Dom. Out 17th, 2021

Intelligo quia credo | Variações sobre a fé cristã…

(Parceria com Ecos da Ria – rubrica mensal)

Luís Manuel Pereira da Silva

 

Domingo após domingo, os cristãos professam ‘credo in unum Deum’.

Víamos, em anteriores reflexões, que a formulação ‘in unum Deum’ repercute a ideia de uma adesão que é mais do que assentimento intelectual, mas caminho em direção a Deus, orientação do coração para a realidade fundante de toda a existência.

Importa, agora, refletir sobre a natureza própria d’Aquele «unum Deum» a Quem adere o coração que se abre à fé.

Para tal, socorramo-nos do que nos vão dizendo os melhores de entre os melhores teólogos.

Tomemos por referência, para a nossa reflexão, duas ideias estruturantes.

Porque o homem é imagem de Deus, o que dizemos de Deus repercute-se no que entenderemos ser o Homem

A primeira recolhemo-la de Romano Guardini (1885-1968), um dos grandes teólogos do século XX, de ascendência e nascimento italianos, mas cujo percurso teológico desenvolveu na Alemanha, tendo sido, inclusive, perseguido e silenciado pelo regime nazi. Este teólogo escolhe, para título de uma das suas luminosas obras, a seguinte afirmação ‘quem sabe de Deus conhece o homem’. Tal decorre de uma noção estruturante (uma espécie de axioma teológico): o homem é ser criado à imagem de Deus, pelo que o que soubermos de Deus repercutir-se-á no entendimento sobre o próprio Homem.

Da presença de Deus na história chegamos à própria natureza de Deus

A esta primeira ideia associemos uma segunda, desta feita, recolhida de Karl Rahner (1904-1984), também teólogo do contexto alemão, que nos diz que chegamos ao conhecimento da natureza de Deus a partir do que o próprio Deus revela de si. De modo ‘técnico’, Rahner diz que se chega à ‘Trindade imanente’ (quem é Deus em si mesmo) a partir da ‘Trindade económica’ (quem é Deus para a humanidade, isto é, no seu processo de revelar-se – a palavra ‘economia’, no contexto teológico, tem este significado: ‘desenvolve-se no contexto histórico, nas circunstâncias próprias da história’).

 Dizendo de modo mais simples: sabemos de Deus aquilo que Deus revelou de Si mesmo, através de palavras e acontecimentos em que se manifestou a Sua própria ação e, por ela, podemos chegar ao que é o mesmo Deus.

Ora, conjugando estas duas ideias – a de que a revelação de Deus ocorre a partir do modo como Deus se mostra e a de que o que se disser de Deus se repercute no que se deverá pensar sobre o Homem – é possível constatar, desde já, que a conceção de Deus proposta pelo cristianismo é algo estruturante para toda a restante reflexão cristã e, com ela, para a compreensão sobre o Homem, o mundo, as suas relações e o seu próprio fim.

Mas perguntemo-nos, então, como se revela Deus, quem diz Deus que é.

Tenhamos consciência, desde já, de que a reflexão bíblica não é teoria, não é abstração; parte da experiência. Assim foi com a revelação de Deus como sendo Criador. O povo hebreu toma consciência da natureza criadora de Deus a partir da sua experiência de Deus que liberta. Aquele que liberta do mal histórico é, também, Aquele que liberta da inexistência, do nada de não existir.

Do mesmo modo, e num processo contínuo e coerente, o novo testamento é caminho que parte da experiência de Deus que se apresenta, simultaneamente, como fonte inacessível e palavra que se revela, origem e força que queima por dentro, presença verbalizada e ‘ausência’ que seduz e conduz. É na diversidade da revelação que o povo cristão desvenda o revelar-se de Deus que se define, no dizer de S. João (1 Jo 4,8), como amor. Repare-se que a expressão utilizada por S. João não é ‘Deus tem amor’. Em grego, ‘João afirma «o theós agápê estín | o qeos agaph estin » (Deus é amor).

Deus define-se, no entender de S. João (de acordo com a interpretação de Ricardo de S. Victor [ca. 1110-1173] que aqui seguimos), como relação, o que contraria a lógica que toda a história da filosofia teve (e continua a sustentar). Na verdade, na tabela das categorias de Aristóteles, a relação era considerada um acidente, isto é, não definia a essência de algo; era-lhe acrescentada.

Quem sabe da natureza trinitária de Deus sabe o que realiza a humanidade

A conceção trinitária de Deus introduz essa novidade que é extremamente fecunda e que, como temos vindo a defender em diversos contextos de reflexão, está na origem de uma das maiores dívidas da humanidade ao cristianismo: a ideia de que a relação define a própria condição humana, a condição de pessoa, conceito fundamental para se compreender quem é Deus e, por isso, também, quem é o Homem.

Na verdade, ao afirmar que «credo in unum Deum» que é «Pai todo-poderoso», que é «Unum dominum Iesum Christum» e «Spiritum Sanctum», rejeitando-se qualquer possibilidade de triteísmo, só restava ao cristianismo sustentar que a relação era definidora da própria natureza das coisas porque essa era a sua marca desde a sua criação, na medida em que a relação faz parte dAquele que é a sua fonte. A ideia de pessoa é isso que, no fundamental, afirma. Muito mais do que a individuação, a ideia de pessoa vinca a relação como condição de possibilidade do próprio existir. Existe-se em relação, na relação e da relação. É por isso que de Deus podemos afirmar que é três pessoas, mas não três ‘indivíduos’.

Como temos vindo a sustentar, com outra terminologia, poderemos afirmar que para haver relação impõem-se duas condições, simultaneamente presentes em Deus: a identidade e a alteridade. Só é possível relação se estas duas condições se verificarem.

Se não houver alteridade, não há relação por excesso de coincidência; se não houver identidade, não haverá relação por excesso de ‘distância’.

A Trindade não será, então, à luz deste conjunto de constatações, um mistério incompreensível e inacessível, mas sim, como defende a teologia contemporânea, uma realidade que ilumina as restantes realidades (assim deve entender-se o que seja ‘mistério’, na perspetiva cristã), torna-se uma realidade que, pela densidade do seu significado, podemos vislumbrar, mas sempre escapando-nos a toda a delimitação definitiva. Mistério diz de algo que é tão profundo na sua significação que tateamos a sua natureza mas muito continua a esquivar-se ao nosso domínio.

Diante destas noções, não poderemos senão concluir da natureza intrinsecamente relacional da condição humana que podemos conhecer ao sabermos quem é Deus.

E se Deus é amor, que outra coisa poderá realizar o que é ser Homem senão amar?

(Aos leitores interessados, deixamos a seguinte sugestão de leitura: Alexandre Palma – A Trindade é um mistério. Mas podemos falar disso. Prior Velho: Paulinas Editora, 2014.)


Imagem: Os três anjos que visitaram Abraão, como símbolo da Trindade. (Gn 18) Ícone ortodoxo por Andrei Rublev