Dom. Out 17th, 2021
‘Subindo o Monte’ – rubrica dedicada ao pensamento e escritos de autores carmelitas
(Parceria com o Carmelo de Cristo Redentor – Aveiro)

QUE BEM SEI EU A FONTE…

José Vicente Rodrigues*

  1. Enquanto frei João se encontra desolado por não poder celebrar a Missa nem receber a comunhão, compõe este belo poema, bem como o romance anterior, nas mesmas circunstâncias histórico-anímicas da prisão.

Trata-se de uma peça literária e espiritual toda ela atravessada pelos mistérios da Trindade e da Eucaristia. A Páscoa de 1578 ocorreu a 30 de Março. A festa da Trindade foi a 25 de Maio e o Corpus a 29 do mesmo mês.

Encerrado no seu cárcere toledano, sem altar, sem flores, sem holocausto, sem oblação, sem incenso, sem poder celebrar missa nem abeirar-se da comunhão, não encontrou melhor meio de celebrar os mistérios da Santíssima Trindade e da Eucaristia do que cantando-os e contemplando-os, encarnando a sua devoção e a sua fé no pão e no vinho dos seus versos.

  1. Na Ficha 78 publicamos todo o texto do poema como a confissão de fé daquele ilustre prisioneiro. O título: «cantar da alma que folga em conhecer a Deus por fé», já nos indica o argumento e a tonalidade da composição.

Em João da Cruz a poesia torna-se música. Tudo são canções, cantares, glosas. Basta reler os títulos dos seus poemas para nos convencermos disto. Assim, por exemplo: «Canções da alma que goza de ter chegado ao alto estado da perfeição, que é a união com Deus pelo caminho da negação espiritual».

– «Canções entre a alma e o Esposo Cristo».

– «Canções da alma na íntima comunicação de união de amor de Deus».

– «Coplas da alma que padece por ver a Deus».

– Canções “ao divino” de Cristo e da alma».

– «Coplas feitas sobre um êxtase de alta contemplação».

– E mais coplas e glosas “ao divino”.

Numa palavra, em toda a produção poética de frei João da Cruz ressoa aquela sua música calada, «que ultrapassa todos os saraus e melodias do mundo» (CB 14-15, 25).

  1. Em todo o cantar perpassa um ardente desejo eucarístico que transborda incontido no fim. Sem dúvida, a ânsia amorosa subiu de tom durante a oitava do Corpus e o facto de se encontrar sem poder celebrar nem comungar, longe de ser uma atenuante foi um verdadeiro tormento e estímulo: verdadeiro martírio. Acrescente-se a isto a reza do Ofício litúrgico na obscuridade do seu pequeno cárcere. As palavras de São Tomás de Aquino, autor do Ofício do Corpus, de Santo Agostinho, Gregório, Ambrósio, João Crisóstomo foram novas faíscas no espírito de frei João. A sua pena, não de estar preso, mas a que lhe dizia Crisóstomo numa das suas lições: «…uma, única seja a nossa dor ao ver-nos privados deste alimento». A sua dor por não poder aproximar-se da Sagrada mesa era intensíssima. E, não a acrescentava o doutor angélico recordando-lhe que «ninguém pode, ninguém é capaz de exprimir a suavidade deste Sacramento por meio do qual se saboreia a doçura espiritual na sua fonte?».
  2. Nos dois primeiros versos afloram os elementos do título: que bem sei eu traduz o «folgar» da alma que conhece. Sabe-o tão bem, está tão contente de conhecer a Deus por fé, que irrompe irremediavelmente a cantar. Escolhe como veículo do seu gozo o canto, o cantar. Um canto um pouco velado pela melancolia. Deus torna-se a «fonte que mana e corre».

O verso-estribilho: mesmo sendo noite repete-se literalmente (ou com alguma variante: porque é de noite, como na penúltima estrofe, ou simplesmente embora de noite, como na última), indica as trevas nas quais ou através das quais ou por meio das quais (não apesar das quais!) a alma possui esse gozo e conhecimento.

  1. O tema, enunciado no título e nos primeiros versos, completa-se nos dois seguintes, resultando esta equivalência: Fonte=Deus, Noite=Fé.

Equivalência e, por isso, chave interpretativa do poema.

Toda a composição é um ir passando e gostando contemplativo os mistérios da fé: desde Deus Uno e Trino até à Eucaristia, passando pela criação do universo. É um Credo, uma oração, um cantar.

  1. A substância do poema reduz-se a isto:

A Fonte que mana e corre, sem origem, claríssima, eterna, belíssima, insondável, sem solo «e que ninguém pode atravessá-la», essa fonte tripartida, trina, tão capaz e omnipotente nos Três, da qual têm origem todas as coisas não é senão DEUS Pai, Filho e Espírito Santo, e esta eterna fonte está escondida na Eucaristia.

No quarto verso: que bem sei eu onde tem a sua guarida, a alma cantora e enamorada afirma saber onde se encontra a fonte por mais escondida que esteja. Na nona e última estrofe descobre-nos onde se encontra: «escondida neste pão vivo». Deste este pão vivo onde pôs a sua manida (= morada, tenda, aposento, esconderijo, sacrário…) para nos dar vida, a vida, o Senhor está a chamar, convocar as criaturas e desta água se fartam, às escuras, porque é de noite».

  1. João da Cruz sentia na Eucaristia a vida de Deus, o Deus vivo e, por isso, pode chamar também vivo ao pão, que é e produz a vida, como «chama à chama viva; não porque não seja sempre viva, mas porque lhe faz tal efeito, que a faz viver espiritualmente em Deus e sentir vida de Deus» (CH 1, 6).

Além disso, desde o pão vivo o Senhor está a chamar e a convocar a Igreja, a edificar a sua Igreja.

O primeiro verso da penúltima estrofe: «aqui está a chamar as criaturas» é um convite para a fonte e a fartar-se e parece compendiar as chamadas do Senhor no evangelho, em particular, reconfirma a verdade da promessa de Cristo: «Eu sou o pão da vida. Quem vem a mim não mais terá fome e quem crê em mim jamais terá sede» (Jo 6, 35).

  1. Na última estrofe rompe-se o dique da emoção contida, da sede e da fome eucarística do faminto e sedento João da Cruz:

Esta a viva fonte que desejo

neste pão de vida eu a vejo,

embora de noite!

Concluindo:

Tudo o que a alma canta e todas as verdades e mistérios da vida de Deus Uno e Trino, os seus atributos: a eternidade, a beleza, a transcendência; as suas obras: a criação, a redenção, os sacramentos, etc., que tão bem conhece, tão admiravelmente, não os conhece senão por meio da fé, embora seja noite, melhor ainda, porque é de noite.

Tudo passa pela fé, tudo passa pela Eucaristia. A Eucaristia passa pela fé; a fé passa pela Eucaristia. Sem fé não se sabe, nem sequer se pode suspeitar o que o pão vivo contém; e, por conseguinte, não se poderá morrer dessa sede e dessa fome.

Nota:

Para obter um comentário mais amplo deste poema consultem-se nas Obras Completas do Santo estes pontos: a correspondência Deus=fonte (2 S 21, 2; 3 S 19, 7; CB 12, 9); a correspondência Fé=noite (1 S 2, 1, 4-5; 2 S 3).

Lembro também a doutrina da semelhança entre a fé e Deus: «A semelhança que existe entre ela e Deus é tão grande que não existe outra diferença senão ver ou acreditar em Deus. Assim como Deus é infinito, também ela no-l’O apresenta infinito; sendo Uno e Trino, também ela no-l’O apresenta Uno e Trino; assim como Deus é treva para o nosso entendimento, também ela cega e deslumbra o nosso entendimento» (2 S 9, 1). Cf. também CB 12: «Ó cristalina fonte!», mas, nesta canção, a fonte não é Deus, mas a fé.


*Vicente Rodrigues. 100 Fichas sobre S. João da Cruz. Edições Carmelo, Avessadas. Pp. 197 -199.


Imagem de Peter H por Pixabay