Sex. Dez 3rd, 2021
Modos de interação entre ciência e religião

Perspectivas


Oitava Perspectiva: Extática

Miguel Oliveira Panão

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Uma flor tem de se abrir para mostrar ao mundo a sua beleza. Se uma ideia não sair de nós por palavras ou gestos, permanece escondida na inexistência. Por vezes, sentimos uma felicidade tremenda em dar um pouco de nós aos outros que ficamos fora de nós. E embora essa saída de nós mesmos possa levar-nos a uma certa alienação daquilo que está à nossa volta, quando saímos por darmos um pouco do nosso tempo, atenção, coração ou mãos, isto é, quando saímos de nós no dom-de-nós-mesmos, vivemos um amor-ágape. Um amor que nos dá uma perspectiva extática sobre tudo e todos os que estão à nossa volta. Um sair de nós para nos reencontrarmos naquilo ou naqueles a quem damos um pouco de nós.

Uma consciência que vive para si mesma, isolada dos outros e do mundo em torno de si, a um dado momento, creio que comece a duvidar da sua própria existência. E mesmo as pessoas que se isolam de outras pessoas, como os eremitas, encontram nos espaços naturais onde habitam, e nos ritmos da natureza que os circunda, a fonte de relacionamentos que lhes permite sair de si mesmos. É impossível extrair os relacionamentos da nossa existência sem perder o sentido da mesma nesse processo. Somos relação e feitos para a relação. E toda a relação pressupõe actos de doação recíproca, actos — por assim dizer — de amor, se entendermos amar como dar-se-a-si-mesmo.

É difícil entender a perspectiva extática porque o sentido que damos aos momentos de êxtase estão demasiado influenciados pela cinematografia dos que consomem estupefacientes para se alienar do mundo que os rodeia. Não sei por que razão a cultura associou a êxtase somente a essa atitude quando, na realidade, essas pessoas não vivem fora de si, mas para-si-mesmos. E o que distingue ambas é que, viver fora de nós mesmos, não acontece escamoteando a dor que experimentamos na pele, nem exclui a dor que vive o outro que é o nosso próximo. Pois, os que vivem para-si-mesmos, vivem desligados, desconectados. Logo, vivem?

O maior acto de doação e, por isso, o maior acto de amor, é aquele de quem dá a sua vida pelos outros e pelo mundo à sua volta. E o maior exemplo disso é Jesus. A perspectiva extática revela-se no momento de maior dor de Jesus ao sentir o abandono do Pai na cruz. Esse momento insólito da história do cristianismo encontra uma semelhança tremenda com as dores de parto que antecedem a alegria sem palavras que sentimos diante de uma nova vida. A vida que nasce da dor é o sinal último da perspectiva extática de quem vive, permanentemente, no amor como dom-de-si. Por isso, o abandono do Pai não é mais um momento histórico, mas o rosto que contemplamos em cada situação de dor e divisão no mundo actual, e que nos ensina a amar na adversidade para reencontrar o sentido da existência. Uma existência aberta, ou seja, extática.

Se procurarmos pela perspectiva extática no manancial de informação que a rede nos dá acesso, encontramos todo e qualquer tipo de ligações à biologia, e à dita noção cinematográfica de êxtase com traços psicóticos completamente diferentes do sentido com que partilho um olhar sobre esta perspectiva. Senti na pesquisa que fiz uma amálgama de conceitos que misturam a fisiologia com a filosofia e uma pitada de teologia. Daí que não seja uma perspectiva fácil de abordar. Mas quando focamos essa perspectiva num determinado movimento, percebemos o seu elevado grau de profundidade e o enorme impacte que pode produzir na visão que temos de nós, dos outros, do mundo, uma vez que a centramos na relacionalidade presente no cosmos. Esse movimento é na direcção da comunhão.

Penso que não será difícil imaginar o que sentimos quando estamos com uma pessoa aberta e que nos acolhe tal como somos. Isto é, quando vivemos com essa pessoa momentos de mútua íntima imanência, ou seja, momentos de comunhão. Como diz John Zizioulas, «a ek-stasis do ser, isto é, um movimento em direcção da comunhão (…) leva-nos a transcender as fronteiras do “eu” e, por isso, leva-nos à liberdade. (…) Ao mesmo tempo, (…) a pessoa no seu carácter extático revela o seu ser de um modo católico, isto é, integral e indiviso» (Communion and Otherness, p. 213). Deste modo, o resultado final desta perspectiva extática acaba por ser uma experiência de totalidade que extravasa os reducionismos gerados pelos modos limitados de ver, abrindo-nos a um futuro de esperança em relação ao quanto mais somos chamados a ser.


 

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Imagem de Enrique Meseguer por Pixabay