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Pontes


Ponte (VII) Material—Imaterial

Miguel Oliveira Panão

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O frio que sinto nas mãos faz-me sentir a imediatez da materialidade. Mas uma probabilidade é bem real e completamente imaterial. Uma ideia é algo imaterial que habita na materialidade da nossa cabeça. Uma palavra escrita como “espiritual”, por exemplo, é algo material que se refere a uma dimensão imaterial da mundividência. A ponte entre o que é material e imaterial somos nós e nós somos subjectivos.

O sentir de uma pessoa pode ser diferente do sentir de outra, mas o que lhes é comum é sentirem seja o que for. Logo, a experiência da materialidade é concreta e comum à objectividade de cada pessoa. O que é imaterial pensado por uma pessoa pode ser diferente do que outra pessoa pensa, mas o que lhes é comum é pensarem seja o que for. Porém, a experiência da imaterialidade de um pensamento é mais abstracta e depende da subjectividade de cada pessoa.

A materialidade é mensurável e, por isso, desde que haja o instrumento de medida conseguimos caracterizar o que é material. O que é imaterial é imaginável e, por isso, desde que o ser humano expanda a sua criatividade consegue imaginar, pensar e dialogar sobre o que é imaterial. Se uma mensagem escrita é aceite como tal porque alguém emite e outro a recebe, enquanto viaja de um lado para outro, o seu conteúdo existe imaterialmente. Daí a forte e desafiante ideia da mecânica quântica de que nada existe enquanto não for observado.

Sempre que separamos o que é material do que é imaterial dilaceramos a realidade. Fragmentamos a nossa experiência do mundo e a nós próprios, diminuindo a intensidade de sentido e significado do nosso viver. Podemos duvidar das nossas interpretações sobre o que é material e imaterial, mas parece-me cada vez mais inegável que a realidade é feita de sintaxe (material) e semântica (imaterial) para delinearmos com a inteligência e consciência o fio narrativo que permeia tudo neste universo.

As pessoas que se consideram materialistas expressam as suas ideias pela imaterialidade do sentido que as frases que pronunciam tem para quem as escuta, caindo, sem se darem conta, em profunda contradição. Ser materialista não passa de uma orientação de pensamento que só nega a imaterialidade entrando no paradoxo de usá-la para conceber o que a nega. Se uma pessoa sofre de ansiedade e é materialista deveria consultar o médico capaz de encontrar a origem do desequilíbrio químico no seu cérebro. Mas depois de muitas análises, e de nada ser detectado, só pode reconhecer que a sua ansiedade é do foro psicológico e, por isso, profundamente imaterial. Logo, por que razão se considera materialista, isto é, que apenas existe o que é físico e material quando o seu problema de saúde é imaterial? Talvez por ser uma pessoa que vive dividida dentro de si mesma.

As pessoas que remetem a imaterialidade para uma questão de crença, e não acreditam no que é imaterial por se considerarem materialistas, esquecem que o materialismo é em si mesmo uma crença bem imaterial que habita dentro de si. Não podemos separar o que é material do que é imaterial, mas distinguir. E quem distingue não o faz para negar um em prol do outro, mas compreender melhor o entrelaçar de ambos. Um entrelaçar que acontece, sobretudo, em nós.

Pensamos que o imaterial abre o horizonte espiritual ao ser humano, mas eu creio ser o contrário. A espiritualidade precede qualquer materialidade ou imaterialidade. As imagens que temos do que é físico, mental e espiritual são, frequentemente, quantitativas, mas eu convido-vos a pensar num cilindro. Para que um cilindro exista precisa de um eixo, um raio e uma fronteira. Por analogia, o eixo é a dimensão espiritual, o raio corresponde à dimensão mental e a fronteira à dimensão física. Há pessoas que se contentam apenas com a visão do cilindro a partir do exterior e reduzem-no à materialidade. Só através da imaginação que a dimensão mental do raio viabiliza conseguem conceber no centro do cilindro um eixo espiritual que só pode ser imaterial. Nenhum destes elementos competem entre si e sem qualquer um deles não haveria cilindro. Assim acontece com as dimensões física, mental e espiritual que são o todo humanum que através do relacionamento de partilha com os outros constrói uma ponte entre o material e imaterial.


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