Dom. Out 17th, 2021

POR DETRÁS DA BÍBLIA 

UGARIT 1, 2, 3, 4, 5 e 6

Pe. Júlio Franclim do Couto e Pacheco

(Leia, no final desta introdução, 
alguns dos principais mitos de Ugarit)

Ugarit (actual Ras Shamra) foi uma antiga e cosmopolita cidade portuária, situada na costa mediterrânea do norte da Síria, alguns quilómetros ao norte da cidade moderna Lataquia.  Ugarit enviava tributo ao Egipto e mantinha vínculos diplomáticos e comerciais com a antiga Chipre), documentados nos arquivos recuperados do sítio arqueológico e corroborados pela cerâmica cipriota e micénica descoberta ali. O apogeu da cidade ocorreu de cerca de 1450 até 1 200 a.C..

A cidade e a civilização estiveram esquecidas até 1928, quando acidentalmente descobre no seu campo um túmulo antigo que fazia parte da necrópole de Ugarit. As escavações revelaram uma cidade importante, berço da cultura urbana, com uma pré-história que alcança o VI milénio a.C., porto de entrada da rota comercial que levava às terras à volta dos rios Tigre e Eufrates.

Durante as escavações foram encontrados diversos depósitos de tabuinhas de argila na escrita cuneiforme, constituindo uma biblioteca do palácio, outra biblioteca de um templo e duas bibliotecas privadas, todas da última fase de Ugarit, à volta de 1200 a.C.. As tabuinhas descobertas foram escritas em quatro línguas: sumério, hurrita, acádio (o idioma da diplomacia na época), e ugarítico (até então desconhecida).

Quanto aos textos, é muito importante o Ciclo de Baal. Trata-se duma compilação escrita de relatos orais. Consta de três: «A Luta de de Baal e Yam», «O Palácio de Baal», e «O Combate de de Baal e Mot». Não se conserva completo, embora existam muitas cópias fragmentadas que permitiram recompor quase por completo.

Estes textos permitiram-nos conhecer o Panteão de deuses de Ugarit, bem como algumas das relações e mitos que existem sobre eles.

No Panteão encontramos um par principal, pais de quase todos os deuses. Trata-se de El, deus ancião, e Athylt (Asherah) sua esposa. No caso de El insiste-se no seu carácter venerável, é um deus  criador. É mostrado entronizado e com barba e coroa, também aparece com uma tiara de cornos.

Do deus Yam não conhecemos a sua representação. É o deus do mar (Yam) e dos rios (Nahar), é negativo e caótico, está em luta com Baal para apoderar-se do trono.

Kothar é o deus artesão, responsável pelo fabrico de armas e construção de palácios.

Anat e Athart (Ashtarte) formam um par de deusas que aparecem sempre unidas a Baal, são suas companheiras e ajudam-no na guerra.

Durante este II milénio o papel de Astarte está muito diluído. Anat é uma deusa guerreira, representada com cornos e asas.

Baal recebe o epíteto de «Filho de Dagon». É o deus do raio e da tormenta. Recebe culto em todo o Próximo Oriente porque traz a chuva (e com ela a vida). Tem a sua sede no monte Safon  e relaciona-se com a imagem do Touro. O seu nome é Haddu já que Baal é um cargo: Senhor.

Mot é a morte e é o inimigo mais poderoso de Baal, muito mais que Yam. Mot faz referência à derrota do Leviatan (o que também aparece na mitologia hebraica). Shapash é a deusa do sol, será o Shemesh fenício. É uma divindade que ajuda os homens. Pidray e Talay são filhas de Baal relacionadas com diferentes tipos de chuva. Athtar, o terrível, aparece em maldições e recebe culto pelos semitas do sul. Só se sabe que ele tenta acabar com Baal.

Os textos encontrados revestem-se de particular interesse pelo facto de se conhecer melhor a mitologia cananeia e ugarítica que tiveram uma grande influência na história e no culto de Israel, particularmente o culto a Baal, Astarte, Asherah.

Leia aqui os relatos épicos de Ugarit

Ugarit 1 – Épico de Baal – Luta de Baal e Yam

Ugarit 2 – Mito do Palácio de Baal

Ugarit 3 – Luta de Baal e Mot

Ugarit 4 – O mito da luta de Ba’lu e Môtu

Ugarit 5 – Épico de Aqhat

Ugarit 6 – Lenda do Rei Keret ou Kirta