Seg. Out 18th, 2021
Modos de interação entre ciência e religião

Pontes


Pontes ( I ) Visível—Invisível

Miguel Oliveira Panão

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Existem encostas longínquas que só uma ponte permite continuar o caminho. Não é fácil construir pontes que ligam duas margens que aparentam estar “infinitamente” separadas, mas as aparências, também, não cessam de nos iludir. As pontes expressam as ligações fundamentais que dão vida ao mundo através do fluir que permitem de pessoas, ideias, gestos. Quando penso em “Pontes” vem-me a imagem de um fio de ouro que une cada elo encadeado noutro. Penso no quanto descobrimos sobre nós próprios por estarmos conectados.

Existem sempre dois lados que permanecem opostos até que se construa uma ponte. Por isso, cada ponte dá uma nova identidade ao que conecta, servindo de “terceiro incluído” se a nossa visão for transdisciplinar que mostra o que parecia ser contraditório num certo nível de percepção da realidade. As pontes não unem apenas as margens, mas, sobretudo, as pessoas. Daí que um abraço, perdão, ou aperto de mão possa tornar-se a ponte entre dois corações. São o tipo de pontes que através de gestos visíveis revelam realidades invisíveis.

No diálogo entre o que a ciência nos permite compreender e a fé que abre a nossa percepção à Realidade, a ponte entre o visível e o invisível faz-se através do “inferível”. Não é possível ver com os meus próprios olhos um electrão, mas com aceleradores de partículas, por inferência, vejo o efeito que esperaria “ver” de realidades invisíveis nas visíveis. Talvez seja o efeito transformativo e identitário que caracteriza qualquer ponte no seu sentido mais profundo.

As realidades espirituais são difíceis de partilhar pelo modo próprio como cada um as vive. E ainda que partilhemos essa vivência em comunidade, ou façamos uma experiência espiritualmente colectiva, haverá sempre um toque pessoal na realidade espiritual invisível associado à unicidade de cada pessoa. Daí a importância da partilha como ponte para o exterior daquilo que cada pessoa está a viver interiormente. Também, ao partilhar como está a viver seja o que for, consegue confrontar a sua experiência de vida com o que os outros vivem, enriquecendo-se reciprocamente. Quantas vezes não fazemos tempestades a partir de ninharias porque tornámos invisível aos outros aquilo que estávamos a viver sem que isso fosse necessário.

Se pensar bem, ao dizer a um amigo o que estou a sentir, será que as minhas palavras são suficientes para ser ponte que torna “vísivel” pela escrita, ou audível pelo falar, o que estou a sentir? Como saberá ele que falo ou escrevo a verdade, independentemente, de estar ou não distorcida pelo meu modo de ver a realidade? Não sabe. A partir deste exemplo penso na confiança como uma das pontes mais importantes entre o visível e o invisível. Todos gostamos de viver na verdade até que essa magoe alguém ou seja causa de ferida em nós. Por isso, se acolhermos o invisível na base da confiança, construímos laços que nos estruturam por dentro, estruturam os nossos relacionamentos e permitem que superemos como comunidade muitos abismos pseudo-intransponíveis.

A primeira coisa que numa guerra se destrói são as pontes. Corta-se a comunicação e a passagem que nos ligava à outra margem. Podem destruir-se pontes para ofender ou proteger, mas toda a destruição tem um preço. Por exemplo, a destruição de pontes que unem o visível com o invisível representa um corte dilacerante na nossa vivência da realidade. Se o visível deixa de comunicar com o invisível, e vice-versa, vive-se uma vida fragmentada pelas realidades absolutistas de cada um, remetendo cada pessoa cada vez mais para si própria, correndo o risco de se fechar numa espiral solipsista ontológica. Isto é, gradualmente, deixamos de saber quem somos, e quem são os outros; deixamos de distinguir o que é real do que não é; pois, uma vida fragmentada é uma vida desorientada. Mas é sempre possível reconstruir.

Com esta primeira ponte, inicia-se uma nova série de pensamentos partilhados onde procurarei tornar visível pelas palavras, realidades invisíveis que nos habitam e mostram como tudo no mundo está ligado com tudo. Porém, acima de tudo, gostaria de que experimentassem como a base onde assentam todas as pontes é uma só: o Amor. Só o Amor entendido através do modo de Deus “ver” (que não é fácil) pode ajudar-nos a compreender o incompreensível e a encontrar a segurança na mais profunda incerteza. Espero que através das pontes que partilharei possamos descobrir a riqueza da vida profunda subjacente ao profícuo diálogo que une ciência e religião.


Imagem de Free-Photos por Pixabay