‘Subindo o Monte’ – rubrica dedicada ao pensamento e escritos de autores carmelitas
(Parceria com o Carmelo de Cristo Redentor – Aveiro)

CHAVES DE INTERPRETAÇÃO

José Vicente Rodrigues*

  1. Aos critérios hermenêuticos expostos que ajudam na leitura de João da Cruz, julgo necessário acrescentar também algumas chaves de interpretação que conduzam à mesma compreensão da mensagem sanjoanina.

O critério, tal como o vejo, é algo mais reduzido. Às vezes é diminuto, humilde, sempre útil. A chave é mais ampla, mais larga e situa o escrito. Verdadeiras fontes luminosas, mentais e vivenciais a partir das quais se pensa o que se pensa e se escreve o que se escreve de um determinado modo e não de outro. Coordenadas do autor que servem ao leitor particularmente para localizar e apreciar como se deve os ensinamentos e as normas de conduta que lhe são oferecidas, as descrições totais do panorama da história da salvação e os pequenos passos que o homem vai dando na sua aproximação ao mistério, e os passos de gigante dados pelo autêntico protagonista que é Deus em Cristo.

  1. Em geral, as duas coisas – os critérios e as chaves – complementam-se e beneficiam-se mutuamente.

No meu entender, as chaves principais e referenciais de João da Cruz são as seguintes: Chave eclesial. Chave cristologal. Chave teologal. Chave vivencial-experiencial. Chave apostólica. Chave antropológica. Chave de libertação e liberdade. Chave de antecipação e protagonismo divino. Chave de enamoramento.

Cada uma destas chaves contém um mundo de riquezas interrelacionadas a cada passo umas com as outras.

A ordem aqui apresentada não significa a prioridade entre elas. Ao explica-las brevemente a seguir, o mais útil e sugestivo nalgum dos casos, será oferecer os lugares sanjoaninos onde fica mais e melhor definida a chave em questão. O leitor relê os textos e apercebe-se do seu conteúdo. Não damos todos os textos, mas apenas os textos principais e comprovativos. Noutros casos, sem dar os textos, damos uma visão rápida da chave.

Chave eclesial

– Subida, prólogo, 2; CB e CA, prólogo, 4; CH B e CH A, prólogo 1: submete previamente a sua doutrina como garantia de acerto ao juízo e parecer da Igreja.

– Romance sobre o evangelho «in principio erat Verbum» sobre a Santíssima Trindade: lê com esta chave concreta a história da salvação que desemboca na Igreja Esposa e Corpo de Cristo, Cabeça e Esposo. Tudo o que escreve sobre a união da alma com Deus advém deste ponto de vista e desta substância íntima. A comunhão com Deus ou santificação é a salvação ou redenção aplicada à pessoa humana.

– CB 30, 7 e CA 21, 6: a Igreja é a Esposa de Cristo, da qual e na qual Ele gera as almas e as santifica. Todas juntas e cada uma em particular é adorno e coroa na cabeça de Cristo. Realçam-se especialmente os mártires, os doutores e as virgens.

– CB 29, 1-3: o amor é o mais congénito com a Igreja, o que lhe é mais necessário e o que lhe traz mais proveitos e vantagens. O amor, quanto mais puro e limpo de escórias, tanto melhor.

– 2 S 3, 5: a Igreja militante e a Igreja triunfante. Convergências e divergências. Texto transcrito sinopticamente antes ao falar da Bíblia como fonte dos escritos sanjoaninos.

– CB 40, 7: o matrimónio espiritual na Igreja militante e o matrimónio glorioso na Igreja triunfante. O daqui desemboca no dali.

– CB 33, 8: a Igreja, casa de Deus, quer militante quer triunfante. Numa e noutra Ele distribui «os melhores e principais bens» e acumula-os em quem é mais seu amigo.

– Carta de 12 de Outubro de 1589 a Dona Joana de Pedraza: «ir pelo caminho plano da lei de Deus e da Igreja» é levar caminho de salvação e santificação.

– CA e CB na sua totalidade: a estrutura, a dramatização deste livro está montada sobre este pressuposto da Igreja-Esposa de Cristo.

Chave cristologal

Preferimos a expressão chave cristologal a chave cristológica. Como não dizemos virtudes teológicas mas teologais, assim falamos de algo mais vital e pessoal que talvez se desvaneceria ou não se sublinharia tão bem dizendo teológicas – como se tratasse de algo mais doutrinal do que vivencial – assim aqui escolhemos a expressão cristologal.

Além do que já aparece na chave anterior na qual Cristo é o Esposo da Igreja e da cada pessoa baptizada, João da Cruz tem vários capítulos extraordinários sobre a missão de Cristo na vida do mundo, das almas, da Igreja. A doutrina contida nestes lugares sobre o mistério de Cristo e as suas dimensões (cf. CB 36, 10-13; CB 37, 3-5) é de um alcance tão amplo que faz que tudo o que se refere a Ele se torne chave de interpretação de todo o seu magistério escrito. Pedra de toque e pedra angular.

Os principais lugares dos seus livros, com a categoria que lhe vamos atribuindo, são os seguintes:

– 2 S c. 22: a Palavra, a Palavra definitiva do Pai para a fé e para a vida. É o Tudo. O único mediador.

– 2 S c. 7: Cristo, por palavra e obra, e com o seu exemplo, convida, arrasta, atrai todos ao seu seguimento. Cf. também CB 25, especialmente os nn. 2-4.

– 1 S 13, 3-4: as normas fundamentais para a imitação de Cristo em qualquer circunstância da própria existência e do próprio dia.

– 2 S c. 21: ao explicar a palavra «disfarçada», aparece a transfiguração das virtudes teologais em virtudes cristologais sem mais. A alma enamorada reveste-se delas porque, «tocada pelo amor do Esposo: Cristo», pretende cair-lhe «em graça e ganhar-lhe a vontade», e não encontra melhor meio que as virtudes teologais com as quais «ganhará a graça e a vontade do seu Amado», tal como deseja.

– 1 S 14, 2: o segredo do adiantamento no caminho da união com Deus está em saber enamorar-se de Cristo. Quem não se enamora, não arrisca. Quem não arrisca não triunfa.

– CB 23: Cristo redime, santifica, desposa consigo. Raízes crísticas do baptizado e passagem do homem redimido (n. 6).

– CB canções 4 e 5, CA, as mesmas: a interpelação do homem às criaturas e a resposta delas. No fim da estrofe cinco aparece em todo o seu esplendor a criação e a redenção, nas quais intervém o Filho de Deus como resplendor da glória do Pai e figura da sua substância (Hb 1, 3). Tudo fica revestido de formosura, redimido, resgatado com o poder e «a glória da sua ressurreição». Tudo leva a marca de Cristo.

Chave teologal

A importância que João da Cruz dá ao teologal fica já praticamente indicada e, além disso, personalizada ou referida esta dimensão ao ideal mais autêntico que é Cristo, ao falar na chave anterior do que significa e porque se leva a cabo esse «disfarçar-se» de virtudes teologais.

O itinerário espiritual está feito por estas virtudes, como se pode ver na síntese que oferece a partir delas em 2 S c. 6 e em 2 N c. 21, identificando como ofício e função peculiar das mesmas «apartar a alma de tudo o que é menos que Deus» e «juntá-la com Deus». A estrutura e a organização da Subida estão fundadas sobre esta função teologal. Vai-se seguindo a alma na consecução desta meta.

Os esquemas mentais que possamos ter das «virtudes teologais» têm valor quando se tornam em vida teologal. Pode ver-se em OC pp. 153-154 o que o teologal abrange enquanto vida; e, mais adiante, o que significa «projecto teologal», p. 155 ss, e como estas virtudes são os meios mais próprios para realizar o propósito da união ou comunhão com Deus.

Chave vivencial-experiencial

João da Cruz escreve já numa época e desde uma altura da sua vida em que teve e continua a ter grandes experiências espirituais, grandes vivências. Certifica-nos de tais experiências, especialmente nos prólogos das duas grandes obras e nalguns outros lugares, como dissemos. Por isso, não se podem esquecer tais experiências, não só como fonte do escrito, pois a experiência é mãe da ciência, mas como chave de interpretação.

Como exemplo da atenção que esta experiência viva do divino merece gosto de citar uma passagem de CH B 1, 32 e de CH A 1, 26. Mais adiante nas nossas conclusões ao comentário da figura do Monte voltamos sobre este texto do Santo (ver ali o n. 7º: Tudo-Nada). A argumentação do Santo conclui com esta frase definitiva: «Todas as coisas são nada para ela, e ela (a alma) é nada para os seus olhos. Só o seu Deus é tudo para ela». É como alertamos: quando João da Cruz fala de tudo e nada não se deve esquecer o vivencial, que dá sentido muito mais profundo às palavras, que não ficam em puras explicações lógicas ou mentais ou de tipo mais ou menos filosófico, mas estão a oferecer-nos esse «sentir» de Deus e da alma que está posta nesse mesmo «sentir divino».

Na chave vivencial ou experiencial – para não apresentar uma nova – podemos integrar ou acrescentar «o trinitário», isto é, a relação mútua com Deus Pai, Filho e Espírito Santo, pois tudo o que dirá do teologal, do cristologal, do eclesial, etc., não se pode desvincular desta realidade de Deus Trino e Uno. A Igreja, por exemplo, surge da Trindade e a sua meta não é outra senão o seu princípio (cf. Romance: versos 77-98). O Deus com o qual a alma se une não é senão o Deus-Amor; Deus Pai, Filho e Espírito Santo. Um Deus que se antecipa sempre, como explica em CH B 3, 28.

Chave apostólica

Não indicamos com este título a doutrina de João da Cruz sobre o apostolado, mas a realidade, a vontade de exercer um grande apostolado escrevendo os seus livros.

Esta chave (que se integra harmonicamente com o critério dado anteriormente: perspectivas práticas) influi muito no modo de escrever, na argumentação, no sair, às vezes, do contexto em que se move, pela urgência do seu contexto mais vital, a preocupação por fazer o bem, por iluminar o caminho e ajudar o caminhante. Tudo isto se pode identificar nos seus escritos, como o fazem ver dois exemplos muito simples: Subida, prólogo, onde fala desta preocupação-chave; e CH B 3, 27 ss, e CH A 3, 26 ss, quando empreende e leva por diante com ardor singular a famosa digressão dos três cegos e isso em razão do mais puro e fino apostolado, reconhecendo ali mesmo «que é fora do propósito do que vamos falando» e prometendo voltar mais adiante «ao propósito».

Esta chave apostólica detecta-se nas suas grandes obras, e também nas que parecem pequenas e que o são no volume material, não no calor e no conteúdo (cf. «Ditos de Luz e Amor» prólogo).

As obras sanjoaninas levam muita carga experiencial e vivencial, de qual falávamos na chave anterior, mas não levam menos carga apostólica.

Chave antropológica

Seria provavelmente melhor dizer chave humana, que tem menos de teoria do que tudo o que se chame de «antropológico». Mas, fica assim; não há muito a discutir para ver que tudo o que se disse antes tem como destinatário o homem concreto: «o homem de carne e osso, o que nasce, sofre e morre – sobretudo morre –, o que come e bebe, e joga, dorme, e pensa, e quer; o homem que se vê e a quem se ouve, o irmão, o verdadeiro irmão», como grita Unamuno já no capítulo 1 Do sentimento trágico.

A Igreja existe para este homem, a Trindade é a sua origem e a sua meta, Cristo é o seu caminho e companheiro de viagem. O teologal não é uma abstracção ou uma consideração de virtudes fora do sujeito. Trata-se da pessoa humana guiada, levada, encaminhada, vivificada, estimulada por essas energias divinas que são as virtudes teologais.

O vivencial divino é tão humano e exaltador da pessoa humana; e a preocupação apostólica de João da Cruz fá-lo prestar atenção particularmente à realidade humana.

Tudo o que mais adiante diremos na Síntese sanjoanina sobre o homem é uma confirmação plena da importância e alcance que esta chave tem no estudo de João da Cruz. Mas, se por acaso fizesse falta um exemplo, poderia aduzir-se o de 2 N 11, 4, onde com poder e grande simplicidade diz o que pensa do homem, de todo o homem, de tudo o que é humano, na sua relação mais profunda e comprometida com Deus, que é a do amor perfeito.

Aqui entrariam em jogo os mil e um conhecimentos sobre a pessoa humana que possamos ter. As luzes da psicologia e de todas as ciências do homem, são sempre bem vindas à oficina do intérprete sanjoanino, para leituras e releituras.

Chave de libertação e liberdade

Acrescenta-se aqui esta chave não pela preocupação da moda, mas pela pura e abundante doutrina sanjoanina centrada na libertação. Tendo investigado e escrito sobre o assunto: A libertação em São João da Cruz, em Teresianum (EphCarm) 36 (1985) pp. 421-454, considero-a uma chave imprescindível. O seu alcance nos livros sanjoaninos capta-se na trama bíblica-dogmática, na biográfica-existencial, no baptismo e no processo libertador, no dinamismo teologal libertador e unitivo.

É uma chave intimamente relacionada com as outras, por exemplo, com a chave cristologal, pelo simples facto de que toda a teologia e espiritualidade sanjoanina da libertação centram-se em Cristo Salvador. Com a chave antropológica, pois a vocação mais alta e profunda do cristão é a liberdade; com a chave teologal, pois o caminho da libertação traçada percorre-se e realiza-se por meio das virtudes teologais e das noites escuras. Está projectada como «liberdade de» e «liberdade para».

Antecipação e protagonismo divino

A antecipação e o protagonismo divino tornam-se evidentes a quem considerar a raiz baptismal da vida espiritual, tal como a propõe João da Cruz no Cântico B 23, 6. Ao reconsiderar todo o itinerário espiritual em Chama B 3, nn. 27-67, afirma que o que primeiro se há-de saber e nunca esquecer é que se a alma busca a Deus, muito mais a busca Deus a alma e actua em consequência. Se faltasse alguma coisa, podem ler-se as canções 31, 32 e 33 do Cântico B, repletas desta mesma doutrina. Na primeira dirá com ternura e delicadeza: «… coisa muito credível é que a ave de baixo voo possa prender a águia real, muito subida, se ela para baixo querendo ser presa». A comparação sublinha o gesto de um Deus que nos olhou e amou primeiro, para que possamos responder a este olhar e amor.

Tudo isto, vertido na categoria do protagonista, significa que Deus o leva sempre e que a criatura humana vai secundando-o, como pode, João da Cruz ensina que neste encontro de Deus com o homem «o principal amante» é Deus.

Enamoramento

Esta chave do enamoramento abrange não só a atitude da alma enamorada de Deus, mas a de Deus enamorado da pessoa humana, pois o enamoramento é mútuo e «um amor acende outro amor», «porque nos enamorados a ferida de um é de ambos e os dois têm um mesmo sentimento» (CB 13, 9). Esta chave do enamoramento há que aplicá-la inevitavelmente para entrar na dinâmica dos conselhos que o Santo vai dando; ele mesmo leva o leitor e a alma a comprovar o valor da chave em ordem à eficácia, constância e perseverança no itinerário empreendido, «porque para vencer todos os apetites» e negar os gostos de todas as coisas, com cujo amor e afeição se costuma inflamar a vontade para gozar deles, era preciso outra inflamação maior de outro amor melhor, que é o do seu Esposo, para que, tendo o seu gosto e força neste, tivesse valor e constância para, facilmente, negar todos os outros» (1 S 14, 2).

Conclusão e pergunta complementar

A aplicação destas chaves tem que se fazer de modo simples. Não são difíceis de entender e trata-se sobretudo de atender à luz que projectam sobre todo o magistério sanjoanino. Saber coordená-las, melhor ainda, ver a coordenação que existe entre elas é o que dá mais luz e mais e gosto na leitura e estudo dos textos de João da Cruz. E todos eles são abrangidos por esta luz múltipla. O leitor poderá encontrar por sua conta mais alguma chave. Não dissemos que as indicamos todas, mas estas nove são bem principais.

Seria bom fazermos uma última pergunta sobre a chave eclesial: a eclesiologia de João da Cruz está em sintonia com a nossa eclesiologia actual, de modo que a chave sanjoanina sirva ao leitor de hoje não só para compreender o pensamento do Santo mas também para alimentar o seu «sentido da Igreja»?

A minha resposta é que o pensamento de João da Cruz neste campo concreto é do mais actual e, por isso mesmo, a sua chave é duplamente válida.

Fixo-me unicamente numa afirmação substancial assumida e repetida pelo Concílio sobre a essência e a missão da Igreja, concebida como «sacramento» de Cristo, a saber, como sinal e instrumento da graça invisível de Cristo.

Os textos conciliares em que a Igreja é definida ou designada como «sacramento» são os seguintes:

– «A Igreja, em Cristo, é como que o sacramento, ou sinal, e o instrumento da íntima união com Deus e da unidade de todo o género humano» (LG 1); Deus chamou-os e constituiu-os em Igreja, a fim de que ela seja para todos e cada um sacramento visível desta unidade salutar»;

– «Cristo, elevado sobre a terra, atraiu todos a Si; ressuscitado de entre os mortos, infundiu nos discípulos o Seu Espírito vivificador e por Ele constituiu a Igreja, Seu corpo, como universal sacramento da salvação» (LG 48);

–  «Foi do lado de Cristo adormecido na cruz que nasceu o sacramento admirável de toda a Igreja (SC 5);

– «… Todo o bem que o Povo de Deus pode prestar à família dos homens durante o tempo da sua peregrinação deriva do facto que a Igreja é o «sacramento universal da salvação» (LG 48), manifestando e actuando simultaneamente o mistério do amor de Deus pelos homens» (GS 45).

Fixando a atenção particularmente no primeiro texto no qual se afirma que a Igreja é sacramento da «íntima união com Deus», é evidente que os escritos de João da Cruz têm precisamente como único tema a união da alma, a união do homem com Deus, da qual a Igreja é sacramento no sentido indicado. Deste modo, a realidade mais profunda da Igreja coincide plenamente com o mais nuclear dos escritos sanjoaninos. E um texto de Paulo VI no Concílio redobra a validade deste horizonte eclesial sanjoanino quando disse: «Na verdade, a realidade da Igreja não se esgota na sua estrutura hierárquica, na sua liturgia, nos seus sacramentos nem nas suas normas jurídicas. A sua essência íntima, a principal fonte da sua eficácia santificadora, há-de buscar-se na sua mística união com Cristo» (21 de Novembro de 1964).

Quando escreve e quanto escreve sobre este tema, está, objectivamente, a escrever sobre a Igreja. Isto, objectivamente falando. Mas, João da Cruz deu-se conta, com consciência reflexa, de que a Igreja surgiu para isto, de que é isto? Penso que sim. Favorece esta interpretação saber que para o Santo a união da alma com Deus não é senão a aliança, e a aliança vivida. Na sua expressão maior chamará a esta união matrimónio espiritual, desenvolvendo como poucos e como nunca na espiritualidade o símbolo nupcial, que é uma das imagens principais, já bem presente na Bíblia, da qual nos servimos para manifestar também «a natureza íntima da Igreja» (LG 6).

A equivalência mencionada – união=matrimónio=aliança – leva-nos ao fundo das coisas, a saber, à origem trinitária-cristologal da Igreja; à sua nupcialidade; a Cristo como Esposo e Cabeça da sua Esposa a Igreja; a Cristo como Esposo de cada alma fiel dentro da Igreja; e indica-nos a validade desta chave de interpretação que engloba todas as outras.


*Vicente Rodrigues. 100 Fichas sobre S. João da Cruz. Edições Carmelo, Avessadas. pp. 173 -179.


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