Sex. Dez 3rd, 2021
Modos de interação entre ciência e religião

Perspectivas


Quarta Perspectiva: Complexidade

Miguel Oliveira Panão

Blog & Autor

 

Quando tudo é organizado, o ambiente pode tornar-se monótono. Quando tudo é confuso, ruidoso, o ambiente pode tornar-se caótico. A beleza, dizia Alfred North Whitehead, está na hamonia dos contrastes, naquilo que revela o equilíbrio entre o que é organizado e o confuso, entre o que conhecemos e a surpresa. Esse equilíbrio provém da perspectiva associada à complexidade.

Podemos confundir complexidade com complicação, mas não são a mesma coisa. Por exemplo, se todas as faces de um dado têm o mesmo número de pontos — três, por exemplo, — não há qualquer surpresa sobre o resultado final de um lançamento. Por isso, não há qualquer complexidade. Por outro lado, se cada face tiver um número de pontos diferente, como habitualmente, o resultado de cada lançamento é uma perfeita surpresa, logo, não há, também, qualquer complexidade. A complexidade surge nos padrões escondidos entre o conhecimento e o desconhecimento, entre o cristal (perfeitamente ordenado) e o caos (desordenado na perfeição).

A perspectiva aberta pela complexidade no mundo é a de abrir a nossa mente à curiosidade. E muitas vezes na vida sentimos impasses em relação ao próximo passo a dar. O mundo está repleto de incerteza, e a curiosidade parece ser um luxo que não temos. Mas a curiosidade é a capacidade humana de ver para além dos impasses, identificar os padrões desenhados pelas inúmeras histórias que se cruzam, e entrever o mais pequeno sinal que nos diz — «talvez seja por ali.»

A complexidade ajuda-nos a transformar as dicotomias (opostos que dividem) em dualidades (opostos que nos unem). Não existe mais o mau e o bom, mas antes um certo grau de complexidade, onde o mau e o bom fazem parte da perfeita imperfeição que nos constitui, realmente, como seres humanos. Nesse sentido, a complexidade leva-nos a reconhecer a realidade limitada que é cada um, e de que a visão do mundo não é feita de preto e branco, ou até de uma infinita escala de cinzentos, mas de infinitos maiores que acolhem todas as cores do espectro.

A perspectiva aberta pela complexidade é a de um mundo sobre o qual, cada um conhece apenas uma parte, logo, há tanto mais para saber, compreender, amar e viver.


Imagem de (El Caminante) por Pixabay