Sex. Dez 3rd, 2021
Modos de interação entre ciência e religião

Oitavo Ponto: ~ Contradição

Miguel Oliveira Panão

Blog & Autor

 

Estava no 11ºano numa aula de físico-química quando ouvi falar pela primeira vez da dualidade onda-partícula. Um fotão podia libertar um electrão e dar origem a uma corrente eléctrica através daquilo que Einstein designou por efeito fotoeléctrico. Mas se fizesse incidir um feixe de fotões numa abertura em forma de ranhura, veria um padrão equivalente à interacção entre ondas. Porém, uma onda não é uma partícula, assim como uma partícula não é uma onda. Como pode o fotão entrar em contradição com a realidade sendo ambas?

Sossegado a ler um livro do filósofo italiano Guiseppe Zanghí, cruzei-me com a seguinte ideia,

«os gregos não conheciam o Zero, qual nada-que-é, e que permitiu o desenvolvimento da matemática e das ciências modernas.» (G. Zanghí, Gesù abbandonato maetro di pensiero, Cittá Nuova, 2008)

De facto, foi colocar o zero como condição inicial nas equações de Einstein que levou o físico sacerdote George Lemaître ao que viria a ser mais conhecida pela teoria do Big Bang. Mas, realmente, o que é o zero senão um não-é-que-é? Mais uma contradição? Ou nem por isso?

A perspectiva transdisciplinar leva-nos a uma unidade do conhecimento. Essa não é possível se existirem contradições. Logo, o modo de as resolver é o que acontece com o fotão e com o zero. Há um terceiro incluído que a um nível diferente de interpretação da realidade permite resolver qualquer contradição.

No caso do fotão foi a noção de quantum, pertencente ao nível descontínuo da matéria, que permitiu perceber a aparente contradição contida na dualidade onda-partícula entendida ao nível contínuo da matéria. E no caso do zero, é o próprio zero que expressa, simbolicamente, como existe, matematicamente, a possibilidade de algo não ser, sendo.

Em última instância – e esta é uma afirmação forte-, não há contradições no mundo. Basta encontrar o terceiro incluído a um nível diferente de interpretação da realidade para resolver toda e qualquer contradição. Por esse motivo, a unidade do conhecimento não é um sonho, mas um ponto alcansável neste diálogo entre fé e ciência. E uma contradição é o “Realímetro” que nos indica o quanto há ainda por conhecer e aprofundar a Realidade.

Imagem de  Yann Allegre on Unsplash