Dom. Nov 28th, 2021
Cultura de|vida | Parceria com a Associação In familia

 


 

Com esta reflexão, a Associação In Familia dá início a uma série de publicações, na defesa da cultura da vida, com a colaboração dos seus amigos e associados, numa altura em que algumas forças políticas insistem na tentativa de legalizar a morte a pedido. Vivemos numa difícil circunstância pandémica, a qual requer todos os esforços para defendermos a vida humana e este é que devia, naturalmente, ser o foco de todas as forças políticas e sociais.

Os últimos anos da vida política, social e familiar, foram marcados por várias iniciativas fraturantes, que têm o claro objetivo de alterar o nosso paradigma civilizacional. Tais iniciativas, partem da reivindicação de supostos direitos individuais, baseados na pseudo supremacia de um novo indivíduo de categoria quase divina, e assentam em  falsos conceitos de dignidade, de liberdade e de autonomia pessoal. Além disso, o discurso utilizado, recorrendo a apurados eufemismos, vai granjeando incautos adeptos; uns, por clara desinformação e outros porque vêem nessa linha de pensamento um filão de eventuais eleitores. Foi assim com a questão do aborto e é assim com a questão da eutanásia.

Uitlizando expressões como “morte digna”, apregoa-se o direito à eutanásia ou ao suicídio assistido. Ora, como muito bem refere Vicenzo Paglia, «a morte digna não é a que encurta a vida». Ajudar a uma morte digna é deixar viver e acompanhar quem está a passar pelos últimos momentos da sua existência, apertando-lhe a mão, mostrando-lhe afeto, acariciando-o e sem o deixar só. A dignidade é estar uns ao lado dos outros, querendo-nos bem, perdoando-nos, quando há problemas. A dignidade manifesta-se na fraternidade humana, no acompanhamento pessoal e afetivo, para que os últimos tempos da nossa vida terrena não sejam momentos de dor nem de abandono, mas tempos em que a dor possa ser, inclusivamente, derrotada ou minimizada.

As súplicas dos doentes graves e deprimidos que pedem a morte são, na maioria dos casos, pedidos de ajuda, pedidos de afeto. Todos os dias os médicos e os enfermeiros escutam estas palavras de desespero, e todos os dias respondem com palavras de ânimo e de conforto. Esta é a luta diária daqueles que prestam cuidados de saúde; a luta contra a doença e o sofrimento, preservando a vida. A morte não deve ser abreviada, mas antes humanizada, garantindo-se os cuidados de saúde necessários, nomeadamente, o alívio do sofrimento através dos cuidados paliativos.

Todos sabemos que a etapa final da vida não é constituída propriamente pela perfeição biológica, pelo contrário. É natural que os idosos e os doentes necessitem de cuidados dos familiares e das estruturas competentes no âmbito médico e social. Não obstante, é dever de todos cuidar deles, para que jamais se sintam sós e abandonados, caindo, assim, na falta de esperança. Uma coisa seria, esgotadas as hipóteses de cura e para não cair na obstinação terapêutica, a família, em articulação com os médicos, decidir desligar a máquina que suporta uma vida inviável; outra coisa seria uma pessoa escolher a morte no cardápio do hospital, numa decisão desesperada, na expressão de Henrique Raposo. Um acamado que pede para morrer já não é um homem dotado de livre arbítrio, é apenas um homem reduzido à condição de animal acossado pela biologia. O nosso dever é evitar essa queda na condição animal. De facto, uma pessoa muito idosa, um doente terminal, ou em grande sofrimento, é alguém cuja razão e vontade estão necessariamente toldadas pela idade ou pela sua dramática situação.

Por este motivo, é pouco razoável invocar o direito à liberdade individual, para justificar a eutanásia ou o suicídio assistido. Por outro lado, ninguém é senhor absoluto de si, pois ninguém vive para si mesmo, e quando alguém morre não morre apenas para si mesmo. Ninguém vive sem deixar rasto!

Urge, pois, recuperar o melhor da nossa civilização: durante séculos, inúmeras famílias, organizações e comunidades cuidaram dos mais vulneráveis e continuam a fazê-lo. Por isso, todos sabemos, de alguma forma, o que significa acompanhar de perto e cuidar dos que enfrentam situações de sofrimento físico ou psicológico. Precisamos, porém, enquanto sociedade, de robustecer a capacidade de atendimento e acolhimento aos mais débeis, no que diz respeito a recursos humanos, físicos e estruturais, a fim de cumprirmos a nobre missão de respeitar incondicionalmente a vida humana e proteger os mais vulneráveis.

Incurável não significa incuidável!

E… cuidar é amar!


Imagem de Gerd Altmann por Pixabay