Dom. Set 19th, 2021
‘Duas Asas’ – rubrica dedicada ao pensamento e escritos de Edith Stein
(Parceria com o Carmelo de Cristo Redentor – Aveiro)

A ESPIRITUALIDADE LITÚRGICA

Javier Sancho*

A Liturgia para Edite Stein não foi uma realidade estranha acrescentada à sua fé. Nela era uma autêntica unidade. A liturgia era celebração da sua fé, e a sua fé alimentava-se nas fontes da liturgia. O sentido de memorial da liturgia já o tinha vivido no judaísmo, especialmente durante a sua infância, através da celebração da páscoa judaica, que unia um riquíssimo ritual, celebrado em família, alimentos, salmos, gestos e leituras bíblicas.

Convertida ao cristianismo, inclusive antes de receber o baptismo, já tinha comprado um ritual para poder compreender cada gesto da liturgia católica. A reza do breviário acompanhá-la-á sempre no seu caminho como cristã. Nos seus escritos há abundantes vestígios do seu amor à liturgia, e do sentido teológico e espiritual que nela descobre. Centraremos a nossa atenção em três elementos:

– o sentido da liturgia

– a celebração da liturgia

– a liturgia e a vida

a) O sentido da liturgia

Convém sublinhar novamente a grande unidade e continuidade que Edite vê entre a liturgia e a oração.  Para ela só existe uma «oração da Igreja», aquela que se inspira em Cristo e é vivida e realizada no Espírito. Não obstante, agora examinamos só o que normalmente se compreende como «liturgia».

A liturgia consiste em render «honra e glória à Trindade». E embora nas orações nos dirigimos normalmente ao Pai, «não há glorificação do Pai que não seja ao mesmo tempo glorificação do Filho e do Espírito Santo. Canta-se a glória que o Pai participa ao Filho e ambos ao Espírito Santo por toda a eternidade» (OC V, 108). Mais ainda, a celebração da missa exprime claramente esta realidade de culto à Trindade. Eis um dos conteúdos centrais da liturgia: prestar culto a Deus. É o ponto comum de enlace com toda a tradição litúrgica do povo de Israel. Com Cristo o conteúdo é sumamente enriquecido: «Na Nova Aliança o ser humano… procura conhecê-lo cada vez mais de perto por meio da meditação da sua vida e da reflexão sobre as suas palavras; anela a mais íntima união com Ele na Eucaristia, e participa na sua permanência mística mediante a vivência do ano litúrgico e da liturgia eclesial (OC IV, 288).

A liturgia cristã revela o seu carácter de novidade na pessoa de Cristo. Só n’Ele, por Ele e com Ele é possível um culto agradável a Deus. Nisto se fundamenta o sacerdócio universal dos crentes que, como membros de Cristo, podem oferecer culto e louvor a Deus Pai em união com o Filho. Toda a liturgia da Igreja fundamenta-se em Cristo. Ele é o exemplo da vivência litúrgica: «A oração da Igreja é a oração de Cristo vivo. Tem o seu modelo original na oração de Cristo durante a sua vida terrena» (OC V, 109). Jesus durante a sua vida participou activamente da liturgia oficial do povo. Mas soube enriquecê-la, restaurando o seu sentido original: «na acção de graças da criação ao Criador» (OC V, 113).

Na liturgia Cristo torna o homem participante da sua própria vida divina. A liturgia é a oração da Igreja na qual Cristo continua a orar, de tal maneira que quem ora com a Igreja acaba por ser apanhado na vida de Cristo. Edite propugna pela recuperação e vivência do sentido mistagógico da liturgia dos primeiros cristãos: «Permite-nos viver a sua vida, especialmente quando nos unimos à Liturgia. Nela revivemos a sua vida, sofrimento, morte, ressurreição, ascensão, o nascer e o crescer da sua Igreja» (OC IV, 155).

A liturgia é, também, sacramento da união entre todos os crentes em Cristo, entre a Igreja celeste e terrena (OC V, 112).

b) Celebração da liturgia

Toda a liturgia da Igreja forma um círculo que anda à volta da pessoa de cristo. Edite Stein descobre na «ceia do Senhor» a chave para compreender todo o arco da liturgia eclesial. Na «última ceia» começa a vida da Igreja, o Novo Testamento construído com pedras vivas, e ali fica plasmado o sentido da sua oração como sacrifício de louvor, acção de graças e glorificação da Trindade (cf. OC V, 109 ss.).

A atenção de Edite Stein dirige-se para as duas formas mais importantes da oração da Igreja: o ofício divino e a celebração da Eucaristia, que constituem o centro perante o qual se polarizam as outras celebrações. Sobre o valor e a importância da Eucaristia ocupamo-nos noutro tema no qual apresentamos a importância que a «vida eucarística» tem para Edite Stein.

Sobre a Liturgia das Horas acentua sobretudo o valor de «comunhão com a vida da Igreja (cf. Obras 282). A reza do Ofício manifesta a grande vocação do povo de Deus: cantar o louvor de Deus. Por isso, considera que o fiel cristão há-de ser introduzido e convidado a participar de tal acto de culto, porque se constitui, além disso, como uma das fontes da graça divina. A participação consciente na sua oração é expressão da acção de graças devida a Deus e conduz ao reconhecimento das suas maravilhas (cf. OC V, 112).

Ao sentido do louvor divino unem-se a adoração e a súplica pela redenção, como partes integrantes na oração litúrgica. Para Edite Stein a chave autêntica da súplica orante da oração das horas nasce de uma leitura e interpretação cristológica. Adquirem em Cristo um sentido totalmente novo: «Os salmos, enquanto vozes saídas do profundo, exprimem a súplica da redenção…» (Ct 1145).

Esta realidade aprecia-se com maior nitidez se contemplamos a liturgia no contexto do Ano litúrgico. Juntamente com a função catequético-pedagógica, de introduzir e guiar nos mistérios da salvação, Edite sublinha a inserção (cf. OC IV, 243). Penetrar no mistério da salvação significa percorrer o caminho de Cristo, realizador da mesma salvação. Mas o aspecto mais importante não radica na celebração ou na comemoração dos mistérios da nossa fé, mas em que estes mistérios se imprimam no crente na medida em que a sua participação se torna activa e consciente (cf. ib.). Dentro do ano litúrgico têm especial interesse alguns tempos fortes, ordenados em torno aos mistérios centrais da fé (cf. Temas 200 ss.).

c) Liturgia e vida

Para Edite Stein não existe contraposição entre liturgia e vida. A liturgia é autêntica na medida em que se transforma em vida, e a vida cristã cresce na medida em que se alimenta da liturgia. O viver cristão é um «viver litúrgico». A liturgia transforma-se em vida no momento em que esta se realiza como encontro com o mistério de Cristo, com a história da salvação e com a Igreja inteira.

Na liturgia o crente vai cristificando-se através do encontro com os mistérios de Cristo (cf. OC IV, 243). O encontro com o mistério divino através da liturgia provoca no crente uma atitude de entrega e oblação. A oração e o trabalho transformam-se numa única liturgia (OC V, 112).

A liturgia há-de desembocar necessariamente na vida para cumprir a sua missão e desenvolver o seu sentido pleno. A «oração da Igreja» prolonga-se com o «envio». O que é celebrado torna-se apostolado. E a realização plena da liturgia na vida realiza-se quando somos capazes de transmitir a vida divina presente no nosso interior de crentes. Edite Stein convida continuamente a fazer esta experiência do mistério na liturgia, para se configurar com ela e poder levá-la à vida de cada dia. Deste modo, a vida cristã transforma-se em vida litúrgica (cf. OC IV, 253-254).

*Javier Sancho. 100 Fichas sobre Edith Stein. Edições Carmelo, Avessadas, 2008. Pp. 203-205.


Imagem de Fr. Romain Marie Bancillon por Pixabay