Sáb. Out 23rd, 2021

Oratório Peregrino

Um oratório à maneira de um viático para tempos de carestia
Uma proposta desenvolvida em parceria com

Irmãs do Carmelo de Cristo Redentor – Aveiro


IX – Na obscuridade do dia-a-dia

Porquê Nosso Senhor, que quis passar trinta e três anos na terra, passou trinta na solidão?… Porquê Jesus agiu assim, mesmo tendo uma missão tão grande e tanto trabalho para fazer? Quis viver assim para satisfazer uma necessidade de adoração e de oração, para viver uma vida normal. Nazaré mostra a perfeição da Encarnação. É verdadeiramente um homem que conhece a nossa condição humana, pois viveu-a como nós.

Quis dizer-nos que, para cumprirmos a nossa missão, seja qual for a sua abrangência, temos que fazê-lo vivendo a realidade quotidiana. As coisas extraordinárias fá-las-emos quando Deus o permitir. A nossa vida consiste nesse dia-a-dia, no qual nos temos que santificar e servir a Igreja. Santa Teresa do Menino Jesus procurou sempre a verdade na realidade da vida (cf. UC 29.8.97), dizia: não gosto das histórias que se contam… E gostava de insistir nas dificuldades do dia-a-dia, como por exemplo: «Quantas vezes censuram o bom S. José! Quantas vezes recusaram pagar-lhe o seu trabalho!». Pôde ter algum problema com os seus vizinhos, como nós… pois relacionava-se com todos…

A isto nos chama Deus. Queremos fazer coisas extraordinárias, ter um poder extraordinário para poder fazer o bem a toda a gente. A vida de Nazaré não foi assim; é a vida de cada dia com os seus pequenos incidentes, a sua monotonia, a sua simplicidade… Mas por trás dessa vida ordinária se esconde uma intensa vida de Deus; uma vida de fé, de amor, também de esperança, porque este ambiente do dia-a-dia não impede que a esperança esteja viva, e muito viva. Maria e José viveram na obscuridade, mas tinham uma esperança forte, viva, que atraía a realização das promessas. Sabiam bem que tudo se realizaria por Jesus (I 20-8-55).

Este texto fala por si mesmo. Deus normalmente não muda a condição do homem ao estabelecer aliança com ele, mas transfigura-a. Toda a existência pode ser recuperada, resgatada por Ele.

Coloca-se-nos uma questão prática: Como permanecer unidos a Deus no meio das numerosas obrigações que enchem as nossas agendas? Será questão de «escolher a melhor parte» e deixar de lado os compromissos da vida? Ou temos que acolhê-los como enviados por Deus? O Padre Eugénio Maria afirma: as duas chamadas vêm de Deus, tal como um carro tem dois travões adaptados à potência do motor. A vida contemplativa implica também uma parte importante de trabalho, querido e abençoado por deus. Temos que saber discernir. Não de trata de fazer cálculos humanos, mas ser fiel ao dever de estado que nos manifesta de maneira concreta a vontade de Deus, e de acolher a chama do Espírito Santo que arde em nós. Deus nos dará a sua luz. Trabalhei muito na minha vida, constatava o padre Eugénio Maria. E quando o trabalho era excessivo prolongava o tempo de oração para encontrar nela a luz e a força necessárias.

Para ele, a oração e a acção nunca são duas coisas opostas, considera a vida espiritual de maneira global; nela estes dois tempos são um único movimento que se entrega ao Espírito Santo. Na vida activa, o amor à oração é o elemento mais necessário para que o cristão prolongue em Deus a obra da criação e a anime com o seu Espírito. O poder da fé tem efeitos visíveis. Os efeitos do encontro com Deus vemo-los no amor a Deus e aos irmãos. Por isso, o Padre Eugénio Maria nos convidava a «mergulharmos» em Deus durante o dia, nuns «mergulhos» que podem ser breves mas profundos e não menos importantes que a oração. Quando dispusermos de um momento, tornemos Deus presente na nossa vida (I 29-1-60).

A vida ordinária ilumina-se olhando o mistério de Jesus. Deus faz-se homem, as suas grandes vitórias têm lugar no meio da discrição e até do fracasso: o nascimento, a cruz. Deus parece dormir… aniquilado, E, no entanto, o frágil menino de Belém, que vem das profundidades de Deus e toca a terra com tanto amor, recria a humanidade sem nenhum ruído. Parece-nos sempre que o bem tem que fazer ruído. A vida de Jesus em Nazaré, os rostos de José e de Maria iluminam as realidades mais belas das nossas simples vidas. José serviu estando no seu lugar, com a humildade que consiste em aceitar ser por fora e por dentro o que Deus quer que sejamos. Se nos entregarmos a Ele desta maneira, Deus une-se connosco no mais profundo do nosso ser; n’Ele, a acção da graça, escondida porque é divina, incorpora-o misteriosamente a Cristo. Como?

A graça está enxertada em nós como participação na vida de Deus, unindo-se verdadeira, profunda e intimamente com cada homem; adaptando-se ao seu temperamento; às fibras do seu ser, à sua singularidade, até às suas próprias feridas. A graça adapta-se, dilata, cura. O que glorifica a Deus é o que Ele salvou. Por isso, nada do que tem a ver com a nossa vida Lhe é indiferente ou deixa de o ter presente; nada é insignificante, Deus não exclui nada. Por isso, se quero, a minha vida com cada um dos seus actos pode ser visitada por Ele. Cada momento será esse encontro, esse tesouro, o acto de amor. Aí vem ao meu encontro. A graça é filial: a criança vive constantemente do tesouro do seu Pai e esperando tudo d’Ele. E quando a união for plena, João da Cruz afirma que «todos os nossos actos são divinos» (CH 1) e úteis ao mundo. Nazaré mostra-nos a perfeição da Encarnação e as suas consequências.

Apoiados na vossa graça, dizia o Padre Eugénio Maria. «Minha graça», expressão surpreendente, é o dom sem igual que Cristo me concede, a pedra branca (cf. Ap 2, 17) que recebi, o mistério pessoal da minha vida e da minha vocação divina, que ela ilumina até nos pormenores.

Se para nós, por vezes, monotonia é sinónimo de mediocridade, não tenhamos medo de a dar a Jesus para Ele a elevar à medida do desígnio de Deus. Maria e José chamam-nos no meio da obscuridade. Se as suas vidas são exteriormente ordinárias, não há nada de ordinário na sua vida interior, que se alimenta de adoração e cuja luz é o amor silencioso. Por aqui vemos o que Deus quer que mostremos ao mundo. A actividade do homem é necessária, mas a de Deus é soberana: Sabiam que tudo se faria por meio d’Ele. A nossa colaboração, no dia-a-dia, consiste em segui-Lo e colaborar, com as obras da fé e do amor e com o olhar da confiança. O testemunho explícito é necessário, mas a nossa vida simples, embora não o vejamos, irradia esperança e anuncia a Jesus.

Quem senão José

esteve mais perto de Maria e de Jesus?

Que via? Nada de extraordinário.

O olhar da sua fé ia mais além do silêncio

para chegar mais longe,

até às profundezas do mistério.

Seja Ele o nosso mestre de oração.

Nos ensine

a ler o Evangelho com a pureza da sua luz,

que nos descobre a verdade em si mesma

e a esperança que há nela.

Ao lado de José e de Maria

que Jesus nos baste.


Imagem de Joshua Woroniecki por Pixabay