Dom. Jun 13th, 2021
‘Duas Asas’ – rubrica dedicada ao pensamento e escritos de Edith Stein
(Parceria com o Carmelo de Cristo Redentor – Aveiro)

Edith Stein Carmelita

Javier Sancho*

 

1. Profissão simples

Terminado o ano canónico do noviciado e depois da votação da comunidade, a Ir. Teresa Benedita é admitida à profissão simples dos votos por um período de três anos. Fixou-se a data de tal acontecimento no dia 21 de Abril de 1935, domingo de Ressurreição. Como preparação faz uns dias de retiro em silêncio, escolhendo novamente a São João da Cruz como mestre e guia. Nesta ocasião escolhe a Noite Escura.

Com este novo passo Edite é já carmelita descalça. No entanto, tal e como estabelecem as normas, deve permanecer ainda no noviciado até chegar o momento, depois de três anos, de emitir os votos perpétuos.

Já indicámos que, quando Edite entrou no Carmelo de Colónia, se pensava que daqui passaria a formar parte de uma nova fundação na Silésia. Porém, a realidade impôs-se e não se pôde chegar a realizar o traslado. Foram duas as causas: porque ali não poderia dedicar-se ao trabalho intelectual, e pelo crescente anti-semitismo que em Breslau se tornava muito mais forte.

A partir de 1937 vê-se já liberta da pressão de um trabalho científico continuado e pode comprometer-se com outros ofícios de serviço comunitário. Vai oferecer-se para desempenhar o ofício de enfermeira. Desde Setembro está à disposição da Irmã Clara, uma irmã leiga que tem câncer de fígado. A sua dedicação à doente foi admirada e reconhecida pelas suas irmãs.

A partir de Dezembro de 1937 encomendam-lhe um novo serviço comunitário, o de rodeira. Um serviço de grande responsabilidade dentro do convento, que exige grande discrição, porque é a mediadora entre a clausura e o mundo exterior.

Dedica-se também a ensinar latim a algumas noviças: assim poderão entender melhor o Breviário que se recitava ainda em latim. Neste dinâmica, se deve entender o esforço de Edite por traduzir diversos hinos e salmos, para ajudar as suas irmãs a penetrar no sentido da liturgia.

Todos estes anos vão ficar profundamente marcados pela situação histórica e pelo sentido vocacional da sua vida. O crescente anti-semitismo não lhe é indiferente. Entrou no convento para interceder e oferecer a sua vida pelos seus. É o dinamismo espiritual que se constata desde o primeiro momento. Por ser um elemento chave vê-lo-emos numa ficha posterior.

O seguinte texto, escrito pela própria Edite, oferece-nos uma visão de conjunto do valor de tudo o sublinhado: “Para as carmelitas, nas suas condições de vida quotidiana, não existe outra possibilidade de responder ao amor de Deus senão cumprindo as suas obrigações diárias, até as mais pequenas, com fidelidade; como um pequeno sacrifício, que exige de um espírito vital a estruturação dos dias e de toda a vida, até nos seus mais pequenos pormenores, e isto levado com alegria no dia a dia e ano após ano; apresentando ao Senhor todas as renúncias que a convivência constante com pessoas totalmente distintas exige, com um sorriso de amor; não deixando escapar nenhuma ocasião de servir os outros com amor. A tudo isto há que acrescentar, finalmente, o que o Senhor pede a cada alma como sacrifício pessoal” (OC V, 564 ss).

2. O estilo de vida

Muitos são os elementos que caracterizam o ritmo de vida da carmelita. Alguns deles já ficaram patentes, principalmente as actividades que ocupam a tarefa da vida de Edite. Centramo-nos agora noutros aspectos que caracterizam a sua vida.

Juntamente com a oração, o recreio é um dos elementos mais característicos e originais do Carmelo Teresiano. Para santa Teresa as horas de recreio, nas quais todas as irmãs se encontram num espírito fraterno e jovial, são fundamentais para criar uma vida humana de harmonia entre as suas monjas. Edite soube acolher isto admiravelmente apesar da diferença de idade entre ela e as suas companheiras de noviciado. Naquele tempo, as noviças e as professas simples tinham o recreio separadas do resto da comunidade.

O “recreio teresiano” inclui duas horas diárias de recreio e momentos de maior alegria festiva por diversos motivos: as grandes solenidades, os onomásticos da superiora e da mestra, as tomadas de hábito, as profissões… Os recreios diários são encontros nos quais se partilham notícias, as coisas de cada dia… enquanto se realizam trabalhos manuais. Edite, enquanto esteve ocupada na sua obra Ser finito e ser eterno, não participou nos recreios da noite. Os recreios nos dias indicados são mais intensamente vividos e, em muitos casos, preparados com dias de antecipação.

Ela soube entrar com alegria na participação e preparação destas festas nas quais colaborou directamente em várias ocasiões, compondo ela mesma poesias para cantar e alguma peça teatral (cf. OC V).

Outro costume muito presente na vida carmelita era o capítulo de culpas. A comunidade reunia-se toda para corrigir as faltas observadas nas irmãs. A atitude da irmã Benedita foi sempre a de se reconhecer humildemente pecadora e a de nunca se justificar (cf. Positio 26).

A prática da “disciplina” estava também presente no Carmelo de Colónia. Eram momentos nos quais as irmãs se auto mortificavam fisicamente, açoitando as costas com a “disciplina”, uma espécie de pequeno látego. Certamente que Edite foi sempre muito austera e amante da ascese e da penitência, embora a sua visão vá mais na linha de uma sã educação da vontade. Não obstante, assume essa e outras tradições, em virtude do essencial: “Estou convencida de que a Serva de Deus sofreu muito pelo modo como se dava a disciplina amiúde no Carmelo. É certo que não falava do tema mas notava-se na expressão do seu rosto. A disciplina fazia-se em comum no coro, diante do Santíssimo” (ib. 65).

Certamente que Edite teria mudado muitas coisas no seu convento, e não por comodidade, mas por convicção. Inúmeros gestos mostram a sua tendência para uma actualização e modernização da vida do Carmelo: estudar bem o latim para entrar melhor no espírito da liturgia, uma educação mais de acordo com os sinais dos tempos, uma melhor preparação das monjas, tanto no campo cultural, teológico e espiritual. É nos seus escritos onde descobrimos uma percepção clara das mudanças que ela teria introduzido, mas que não chegaram ao Carmelo e à Igreja senão com o Concílio Vaticano II. Não obstante, nunca se observa nela nenhum tipo de insatisfação ou crise diante destas situações. Para Edite Stein havia uma clara escala de valores que favoreceram em todo o momento a sua integração: a oração, a intercessão e a sua caridade constante às irmãs.

*Javier Sancho. 100 Fichas sobre Edith Stein. Edições Carmelo, Avessadas, 2008. Pp. 66-67.

Imagem de beate bachmann por Pixabay