- Um olhar atento ao tempo que flui
Victor Bandeira*
No Jubileu dos 2025 anos do Nascimento de Jesus continuam a proliferar os sinais de festa que evocam o Seu Santo Nascimento. É verdade que muitas pessoas já deixaram de lado a prática tradicional de construir o presépio nas suas casas, substituindo-o por mangueiras ou projecções de luzes nas fachadas dos edifícios ou pela árvore-de-Natal, que, outrora, tinha na sua base o cenário do Natal com a Sagrada Família, os pastores com os seus rebanhos, e os magos do Oriente com as ofertas de ouro, incenso e mirra, mas que declinaram, pelos quebra-nozes dos filmes animados ou por um simples pano vermelho debruado a dourado, que, certamente, dão muito menos trabalho a colocar, a arrumar e limpar.
Na verdade, a avaliar pelas publicações que se vão observando, nas redes sociais, ainda há muitas famílias que constroem o seu presépio, sendo que alguns são verdadeiras obras de arte.
Também nas nossas igrejas, o presépio ainda vai tendo lugar de destaque durante esta época festiva. Como exemplo, para este artigo, partilham-se as fotografias do presépio que tem vindo a ser construído, ano após ano, na igreja de São Bartolomeu de Veiros, assinalando-se, assim, os 2025 anos do Nascimento de Jesus. As imagens foram adquiridas no ano de 2002 e destacam-se pelas cores alegres e pelo detalhe tão bem conseguido das suas faces, que nos ajudam a elevar a nossa oração e contemplação no Mistério Divino do Natal do Senhor.
Todos os anos, o presépio é construído de maneira diferente, maioritariamente com musgos, mas já se viu revestido de palha (Figura 8), de junco (Figura 16), de flores (Figuras 1, 14, 15, 21), plantas exóticas, destacando-se um dos natais em que a gruta foi revestida com mais de 150 hastes de orquídeas (Figura 11), todas oferecidas pelos veirenses, que acorreram à solicitação desse ano, para que deixassem na igreja as suas orquídeas, a fim de ser construída a gruta de Belém.
Assim se observa que, de muitas maneiras e de muitos modos, se pode construir o presépio, mantendo sempre o essencial, o Menino envolto em panos e deitado na manjedoura, rodeado por Maria, S. José, visitado pelos Pastores e adorado pelos Magos do Oriente.
Os preparativos dos materiais e da própria confecção do presépio envolvem muitas pessoas, desde crianças a adolescentes, jovens e adultos. E, também assim, se vêem os frutos que uma coisa tão simples, como a construção do presépio, podem formar.
Contudo, nas casas dos cristãos, ano após ano, o presépio vai sendo “esquecido” e, se não foi colocado em segundo plano, casas há em que já nem o pensam fazer, porque têm outras decorações que o substituem no lugar central da sala, onde outrora era presença assídua.
Nas escolas, em tempos idos, construía-se o presépio e fazia-se a árvore-de-Natal. As crianças viam esta continuidade do presépio de Belém que aprendiam na catequese, e que passava para a sua casa e pela escola, porque, em todos os locais que frequentavam, o presépio estava presente. Era normal! Anormal era não o encontrar! Mas os tempos mudaram e este Cristo, nascido em Belém, teve de ser escondido, de novo, na gruta, longe dos olhares dos Herodes dos tempos actuais, que o querem de novo assassinar!
Este extermínio vem, muitas vezes, encapotado em forma de publicações nas redes sociais alertando para a proteção das espécies de musgos, proibidos de serem colhidos. Mas, nem a propósito, no início de Dezembro, época em que as escassas famílias que ainda constroem o presépio com musgo, o iriam recolher, são alertados e educados através do medo. Porque não se lhes explica tudo devidamente?! Claro, que há muitas maneiras de construir o presépio, e o musgo pode sempre ser reutilizado nos anos seguintes, porque facilmente se conserva seco, mantendo o mesmo aspecto.
Quem o colhe também deve saber que não deve recolher o musgo em grandes extensões ininterruptas. Mas, ao recolher, deve ter o cuidado de não descobrir os solos em áreas contínuas, de modo a permitir que o musgo adjacente possa rapidamente proliferar e atapetar, de novo, a área a descoberto, para que a qualidade do solo não fique comprometida.
Estas publicações que o Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF) tem vindo a divulgar não deixam de ser oportunas, porque, de facto, os musgos são espécies sensíveis e cada vez mais raras, e contribuem para o equilíbrio dos habitats onde ocorrem. Mas não deixa de ser irónico que esta mesma instituição que os “protege” e que emana o “medo” entre os poucos cristãos que o recolhem, seja a mesma instituição que permite a destruição de quilómetros quadrados contínuos de musgos para a implementação de mega instalações de painéis fotovoltaicos em solos ricos e repletos de espécies autóctones, destruindo toda uma paisagem autóctone e todo um ecossistema, e todo um equilíbrio natural, e permitindo o corte de centenas de sobreiros, azinheiras, carvalhos, que sustêm, nos seus solos e nos seus troncos, milhares de hectares de musgos, que nunca mais serão substituídos… ao contrário dos musgos que são recolhidos para presépios, e que regeneram e voltam a atapetar os mesmos solos, se forem colhidos com responsabilidade e cuidado, deixando clareiras reduzidas e de recomposição e regeneração rápida.
Ironicamente, a extracção de musgos pode ser feita ao abrigo das limpezas de terrenos, como gestão de combustível, e é assim que poderemos continuar a realizar os presépios. Interessante, não é?! Qual história entre Herodes e os Magos do Oriente, a quem este rei da Judeia tenta enganar para poder chegar ao Menino e suprimi-Lo para que lhe não tome o lugar!…
Termino este texto com uma frase, que recolhi de um renomado realizador de documentários científicos, o mestre Daniel Pinheiro, e que aqui replico, o qual nos faz, a nós, cidadãos, mas também às autoridades nacionais, uma pertinente e determinada chamada de atenção sobre esta problemática da recolha de musgos da seguinte maneira: “Numa manhã de trabalho, uma máquina florestal pesada destrói mais musgo do que todo o musgo apanhado em Portugal para presépios. Tenham vergonha.” É com isto mesmo que nos devemos insurgir e deveremos proclamar a quem de direito: “Tenham vergonha!”
Não nos deixemos enganar pelos Herodes dos tempos modernos e façamos como os Magos do Oriente; sigamos por outro caminho!
Universidade de Aveiro
Referências bibliográficas
Bandeira V. (2018). Memórias da Igreja de São Bartolomeu de Veiros – Chão Sagrado. Tempo Novo Editora. Aveiro. 461 pp. [ISBN: 978-989-99806-9-3].




















