GLOSASEspaço de comentário a obras que interpelam o tempo presente

Tiago Azevedo Ramalho 

 

­ – «Nulla salus extra scholam» –

[Introdução geral: nn.º 1 a 8/ I. Ivan Illich e a Escolarização: nn.º 9 e ss.]

 

27. A nova religião universal. – Em valoração de conjunto acerca de qual o lugar da escola nas sociedades ocidentais, Ivan Illich servir-se-á de um paralelo que poderá (caso se desconheça o processo de construção do Estado moderno) afigurar-se surpreendente – o paralelo com a religião: «A escola parece estar eminentemente adaptada a ser a Igreja Global da nossa cultura decaída. Nenhuma instituição pode velar com mais sucesso os seus participantes a respeito da forte discrepância entre os princípios sociais e a realidade social do mundo contemporâneo. Secular, científica, recusando a mortalidade, é uma parte do espírito moderno. A sua aparência clássica, crítica, fá-la aparecer pluralista, quando não antireligiosa. O seu curriculum simultaneamente define a ciência e é ele próprio definido por uma assim chamada investigação científica. Até agora, nunca ninguém completou a escola. Ela nunca fecha as suas portas para ninguém sem primeiro lhe oferecer uma nova chance: uma educação suplementar, adulta, contínua.» (Deschooling, p. 43)

Como o próprio revela em entrevista, foi mesmo a respectiva formação teológica de base que facultou semelhantes reflexões (cf. os nn.º 3 e 4). O estudo da Igreja, objecto da Eclesiologia – «de uma forma divertida mas real, uma precursora da sociologia, mas com uma tradição vinte vezes mais longa do que a da sociologia desde Durkheim» (Conversation, p. 65) – e da  Liturgia serão convocados para dar inteligibilidade ao sistema escolar. Se a Liturgia pode também ser vista como um modo ritual de construir a Igreja, e se os rituais podem conduzir (Illich deve esta última ideia a Gluckman) a que quem nele participa não se aperceba do desajuste entre o que faz e as consequências dos respectivos actos, então a escola é «o ritual que faz o mito, o ritual que contrói o mito em que a sociedade contemporânea se constrói» (Conversation, p. 65). Esta proximidade, que a princípio fora uma intuição de Ivan Illich, será cada vez mais trazida à consciência no decurso da respectiva vida e obra. Eis uma descrição do sistema escola desde o ponto de vista apresentado neste parágrafo:

«A escola serve como um criador efectivo e apoio ao mito social por causa da sua estrutura de jogo ritual com promoções de grau. A introdução a este jogo ritual é muito mais importante do que aquilo que é ensinado ou como o é. É o próprio jogo das escolas que entra no sangue e se torna um hábito. Toda a sociedade é iniciada no mito do consumo infinito de serviços. Tal acontece até ao ponto em que a participação simbólica neste ritual aberto se torna compulsória e obrigatória em qualquer lugar. A escola transforma a rivalidade ritual num jogo internacional que obriga os competidores a censurar aqueles que não podem ou não querem jogar pelos males do mundo. A escola é o ritual de iniciação que introduz o neófito na raça sagrada do consumo progressivo, um ritual de propiciação cujos sacerdotes académicos medeiam entre os fiéis e os deuses do privilégio e do poder, um ritual de expiação que sacrifica os que não o conseguem cumprir, tomando-os como bodes expiatórios do subdesenvolvimento.» (Deschooling, p. 44)

Desde a perspectiva da nova religião universal se abre uma chave de leitura que permite excelentes relances de compreensão do sistema escolar. Assim, e a título de exemplo, a promessa de sucesso pela respectiva frequência deixa-se traduzir por uma «actualização» do Reino, espécie de escatologia realizada sob forma burocrática, por um lado, e altamente personalizada, por outro, pois que estamos numa sociedade que inicia ao consumo: «A expectativa do Reino induzida pela escola é, por outro lado, mais impessoal do que profética, e mais universal do que local. Cada um tornou-se o fabricante do seu próprio messias e promete as recompensas ilimitadas da ciência a todos aqueles que se submetem à fabricação progressiva para o seu Reino.» (Deschooling, pp. 45-46)


Imagem de AkshayaPatra Foundation por Pixabay