GLOSAS – Espaço de comentário a obras que interpelam o tempo presente
Glosas a Brève apologie pour un moment catholique
– L’utilité de la communion –
(pp. 83-119)
(Cont.)
[Primeiro texto: aqui.]
Tiago Azevedo Ramalho
– 21. Valores, vontade, poder. – Transitamos para o terceiro e último capítulo da obra, capítulo que se intitula L’utilité de la communion, «A utilidade da comunhão». Ao contrário dos dois anteriores, trata-se de um inédito – e, porventura, também do capítulo de mais rico conteúdo, pelo significado, do ponto de vista teológico e filosófico-político, das reflexões que o encerram.
Nas suas primeiras páginas, começa o capítulo por recuperar ponderações já antes feitas sobre a utilidade dos cristãos (christianoi/ chrestatoi) para a comunidade política (pp. 81-83; cf. n.º 11). É justamente esta concreta utilidade que se procura agora justificar.
Para o fazer, começa Marion por invocar a atmosfera nihilista própria do mundo contemporâneo:
«“O nihilismo está à porta”, advertiu Nietzsche. Não, hoje não está na soleira, mas, desde há mais de um século, invadiu toda a casa, escancarando as portas, a ponto de aí se instalar duradouramente. (…) Não o chamamos pelo nome, não se vê, permanece sem figura, mas os seus sintomas notam-se por todo o lado, inexplicáveis, difusos, irresistíveis, absurdamente lógicos; a ameaça atómica, a catástrofe ecológica, o cancro terrorista, a indistinção entre a paz e a guerra assim como entre a ditadura e a democracia, entre os direitos-do-homem (numa só palavra) e a barbárie, e, englobando tudo, a “morte de Deus” trazendo consigo o desaparecimento do homem.» (p. 85)
[Não é esta atmosfera bem presente em The Future (1994), de Leonard Cohen?]
Mas é surpreendente a realidade que Marion escolhe para demonstrar semelhante atmosfera nihilista: a recorrente referência a «valores». E assim por o discurso de «valores» pressupor o primado, escreve, do avaliador sobre o avaliado, quer dizer, tudo subordinando a um acto que exprime o poder avaliativo:
«O valor, por definição, nunca tem valor por si ou em si, uma vez que depende inteiramente de uma avaliação mais essencial do que ele mesmo. A economia repousa sobre uma possibilidade de abstracção que reduz cada coisa ao dinheiro, à moeda, e coloca assim em equivalência aquilo que não tem nada em comum: de onde a possibilidade de troca universal.» (p. 86)
O discurso assente em valores elimina, pois, um qualquer tipo de absolutos e incondicionados:
«Falar, por exemplo, do verdadeiro, do bom e do belo como valores equivale a desqualificá-los como tais. Falar, entre outros, do ser, do homem e da verdade como valores redu-los à indignidade de simples palavras, insignificantes. Falar enfim de Deus como de um valor consuma uma enorme blasfémia.» (p. 87)
No discurso dos valores, o único valor, em suma, é a vontade do avaliador, que se expressa – e assim se regressa a Nietzsche – como vontade de poder (p. 89). Conclusão paradoxal: nos termos desta análise, o mundo cheio de «valores» é, afinal, o mundo em que nada tem valor por si.
Imagem recolhida de https://en.wikipedia.org/wiki/The_Future_%28Leonard_Cohen_album%29