SER IDOSO EM LAR COMUNITÁRIO | 4

Pe. Georgino Rocha

Aprender a envelhecer

 “A que deve este seu modo de ser e de estar no lar, de encarar a vida, de saber conviver?” – pergunta curiosa a visita que acompanha o capelão numa das suas idas ao lar. Sorridente, Gil apressa-se a responder com uma pitada de humor: “Então a quem se deve, se não a mim?!

Recuperando a seriedade, acrescenta: “O nosso capelão conhece-me bem e sabe que eu gosto de fazer piada quando as coisas se proporcionam. O meu feitio nasceu comigo, depois fui-me esforçando. Aprendi na família a ser gente, na escola a ser membro da sociedade, na igreja a ser cristão, na arte de marinheiro a ser trabalhador honrado, na estadia no lar a ser residente activo com o meu modo de ser e de agir. Desde o princípio fui bem acolhido!

Com os anos, habituei-me a ser realista, a medir as minhas forças, a ver o que provém das limitações da natureza ou pode ser fruto de doenças. Enfim, a vida reflectida é fonte de sabedoria, é como um catecismo aberto onde muito se pode aprender. E, olhe uma coisa, como eu sou cristão, a fé em Deus dá-nos uma ajuda apreciável. Posso afirmá-lo, sem medo de ser contrariado, pois falo, a partir da minha experiência pessoal e familiar”.

Em família nos fins de semana

Os fins de semana são passados normalmente com a família, como consta do acordo celebrado aquando da entrada no lar. Constituem um tempo feliz, de reencontro com os seus, de convívio especial com os netos e os bisnetos, de troca de afectos mútuos, de visitas a locais preferidos, de tomar refeições caseiras com sabor às que a sua mulher fazia.

Apesar do avanço das tecnologias domésticas e de os netos lhe fazerem surpresas, de vez em quando, com novas ementas, a cozinha preferida é a de sabor tradicional, com assado no forno ou grelhado na brasa, frutos do campo cozinhados ao lume, doces e vinhos naturais. Mas o melhor do estar à mesa é a conversa entre todos, a espontaneidade de uns e de outros, os factos da vida narrados ao pormenor, o afecto que perpassa em cada gesto, a satisfação alegre por todos vivenciada. “Sabe!, a mesa das refeições familiares tem um secreto encanto: aqui nos olhamos sem fugas nem medos, nos alimentamos, nos unimos em oração, dando graças a Deus e pedindo o descanso eterno para os nossos que já morreram.

Estar à mesa é reforçar a comunhão que nos une e faz viver uns momentos de felicidade, dá ânimo“ – adianta em tom de desabafo cheio de humanismo sadio e sem preconceitos.