GLOSASEspaço de comentário a obras que interpelam o tempo presente

Glosas a Brève apologie pour un moment catholique

– L’utilité de la communion –

(pp. 83-119)

(Cont.)

 [Primeiro texto: aqui.]

Tiago Azevedo Ramalho

– 24. Uma questão de «autoridade». – Justamente pela lógica da dádiva se rompe com qualquer tentação teocrática de voltar a usar a fé como bandeira ou estandarte para a conquista do poder. E assim porque é a própria lógica da dádiva que rompe com estas pretensões:

«(…) a dádiva não se pode aplicar senão no abandono, não no domínio: a dádiva dá sem contrapartida, dito de outro modo, começa por perder o poder; mais exactamente ainda, não pode começar senão por aquilo que aceitou perder (…). Imaginar que a lógica da dádiva implica o exercício do poder, tal denota simplesmente que ainda não se compreendeu suficientemente a dádiva, nem se entreviu o seu poder, que nos mantemos dentro da lógica da apropriação, da economia.» (p. 116)

Termina assim Marion com uma distinção capital para a estruturação de uma moral política cristã. É apresentada como uma distinção entre poder e autoridade. Qual o poder que se pode dizer mais forte? O que carece da força para se afirmar, ou aquele que «suscita uma obediência voluntária e espontânea»? (p. 117) A resposta dá-se por si própria. Todo o poder, para se afirmar derradeiramente, carece de uma autoridade que já não resulta do poder, mas que o precede e cria as condições para que seja aceite. A autoridade é já de uma diferente ordem:

«A autoridade, ao contrário do poder, não se proclama, não usa da violência, não se dá em espectáculo e mesmo, no limite, nem sequer se vê. Porque a autoridade nunca tem necessidade de exigir obediência, porque a obtém imediatamente, porque lha damos voluntariamente.» (pp. 118-9)

Um notável exemplo de Marion: a relação entre professor e estudantes. Escreve:

«A autoridade, eis a única coisa que um professor não pode ensinar nem reclamar: ou a tem ou não a tem. Não a tem quando seduz ou brilha, mas quando convence ao demonstrar ou a mostrar sem violência nem constrição: quando o ouvinte se descobre ele próprio de acordo com as suas conclusões que se tornam então as suas próprias. A autoridade de um verdadeiro professor limita-se à sua capacidade de colocar os seus ouvintes de acordo com o que diz, e não com ele, mas finalmente com eles-próprios; enquanto um mau professor quererá submetê-los, a ele, com violência e sedução (que podem coincidir.» (p. 118)

Distinguem-se assim poder e autoridade:

«Concluamos: o poder não se pode exercer sem violência a não ser por delegação de uma autoridade; a autoridade exerce-se sem violência e somente assim, porque não se confunde nunca com um simples poder.» (pp. 118-9)

Deste modo se rompe, se rompe definitivamente, qualquer pretensão teocrática – no mesmíssimo momento em que se reforça a «utilidade da comunhão», quer dizer, da comunhão com a comunhão trinitária, a comunhão que gera aquela autoridade que permite relações saudáveis de poder.

Eis as palavras conclusivas do capítulo:

«Convém então não falar de poder espiritual ou religioso (…), mas de autoridade espiritual ou religiosa. Neste sentido, todo o poder vem de uma autoridade que, ela, não exerce poder no sentido social e político do termo. E a autoridade vem antes e de um outro modo. Assim, Cristo ensinava “como tendo autoridade” (Mateus 7, 29) (Romanos 13, 1), deixando o saber e o poder aos escribas e aos sacerdotes. Assim, todo o poder vem de Deus: não que Deus exerça o poder entre os homens, mas porque o poder do homens, sem autoridade nele próprio, depende da única autoridade plena, a de Deus. A autoridade de Deus na política não pode ser negada, mas deve entender-se, para além do poder, da força, como também da não-violência e da resistência passiva, como a impotência [impouvoir] da autoridade. Ao menos nisso crêem os cristãos.» (p. 119)

(continua…)


Imagem de Norman Gil por Pixabay