Oratório Peregrino

Um oratório à maneira de um viático para tempos de carestia
Uma proposta desenvolvida em parceria com

Irmãs do Carmelo de Cristo Redentor – Aveiro


XXIV Passo | Oh meu Deus e minha Sabedoria infinita

Esta oração é uma oração que brota da alma contemplativa de Santa Teresa. Uma contemplativa presa ao presente mas fixa na presença de Deus. Batida pelo contraste de sentimentos extremos: amar ou deixar-se amar; desejar ou não desejar; querer por conta própria ou abandonar-se ao querer de Deus…

A Oração começa em atitude contemplativa: «Ó Deus, Sabedoria infinita!» «Amor que me amas mais do que eu me posso amar». Como se tornam mesquinhos, equívocos e contingentes, vistos sob este prisma de amor e saber infinitos, todos os meus quereres e desejos, minhas iniciativas e palavras, mesmo as que te dirijo na oração e tratam de Te impor as minhas suplicas…

Que a oração de Teresa nos faça entrar dentro de nós mesmos e encontrar-nos com a Verdade de Deus e a nossa verdade, para alcançarmos a verdadeira liberdade.

«Oh meu Deus e minha Sabedoria infinita, sem medida e sem limites acima de todos os limites! Oh Amor, que me amas mais do que eu me posso amar a mim! Não entendo! Para que quero eu, Senhor, desejar mais do que aquilo que Vós me quiserdes dar? Para que quero eu cansar-me em pedir-Vos uma coisa ordenada pelo meu desejo, se tudo quanto o meu entendimento pode concertar, já Vós conheceis os seus fins, e eu não sei que proveito tirar? Talvez naquilo em que a minha alma pensa lucrar, estará a minha perda. Porque, se Vos peço que me livreis de um trabalho e o fim dele é a minha mortificação, o que é que Vos estou a pedir meu Deus? Se Vos peço que mo envieis, talvez não convenha à minha paciência, por estar ainda fraca e não poder aguentar tão grande golpe; e se o ultrapasso com paciência, mas não estou forte na humildade, talvez pense que fiz alguma coisa, quando sois vós meu Deus que tudo fazeis.

Meu Deus não quero confiar mais em coisa alguma que eu possa desejar para mim. Querei de mim o que Vos aprouver querer; é isso o que eu quero, porque todo o meu bem está em contentar-Vos. E se Vós meu Deus me quisésseis contentar a mim, fazendo tudo quanto pede o meu desejo, vejo que estaria perdida.

Através da Vossa providência, Senhor, provede a minha dos meios necessários para que Vos sirva mais ao Vosso gosto. Não me castigueis com dar-me o que eu quero e desejo se o Vosso amor não o desejar para mim. Morra já este eu, e viva em mim Outro que é mais do que eu, e para mim melhor do que eu mesma, para que eu O possa servir. Que Ele viva e me dê vida. Que Ele reine e eu seja Sua prisioneira, pois a minha alma não quer outra liberdade. Como será livre quem estiver afastado do Sumo Bem? Que maior cativeiro do que estar a alma solta da mão do seu Criador?

Oh, quando virá o ditoso dia em que te hás-de ver submergido naquele mar infinito da Suma Verdade, onde já não será livre para pecar, nem o quererás ser, porque estarás livre de toda a miséria e naturalizado com a vida do Teu Deus. Ele é bem-aventurado, porque conhece-se, ama e goza de Si mesmo sem que outra coisa lhe seja possível; não tem, nem pode ter, nem seria perfeição de Deus poder ter liberdade para Se esquecer de Si e deixar-se de amar. Então, minha alma entrarás no teu descanso, quando te entranhares neste Sumo Bem, e entenderás o que Ele entende, e amarás o que Ele ama e gozarás o que Ele goza. Assim que vires perdida a tua mutável vontade, já não haverá mais mudança, porque a graça de Deus foi tão poderosa que te fez participante da Sua divina natureza; e com tanta perfeição que já não possas, nem desejes poder, esquecer-te do Sumo Bem, nem deixar de O gozar juntamente com o Seu amor.

Bem-Aventurados os que estão inscritos no livro desta Vida! Antes quero viver e morrer a desejar e esperar a vida eterna, do que possuir todas as criaturas e todos os seus bens, que hão-de acabar. Não me desampareis, Senhor, porque espero em Vós; que a minha esperança não seja confundida; que eu Vos sirva sempre e fazei de mim o que quiserdes.»

Santa Teresa de Jesus


Imagem de Gerd Altmann por Pixabay