GLOSAS – Espaço de comentário a obras que interpelam o tempo presente
Tiago Azevedo Ramalho
– Marcos da vida de Ivan Illich –
– 3. A vida e os seus marcos. – Antes de se avançar para o estudo dos principais eixos temáticos que estruturam a obra de Ivan Illich, é conveniente situá-los dentro das coordenadas centrais da respectiva biografia. A vida de Ivan Illich está na origem, com efeito, de muitas das características que serão marcantes da sua obra, escrita sempre no complexo entrecruzamento de ideias, de lugares, de horizontes.
Distinguir-se-ão quatro grandes fases na vida de Ivan Illichh: (i) a origem; (ii) o seu período de actividade pastoral enquanto sacerdote católico; (iii) a sua fase de «estrelato» intelectual; (iv) finalmente, o período conclusivo em que assumiu a condição de universitário itinerante. São fases cuja transição não implica propriamente uma ruptura, devendo ser antes entendidas como diferentes estádios de um mesmo desenvolvimento vital, somente com acentos diferentes em cada um dos períodos. Para maior desenvolvimento, pode consultar-se Conversation, pp. 1-57, Rivers, pp. 1-44 e Journey, pp. 1-34.
4. Primeira fase: a origem. – Já a origem de Ivan Illich prenuncia essa precisa característica que marcará toda a sua vida: o entrecruzamento, que nela se dá, de diferentes culturas e tradições. Se nasce em Viena, a 4 de Setembro de 1926, em breve será levado para a habitação familiar paterna na Dalmácia (actual Croácia). A infância é passada entre esses dois lugares – e ainda nalguns outros, como França, por onde ocasionalmente se encontrassem os respectivos pais. Ivan Illich nasce, portanto, no espaço político-cultural correspondente ao «Império Austro-Húngaro» (que terminara poucos anos antes), espaço conhecido pela pluralidade linguística, cultural e ética – mesmo se com a cultura austríaca de expressão alemã a assumir-se como própria da classe regente –, que virá a marcar de modo muito acentuado o centro e o leste da Europa. É este o primeiro entrecruzamento na vida de Ivan Illich.
Não só desde o lugar, mas também desde o sangue se nota o entrecruzamento de tradições. Se o pai era descendente de grandes proprietários da referida região da Dalmácia, a mãe era uma judia convertida ao cristianismo. Eis, pois, uma nova ambiguidade: a que vai desde o cristianismo como religião ao persistente judaísmo em sentido étnico. No período nacional-socialista, Ivan Illich será mesmo desqualificado primeiro como «meio ariano» e logo como «meio judeu» (Conversation, p. 80). Fruto de tais vicissitudes políticas do espaço de expressão alemã, por volta dos respectivos 15 anos desloca-se para Florença, em Itália. Assistimos, portanto, a novos entrecruzamentos – entre os universos culturais dos seus ascendentes, por um lado, e o próprio percurso na adolescência.
Vemo-los igualmente no respectivo percurso educativo. Alternando momentos de livre aprendizagem com outros de educação formal, contactando, desde muito cedo, com os estratos mais selectos da cultura europeia (…aos 16 anos aspirava a escrever como um Rilke…), a sua frequência do mundo universitário inicia-se pela Universidade de Florença. Mais relevante, porém, é o que se seguirá: é na Universidade Gregoriana (Roma), um dos mais renomados centros de formação católica, que estuda Filosofia e Teologia, estudos que empreende já em vista da posterior ordenação sacerdotal. Já ordenado sacerdote católico (em 1951), obtém o grau de Doutor em História na Universidade de Salzburgo (Áustria).
Neste percurso educativo de Ivan Illich, vemos de modo muito nítido o entrecruzamento de vários mundos: quer pelas diferentes paragens onde desenvolveu os seus estudos, quer pelos diferentes métodos de aprendizagem experimentados, quer pelos domínios sobre que se debruçou. Não é corrente encontrar quem reúna em si uma formação tão qualificada nestas três disciplinas fundamentais – a disciplina do universal (Filosofia), do concreto (História), e, desde uma perspectiva cristã, do universal-concreto (Teologia). Se a isto acrescentarmos o poliglotismo resultante de um contacto desde idade muito precoce com línguas de origem latina (francês e italiano) e germânica (alemão), e sem que as línguas eslavas lhe fossem totalmente desconhecidas (especialmente o servo-croata: o nome de Ivan Illich testemunha tal origem eslava), torna-se patente até que ponto na sua pessoa convergem vários fluxos culturais. Tendência que só aumentará ao longo da respectiva vida, em resultado das opções tomadas em idade adulta que o levaram para novas paragens.
Mas dá-se ainda mais um entrecruzamento, talvez o mais relevante de todos: o resultante de ter vivido num período de transição epocal entre diferentes concepções do mundo, a cuja consciencialização (e tentativa de direccionamento no sentido que cuidava ser mais adequado) dedicou grande parte dos seus esforços intelectuais.
Ivan Illich está aí, portanto, como o perfeito oposto de um cosmopolita, esse cidadão indiferenciado de um universo homogéneo e neutro, a quem, por não conhecer nenhum lugar ao certo, sobra apenas dizer-se parte de um cosmos. É, antes – se se permite o neologismo –, um polipolita, alguém que se situa no mundo desde muitos lugares concretos, cada um com o seu rosto único e particular. Se o cosmopolitismo tem a sua máxima expressão no monolinguismo – único e redutor –, este seu polipolitismo manifesta-se no poliglotismo que lhe é próprio, e que, nota-o, constitui a condição mais natural do ser humano (Conversation, pp. 89-91). Próprio do ser humano, insiste, não é dominar uma língua, mas simplesmente falar com tudo aquilo que lhe permita fazer entender-se, na continuidade sem ruptura entre diferentes línguas e dialectos. Ainda hoje assim é nas muitas paragens em que não haja formas institucionalizadas de educação formal especialmente desenvolvidas.
Mas se é um polipolita no sentido antes exposto, viverá, ao longo de toda a sua vida, a condição peregrinante de quem não tem nenhum lugar a que designe como o seu: «desde que deixei a minha velha casa insular na Dalmácia, nunca mais tive um lugar a que chamasse casa. Vivi sempre numa tenda (…)» (Conversation, p. 80). Toda a vida como um longo êxodo. Talvez seja resultado desta sua não pertença exclusiva a nenhum lugar em concreto a especial capacidade de se deixar receber por aqueles com quem se foi cruzando ao longo do respectivo percurso. Não só a vida de Ivan Illich é o resultado de múltiplos entrecruzamentos – ela própria se entrecruza com a daqueles a quem se dá, a quem escuta, por quem se deixa acolher.
Foto: https://www.manhattan-institute.org/the-genius-of-ivan-illich