GLOSASEspaço de comentário a obras que interpelam o tempo presente

Glosas a Brève apologie pour un moment catholique

– Catholique et français –

(pp. 15-47)

(Cont.)

 [Primeiro texto: aqui.]

Tiago Azevedo Ramalho

– 11. A Luz do Mundo. Feito um diagnóstico à realidade eclesial (nn.º 7 a 9) e do actual estado das sociedades ocidentais (n.º 10), permitindo surpreender o contraste, mas não a sinonímia, entre a situação de crise daquelas primeiras e o estado de decadência destas últimas, pode Marion abalançar-se a identificar qual o papel que a Igreja pode desempenhar.

Para o efeito, é evocado o modelo proposto por Santo Agostinho na Civitas Dei para o declínio do mundo romano (p. 35). Colocada a interrogação, que serve de motivo a esta última obra, de saber se aos cristãos deve ser atribuída a causa do declínio da civilização romana, responde que se deve ela, não à suposta partida dos deuses próprios da cidade resultante da chegada de uma nova religião, mas à falta de justiça na vida política. O que permite inverter a questão: não é pela chegada do cristianismo que se afunda a civilização romana, mas, pelo contrário, pela sua não suficiente implantação. Só aos cristãos – mantendo-nos na recensão a Santo Agostinho – cabe garantir a melhor das cidades, por só esses saberem como viver em plena subordinação às mais altas exigências de justiça (p. 37).

            Conforme agrafa Marion, trata-se de uma via argumentativa já presente na patrística, referindo o interessante jogo de São Justino, referindo os cristãos como os mais úteis de todos (christianoi/ chrestotatoi), ou as fórmulas célebres da Carta a Diogneto (em verdade, trata-se de fórmula anterior à própria patrística, encontrando uma notável expressão no sermão da montanha: cf. Mateus 5, 13-16): Em síntese:

«Somente os cristãos, porque a graça de Deus lhes dá acesso à justiça, podem sustentar, sempre parcialmente, mas sempre eficazmente, cidades terrestres às quais, porém, não pertencem de modo fundamental.» (p. 38)

Com o que não se pretende qualquer diminuição do papel dos demais, nem também, por outro lado, arrogar para cristãos um qualquer estatuto formal distintivo ou dignidade honorífica. Bem pelo contrário. O que justamente se visa sublinhar é que, mesmo na sua de uma tal distinção ou dignidade, mesmo sem uma qualquer missão pública que lhes seja acometida, ainda assim se decidem, como exigência própria e indeclinável, a pautar a sua acção por exigências éticas que servem os demais.

(Continua.)


Imagem de Antonio López por Pixabay