Papa Francisco: o seu legado | Rubrica dedicada à reflexão sobre o legado do Pontificado do Papa Francisco
Rui Marques
(Relational Lab)
No crepúsculo destes dias, regressa à nossa memória o legado de Francisco. A sua vida ofereceu-nos tanto, mas tanto, que nunca as palavras chegarão para descrever esse tesouro. Porém, deixemo-nos iluminar por alguns desses traços. Para começar escolho, para hoje, a Esperança. O nosso Papa ensinou-nos a “peregrinar na esperança”. Nada menos que isso. Não terá sido acaso a convergência de dois momentos destes últimos meses que nos deixa em torno desse desafio: o Jubileu da Esperança e o título da sua autobiografia (“Esperança”).
Sabendo que se aproximava o fim da sua viagem terrena e esse extraordinário momento de encontro com o Pai, Francisco deu-nos um Jubileu muito especial. Começa, na sua Bula de Proclamação do Jubileu, por desejar “a quantos lerem esta carta que a esperança lhes encha o coração” [1]. A certeza de que “a esperança não engana” (Rm 5,5), atravessa todo o documento, que se desdobra entre uma palavra e um caminho, feitos de sinais e de apelos em favor da esperança. Lembra-nos, sobretudo, que estamos “ancorados” na esperança e deseja que, encontrando-a, possamos animarmo-nos para enfrentar todas as tempestades.
Tendo consciência dos tempos sombrios que vivemos – a “3ª guerra mundial aos pedaços” ou a “globalização da indiferença” – e do desânimo e do desespero que tantas vezes nos cerca e nos quer tomar como reféns, Francisco reage e sacode-nos para não nos deixar afundar nesse pântano. É inevitável recordar, a este propósito, como o fez também no dia 20 de março de 2020, naquele momento inesquecível na praça de São Pedro, em plena crise COVID19. Sozinho, abraçou toda a humanidade, consciente dos nossos medos e angústias. Dizia: “densas trevas cobriram as nossas praças, ruas e cidades; apoderaram-se das nossas vidas, enchendo tudo dum silêncio ensurdecedor e um vazio desolador, que paralisa tudo à sua passagem: pressente-se no ar, nota-se nos gestos, dizem-no os olhares. Revemo-nos temerosos e perdidos”. E, perante isso, o que nos dizia o Homem vestido de branco?
“Na sua cruz, fomos salvos para acolher a esperança e deixar que seja ela a fortalecer e sustentar todas as medidas e estradas que nos possam ajudar a salvaguardar-nos e a salvaguardar. Abraçar o Senhor, para abraçar a esperança. Aqui está a força da fé, que liberta do medo e dá esperança.”[2]
Papa Francisco, Praça de São Pedro, 20 Março 2020
O nosso Pastor sempre nos foi deixando esse repto: “não temais”, repetindo as palavras preferidas do Mestre. Acompanhou-o a certeza de que a última palavra não seria nem a da morte, nem a do mal e esse é o fundamento de toda a esperança. Mas a sua forma de a viver tinha o jeito sábio do “esperançar”. Como dizia Paulo Freire, esperançar não é espera. É levantar-se, é construir, é não desistir. Por isso, um dos legados que nos deixou é sermos capazes de continuar a esperançar, como ele o fez. Dizia recentemente D. Gabriele Caccia, observador permanente da Santa Sé junto das Nações Unidas:
“A melhor maneira de comemorar o Papa Francisco hoje é pegar na tocha da esperança e redescobrir o espírito que, há oitenta anos, levou à criação desta organização, as Nações Unidas, para que todos possamos trabalhar para um mundo melhor para as gerações que virão depois de nós”.
Esta visão leva-nos a outra dimensão do seu legado que é, simultaneamente, a origem e a consequência do esperançar. Vi, por estes dias, mais um documentário sobre a vida do nosso Papa. Chama-se “Somente juntos – a surpresa de Francisco” (disponível na RTP Play) e recorda-nos as sextas-feiras da Misericórdia, nas quais o Santo Padre visitava de surpresa os que estão nas periferias ou mesmo à margem da sociedade. De uma beleza extraordinária e com uma simplicidade comovente, mostra-nos o exercício de um outro verbo: misericordiar. Aplicar, na prática, em pequenos e grandes gestos, a expressão da misericórdia de um Deus que se resume a isso (“Deus é Amor”) é o princípio e o fim de tudo. É o misericordiar que nos leva ao esperançar e o esperançar mostra-nos, obrigatoriamente, a importância de misericodiar. É um ciclo virtuoso.
O diálogo fecundo destes dois verbos nas nossas vidas permitirá continuar o legado de Francisco. Para uma sociedade que parece marcada pelos “P”, de Populismo, de Polarização e de Pós-verdade (Moises Nain, “The revenge of power: How Autocrats Are Reinventing Politics for the 21st Century”) este é o verdadeiro antidoto. O ar que nos permitirá ganhar sentido e propósito para todos as estações. Como bons verbos que são, permitirão que todos, todos, todos, os conjuguem, desde o “eu” (esperanço, misericordio) até ao “nós” (esperançamos, misericordiamos). De Francisco recebemos essa missão. Não temamos.
[1] https://www.vatican.va/content/francesco/pt/bulls/documents/20240509_spes-non-confundit_bolla-giubileo2025.html
[2] https://www.vatican.va/content/francesco/pt/homilies/2020/documents/papa-francesco_20200327_omelia-epidemia.pdf
Foto recolhida de https://www.vaticannews.va/