Sex. Dez 3rd, 2021
Modos de interação entre ciência e religião

Sétimo Ponto: X

Miguel Oliveira Panão

Blog & Autor

Se alguém se voltar para nós e disser – «estou a minar.» – que realidade vive? Depende. Não temos informação suficiente porque, se acrescentar bitcoins percebemos ser um informático, mas se acrescentar pirite percebemos ser um mineiro no sentido mais clássico do termo. A noção que temos de realidade é um ponto fundamental no diálogo entre ciência e fé e a abordagem que me parece aproximar-nos mais de uma noção mais próxima da realidade é a transdisciplinar.

A transdisciplinaridade, termo introduzido por Jean Piaget em 1970, nada tem a ver com o transcendente, mas com o que está entre, através e para além das diferentes disciplinas. Diz o físico Basarab Nicolescu em “Nós, a partícula e o universo” que a finalidade da transdisciplinaridade é «a compreensão do mundo presente, onde um dos imperativos é a unidade do conhecimento.»

Em rigor, ninguém sabe bem o que é a Realidade. Contudo, o ser humano enceta num caminho de conhecimento da Realidade para delinear interiormente uma visão do mundo que, depois, se manifesta exteriormente através da cultura. Conhecimento e Visão. Mas devido à nuvem do desconhecido que nos separa da Realidade, apercebemo-nos de que essa possui diversos níveis.

Ao conhecimento da Realidade estão associados diferentes níveis de interpretação e entre os diversos níveis circulam fluxos de informação. À visão da Realidade estão associados diferentes níveis de percepção e entre os diversos níveis circulam fluxos de consciência. Enquanto o conhecimento é uma experiência ad extra da Realidade, a visão é uma experiência ad intra. O esquema abaixo traduz esta dinâmica transdisciplinar.

Haveria muito por explorar sobre esta abordagem, mas neste ponto foco-me no X. Esse é cada um de nós como seres objectivos, mas, também, subjectivos, havendo uma interacção entre ser sujeito e objecto de estudo. Em X, o sujeito não se “objectifica”, nem o objecto se “subjectifica”, mas existe uma interacção entre o objecto que traduz a exterioridade, com o sujeito, que traduz a interioridade. Uma unidade indivisa sem confusão.

No fundo, X traduz que nada neste mundo pode ser tido como isolado, mas em relação. Daí que nesta abordagem transdisciplinar, pela unidade do conhecimento, não haja espaço para a contradição. Algo que fica para um próximo ponto.

Imagem de Woody wood por Pixabay