Sáb. Out 23rd, 2021
‘Vestigia Dei ‘- Rubrica dedicada à reflexão sobre o lugar de Deus na poesia portuguesa
(Parceria com o projeto Teotopias)

[4.] POESIA RELIGIOSA E TEOTOPIAS POÉTICAS

É MUITO TRISTE ANDAR POR ENTRE DEUS AUSENTE[1]

José Rui Teixeira

Em meados da década de 20, o poeta Guilherme de Faria dedicou-se à organização de uma Antologia de poesias religiosas. Apesar de ser muito jovem, valeu-se de uma invulgar cultura literária para reunir 112 poemas, aos quais adicionou 21 quadras populares. Quando, no Natal de 1926, D. Manuel Mendes da Conceição Santos, Arcebispo de Évora, escreveu uma carta-prefácio para esta Antologia de poesias religiosas, Guilherme de Faria não tinha ainda vinte anos.

Um extenso subtítulo explica que ali se antologiam poesias religiosas «desde o século xv […] até aos nossos tempos, incluindo romances e cantigas da tradição popular». Na carta-prefácio, o Arcebispo de Évora destaca o «reflexo constante da religião em toda a evolução da poesia nacional»[2] e acrescenta:

a sua preciosa coleção de poesias põe diante dos olhos de todos uma verdade flagrante, e é que em todas as fases da literatura portuguesa, uma forte inspiração religiosa dominou a alma nacional. E é tanto mais curioso este fenómeno quanto o vemos reproduzir-se, diríamos quase contra a vontade dos próprios poetas, porquanto é sabido que alguns nomes que firmam poesias contidas neste volume não são crentes. Prevaleceu neles a inspiração coletiva ao preconceito pessoal: sentiu e cantou na sua obra a alma da raça.[3]

O Arcebispo de Évora denuncia a superficialidade da poesia religiosa dos autores mais recentes e louva as «regiões serenas e puras onde as almas nobres encontram inspiração sublime para as suas composições», acima «dos pântanos onde se revoluteiam os discípulos de Epicuro»[4].

Onze poemas separam a «Oração do Justo Juiz», de D. Duarte, de cinco excertos de autos de Gil Vicente. Entre Sá de Miranda e Bocage, destacam-se oito poemas de Camões e quinze de Frei Agostinho da Cruz. Do século xix, entre outros, ombreiam-se Alexandre Herculano, Almeida Garrett, João de Deus, Antero de Quental, Guerra Junqueiro, Gomes Leal e António Nobre. Como a antologia só foi publicada em 1947[5], quase vinte anos após a morte de Guilherme de Faria, os editores acrescentaram – «como preito de saudade» – quatro poemas do desventurado poeta que se suicidou no princípio de 1929.

Pouco depois, César de Frias organiza a antologia Cem das melhores poesias religiosas da língua portuguesa, publicada em 1932. Na introdução, repara que uma das características mais vincadas da poesia portuguesa e brasileira é a frequência de motivos religiosos; repara ainda que, apesar de «cada vez mais enfraquecida a fé, à medida que os séculos foram rolando, da poesia ela não se ausentou»[6].

Como Guilherme de Faria morreu em 1929 e a sua Antologia de poesias religiosas só foi publicada em 1947, os documentos não se influenciaram. São, por isso, poucos os poemas que coincidem nas duas antologias.

De cada autor, César de Frias escolheu apenas um poema, entre Sá de Miranda e Guilherme de Faria. Mesmo considerando os poetas brasileiros, esta antologia integrou poemas de vários autores mais recentes: Eugénio de Castro, Júlio Brandão, Fausto Guedes Teixeira, Augusto Gil, Afonso Lopes Vieira, Afonso Duarte, António Sardinha, Mário Beirão, Américo Durão e, entre outros, algumas poetisas, como Florbela Espanca, Virgínia Vitorino e Fernanda de Castro.

Passados vinte anos, em 1952, é publicado Cristo – tal como os pintores, escultores e poetas portugueses O viram, sentiram e entenderam. Não se tratando especificamente de uma antologia de poesia religiosa, aí se reúnem 31 poemas, escolhidos por Nataniel Costa, muitos dos quais já integrados nas antologias de Guilherme de Faria e César de Frias. Destacam-se cinco autores nascidos no século xx: José Régio, Alberto de Serpa, Miguel Torga, Pedro Homem de Mello e Sebastião da Gama.

E, em 1958, dois desses poetas – José Régio e Alberto de Serpa – publicam Na mão de Deus – Antologia de poesia religiosa portuguesa, título que evoca o notável soneto de Antero[7].

Na introdução, a mesma consciência de que quase «todos os melhores poetas portugueses se voltaram, uma que outra vez, para Deus, ao longo de uma vida tão dada ao mundo como frequentemente é a dos poetas»[8]. Conscientes também de que para

a grande maioria dos nossos poetas – e aqui se aproximam eles da alma do nosso povo – a mão de Deus não é, muitas vezes, concebida senão através das misericordiosas mãos da Virgem Santíssima, […] ou através das mãozinhas rosadas de Jesus pequenino […]; ou através das mãos penitentes dos seus Santos […]; ou através das mãos cravadas do Crucificado […]. Não se estranhe, pois, que nesta recolha abundem os poemas em louvor a Nossa Senhora, de Santa Maria Madalena, dos passos da Paixão de Jesus Cristo, do mistério do Natal. Revela isso uma característica muito importante da religiosidade dos portugueses. E, pelo menos em crítica literária, é inútil discutir com a natureza profunda dum povo, ainda mais quando revelada e sancionada pelos poetas.[9]

Isto justifica que José Régio e Alberto de Serpa, enquanto organizadores desta antologia, não façam depender a inclusão ou exclusão de certos poemas do modo como concebem a experiência religiosa ou a experiência mística, mesmo com a consciência de que são raros os poemas religiosos que atingem «um superior nível metafísico, ou uma consciência profunda e analítica, ou a riqueza dos embates entre a fé e a tentação»[10], o que não significa que em muitos dos poemas que escolheram – muitos deles também escolhidos por Guilherme de Faria e César de Frias[11] – «não fulgurem versos que voam alto ou mergulham fundo»[12].

Esta antologia reúne 153 poemas de 86 poetas e termina com 17 quadras populares. Nomes como os de Vitorino Nemésio, Jorge de Sena e Fernando Echevarría aparecem entre os poetas nascidos no século xx, juntamente com o dos presbíteros António de Magalhães e Moreira das Neves. Mas – entre os 86 poetas aí representados – é Antero de Quental quem Régio e Serpa destacam, só nele encontram

a trituração do pensamento sobre a espontânea necessidade de crer; o ansioso exame a uma crença perdida, mas nunca de todo abandonada, a conceção de Deus sublimada por uma inteligência superior que se dilacera.[13]

Datam de 1973 e 1974 os dois volumes de Poesia e Teologia – poetas de língua portuguesa, organizados por António de Azevedo Pires. Trata-se de um modelo diferente de antologia, dividida por temas e apresentada ao modo de aforismos, com poemas e excertos, às vezes apenas um verso.

Entre o princípio do primeiro volume e o final do segundo, Azevedo Pires divide a sua eclética antologia de poetas portugueses e brasileiros em 42 capítulos/temas, entre «À procura de Deus» e «Paraíso». Cada capítulo é introduzido por uma pequena reflexão e são muitos as pequenas apresentações circunstanciais, uma espécie de intermédios que acentuam o efeito de manta de retalhos.

Enferma esta antologia de dois pressupostos que a fragilizam irremediavelmente: o primeiro é o que afirma que o poeta é, ao seu modo, um teólogo – não se deve estranhar, por isso, «o recurso à Poesia para encher páginas de Teologia»[14] –; e o segundo é o que afirma que «o Poeta é um escolhido de Deus»[15], caracterizando-o Azevedo Pires como «alguém que procura um paraíso perdido e, para o encontrar, conserva-se livre, isento, silencioso e puro, totalmente disponível para captar as ressonâncias do Verbo»[16]. É impressionante a ingenuidade de uma afirmação como esta.

Quarenta anos separa a publicação de Poesia e Teologia de Verbo – Deus como interrogação na poesia portuguesa, antologia organizada por Tolentino Mendonça e Pedro Mexia: não se trata de uma recolha de poesia religiosa, mas de uma antologia de poetas portugueses nascidos no século xx, em cuja obra Deus assoma como interrogação. Não é a mesma coisa. E talvez não responda à pergunta de Jean-Claude Pinson: «Que relação pode ainda estabelecer a poesia moderna com qualquer coisa da ordem do sagrado?». Ou talvez balbucie outras perguntas por dentro dessa mesma pergunta reformulada: de que modo a poesia contemporânea recusa a banalidade intranscendente e se situa nas estâncias transimanentes de Deus como interrogação?

As antologias anteriores tinham um propósito significativamente menos ambicioso: bastava-lhes, de acordo com critérios pouco discutíveis, escolher poemas de temática religiosa escritos por poetas representativos de cada época da história da literatura portuguesa. Respeitados os critérios e certas evidências, o cânon resultante dependeu fundamentalmente das escolhas dos organizadores, que estavam legitimadas nem que fosse por circunstâncias idiossincráticas.

Quando Tolentino Mendonça e Pedro Mexia decidem organizar a antologia Verbo – Deus como interrogação na poesia portuguesa, o desafio é claramente outro, significativamente mais exigente. É certo que não se pode dizer que tenham corrido grandes riscos na escolha dos poetas e dos poemas que os representam, mas conseguiram deslocar a perspetiva: se nas antologias que a precederam havia uma certa condescendência com poetas que, não sendo crentes, como que se imiscuíam nos domínios da religião, nem que fosse por meio de elementos da tradição e do folclore religioso; nesta antologia, o foco é Deus como interrogação, «porque Deus existe, na poesia como na vida, em modo interrogativo, mesmo para quem tem fé»[17].

Arriscaria afirmar que o princípio que preside às anteriores antologias – consciente ou inconscientemente – é o da apologética de um catolicismo nacionalista e neogarrettista[18]: apesar da ação erosiva da secularização, afirmam que um dos principais leitmotive do «génio nacional» continua a ser a religiosidade do nosso povo, um cristianismo castiço e bucólico que os poetas exprimiram liricamente, quase sem angústias os crentes e em contrição os apóstatas e os anticlericais. Trata-se, portanto, de antologias que – mais do que confortar os que têm fé – provocam e convocam os dissidentes do catolicismo.

Quanto à antologia organizada por Tolentino Mendonça e Pedro Mexia, essencialmente constituída por poemas da segunda metade do século xx, a provocação é sobretudo dirigida àqueles cuja vida espiritual se reduz a uma área de conforto, com as suas rotinas cultuais e uma experiência sacramental meramente sociológica. Prescinde – também por isso – de poemas explicitamente religiosos e da separação maniqueísta entre poetas crentes e poetas não crentes, sendo que os católicos aí representados não são poetas católicos, mas católicos poetas, de acordo com a feliz asserção de Ruy Cinatti: «Sou um católico poeta. Não um poeta católico»[19].

Outra questão muito interessante prende-se com o facto de Tolentino Mendonça e Pedro Mexia terem convocado o insuspeito Gottfried Benn, com a afirmação contundente de que

«Deus é um mau princípio estilístico. Quando alguém se torna religioso, isso fatalmente abranda a sua expressividade». […] A alternativa que o poeta alemão apresentou passou a constituir um dos modos mais representativos de afrontar o problema: a arte (e, neste particular, a poesia) é a única forma possível de transcendência. A religião perdeu o poder de impulsionar os homens no seu desenvolvimento espiritual e «apenas a arte permanece como a verdadeira tarefa da vida, como sua identidade, sua atividade metafísica, à qual ela mesma, a vida, nos obriga».[20]

Noutra perspetiva, apesar da revalorização da estética nos meios eclesiais desde meados do século xx, a experiência religiosa de abertura à transcendência, nas suas múltiplas expressões, considera ainda a estética prescindível e instrumental; admite-a, mas não sem suspeição; procura frequentemente regulá-la, domesticá-la; e considera-a teologicamente pouco profunda e teologalmente pouco comprometida.

Com efeito, entre uma e a outra perspetiva, poderíamos escrever uma história da relação entre a Igreja e os artistas. Com os poetas foi diferente. Basta não ter havido uma dependência do mecenato eclesial. O poeta foi sempre uma espécie de artista sui generis: eventualmente mais livre, certamente mais limiar e mais oracular.

[1] Ruy Belo, Todos os poemas, p. 119.

[2] D. Manuel Mendes da Conceição Santos, «Prefácio», in Antologia de poesias religiosas, Lisboa, Edições Gama, 1947, p. 12.

[3] Ibid., p. 13.

[4] Ibid., p. 13.

[5] E foi reeditada em 1996, com o título: As mais belas poesias religiosas (Publicações Europa-América), com um texto de apresentação do presbítero António Costa Marques.

[6] César de Frias «Prefácio», in Cem das melhores poesias religiosas da língua portuguesa, Lisboa, Guimarães e C.ª, 1932, p. 7.

[7] Cf. Antero de Quental, «Na mão de Deus», in Poesia Completa, p. 313.

[8] José Régio e Alberto de Serpa, «Prefácio», in Na mão de Deus – Antologia de poesia religiosa portuguesa, Lisboa, Portugália Editora, 1958, p. 7.

[9] Ibid., pp. 9-10.

[10] Ibid., p. 10.

[11] José Régio e Alberto de Serpa não esquecem o contributo das duas antologias anteriores: «Resta-nos declarar que nos foram boa ajuda as antologias da mesma natureza que precederam esta: como a de César de Frias e, muito particularmente, a de Guilherme de Faria» (ibid., p. 11).

[12] Ibid., p. 10.

[13] Ibid., pp. 7-8.

[14] António de Azevedo Pires, «Introdução», in Poesia e Teologia – poetas de língua portuguesa (vol. i), Lisboa, União Gráfica, 1973, p. 7.

[15] Ibid., p. 8.

[16] Ibid.

[17] José Tolentino Mendonça e Pedro Mexia, «Explicação», in Verbo, p. 13.

[18] Particularmente entre Palavras loucas de Alberto d’Oliveira (Coimbra, F. França Amado – Editor, 1894) e os últimos resquícios do neorromantismo lusitanista, em meados do século xx. Importa, no entanto, recordar que o Cancioneiro de João de Lemos – particularmente o segundo volume: Religião e Pátria (Lisboa, Escritório do Editor) foi publicado em 1859.

[19] Citado por Peter Stilwell em A condição humana em Ruy Cinatti (Lisboa, Presença, 1995, p. 69).

[20] José Tolentino Mendonça e Pedro Mexia, «Explicação», in Verbo, p. 13.

Imagem de Mystic Art Design por Pixabay
Textos recolhidos de TEIXEIRA, José Rui – Vestigia Dei: Uma leitura teotopológica da literatura portuguesa. Maia: Cosmorama Edições, 2019, 78pp.