então os gestos do Espírito Santo.

É este o segredo de todos o apostolado. E Deus alegrar-se-á vendo que estamos verdadeiramente ao serviço do amor…

Devemos certamente ser competentes e fazer bem o trabalho. Também somos responsáveis do que fazemos. O Espírito Santo tem necessidade disso. Mas o Padre Eugénio Maria vê os limites das nossas obras demasiado humanas, e diz-nos com humor: Vemos com os nossos óculos, isto parece-nos muito importante, e julgamos que disto depende o futuro. Oh, os sonhos da nossa inteligência! (I 16-5-66).

Os acontecimentos podem também ser indicadores de direcção. O pensamento de Deus está vivo, desenvolve-se, temos que estar preparados em todo o momento. Porque uma fé viva tem o poder de nos fazer perceber em tudo a acção do Espírito Santo. Na minha vida, às vezes, punha-me a caminho, pensava que ia na boa direcção, e de repente, alto, tinha que parar em seco e dar a volta… Sentimos que é o Espírito Santo quem o quer. Há que ter uma confiança total n’Ele. Quando nos desconcerta, então podemos esperar no grande poder do amor de Deus (I 24, 12-66).

Quando sou servidor, descubro que através do caos das germinações divinas, a mão de Deus está sempre presente. Nunca estamos mais seguros da vontade de Deus do que quando um acontecimento providencial nos obriga a fazer isto ou aquilo. As dificuldades não nos devem fazer crer que nos equivocamos… Não compreendemos o que acontece, mas enfim, Deus não tem porque nos explicar tudo. O que por fora pode aparecer um empobrecimento, pode tornar-se na origem de um grande bem.

Nuns apontamentos de um retiro espiritual, o Padre Eugénio Maria escreve:

O Espírito Santo está vivo e tudo ordena. Tenho que me abandonar completamente e estar disponível com os olhos fechados, sem pretender conhecer o que será o futuro. Esforçando-me por cumprir com as minhas obrigações actuais à sua luz e segundo a sua vontade (1954).

Espírito Santo, criai em mim

os laços de amizade que necessito e desejo

e que necessitas

para realizar a tua obra em mim.

Que o sopro do Espírito de amor

penetre em mim,

me invada e vivifique

como vivifica a Igreja.

Que este alento, que é o Espírito Santo,

me faça realizar a minha missão.

Esta é a verdadeira oração cujo alcance desconhecemos. Chegará a regiões profundas, longínquas e misteriosas, que desconhecemos, mas que veremos um dia no céu.

Ofereçamo-nos a este Pentecostes!


Imagem de Michael Schwarzenberger por Pixabay