Dom. Jun 13th, 2021

Rosto de Misericórdia

PADRE JOÃO MÓNICA DA ROCHA

O Padre João Mónica da Rocha nasce em Calvão em 1941, paróquia onde é baptizado e vive no seio de uma família amiga e generosa, frequenta os Seminários de Aveiro e dos Olivais, em Lisboa, e termina o curso de teologia, 1965; é ordenado presbítero por D. Manuel de Almeida Trindade neste mesmo ano. Exerce o ministério em Estarreja, nos Seminários de Santa Joana e de Calvão, nos Serviços de Pastoral da Diocese, na paróquia da Ponte de Vagos e da Fonte de Angeão; colabora com os párocos e é director do Colégio Diocesano de Nossa Senhora de Apresentação que funciona em instalações pertencentes ao Seminário com o mesmo nome. Vem a falecer a 2 de Setembro de 2009, depois de um tempo atribulado de doença que aproveita para fazer com as suas visitas a pedagogia da outra face da vida. Entretanto, ocorrem acontecimentos de relevo na sociedade e na Igreja que deixam a sua marca na página da história que o P. João vai escrevendo “entre as tribulações da vida e as consolações do Espírito”. Este apontamento memória faz o relato de alguns episódios marcantes.

Sonhos interrompidos

Ainda estudante de filosofia no seminário, começa a escrever o que a sua rica imaginação ia desenhando em sonhos de fantasia. Surge assim o projecto de um romance ocorrido no Brasil, país muito admirado pelo jovem seminarista. O enredo era tecido, ainda sem grandes floreados, por famílias emigradas que recebiam visitas de estudantes em tempos de férias. E as cenas hilariantes sucediam-se, bem como o humor picante e olhares de encantar. De repente, o reitor retira-lhe o esboço e fá-lo desaparecer. Sem qualquer explicação. Fica-lhe o gosto amargo do projecto sonhado que recorda, de vez em quando, com amargura cicatrizada.

Era o início de uma “veia” que se revela fecunda na vida adulta, em textos de poesia e de prosa, de narrativas soltas e programadas, a propósito de factos educativos  e culturais, de saudações e agradecimentos em eventos assinaláveis, de homilias e outros meios de comunicação.  Textos que valia a pena coligir e publicar.

Serviços Pastorais

De Estarreja, vem para Aveiro exercer o ministério como director espiritual dos seminaristas e responsável pelos Serviços Pastorais, em fase de reorganização funcional. O ambiente era de recepção do concílio Vaticano II e da implementação do Directório Catequético Geral, de 1971. A orgânica pastoral estava ainda com a moldura antiga; por isso, apenas servia de referência.

O espírito da reforma vinha a ser estimulado há anos em encontros e assembleias, mas especialmente em cursos de renovação conciliar. Surge a proposta que vem a ser aprovada por D. Manuel Trindade. Era necessário organizar a sua implementação, os responsáveis concertarem iniciativas convergentes e provocarem a participação dos agentes pastorais, padres e leigos.

O P. João, recém-chegado da vida paroquial, debate-se com dificuldades grandes que lhe proporcionaram ricas oportunidades para crescer na “arte” delicada de conviver e encarar os desafios ocorrentes pela positiva. E assim, procedeu, até que o regresso de Madrid do P. Georgino Rocha e o reassumir de funções diocesanas, em 1073, criam um novo espaço à acção do P. João. E o Seminário de Calvão, agora também com telescola, surge como campo de missão.

Membro da Equipa Educadora e Director do Colégio

Uma equipa de padres amigos orientava a vida e o funcionamento do Seminário. Nela se integra o P. João em espírito de serviço partilhado, de grande abertura à novidade que vai surgindo. Cresce a consciencialização da participação dos cidadãos na vida política, acentua-se a voz da crítica à situação colonial, também de sectores da Igreja, designadamente dos movimentos operários católicos e de alguns padres e bispos, o magistério pontifício e conciliar publica documentos de grande alcance, que vêm a ter forte repercussão na Conferencia Episcopal Portuguesa e em núcleos de reflexão cristã.

A revolução do 25 de Abril constitui o eclodir da nova consciência. As suas consequências rapidamente se fazem sentir na reorganização nacional e no ambiente eclesial. A escola, os sindicatos e família são as “alavancas” do processo em curso. A equipa do Seminário sente o abalo. O P. João é nomeado reitor por D. Manuel e, em breve, começa a sonhar outros horizontes: o de transformar a instituição em Colégio Diocesano, sonho que, mais tarde, seria amplamente acompanhado e estimulado por D. António Marcelino.

Colégio, Escola Católica de referência

“O símbolo do Colégio integra elementos representativos d sua identificação- entidade patronal, nome, localização; do ambiente físico em que está situado – os pinheiros, a areia, o mar; e do Ideário – Sapientia et gratia Dei super Illum. Esta citação de Lc 2, 52 refere-se a Jesus que, em Nazaré, «crescia em sabedoria, estatura e graça diante de Deus e dos homens» e constitui a súmula do propósito do Colégio para todos os lá trabalham, designadamente para os alunos”.[1]

O P. João movimenta-se na área educativa com grande desenvoltura. E cultiva uma rede de contactos muito apreciável, sobretudo entre os que podem influenciar a marcha dos acontecimentos. A sua experiência de autodidacta é aprofundada no estudo e na reflexão da filosofia e da pedagogia. Mantém uma relação de proximidade e colaboração com professores da Universidade de Aveiro que, frequentemente, orientam acções de formação. O Colégio vai aumentando a sua capacidade de oferta e de qualificação de serviços. E a competência do P. João reconhecida a outros níveis.

“Aqui nasce e daqui se lança o Movimento pela liberdade de ensino e de aprendizagem em Portugal. – o MOVE, e o P. Mónica é escolhido pelos seus pares, para 1º Director Nacional”.[2]

Integra a direcção nacional da Associação Portuguesa da Escola Católica (APEC) e, por ocasião da realização do I Congresso  A 2003, a 2003, escreve sobre os objectivos a que se propõe: “aprofundar o conhecimento da Doutrina Social da Igreja sobre a Escola Católica; confrontar com esta Doutrina as realidades e práticas da Escola Católica em Portugal; assumir a renovação e os desafios que a fidelidade implica; partilhar, com outras visões e sistemas educativos, o nosso projecto de Escola Católica, constituindo-se assim, para todos, proposta e desafio”.

Ponte de Vagos: A paróquia em família

Esta paróquia nasce à sombra do Colégio e, praticamente, os seus párocos são directores do Colégio. Acontece com o P. João durante muitos anos. A relação de proximidade e de cooperação torna-se notável. Com mútua conveniência. O jeito de ser pastor evidencia-se de novo. Iniciado em Estarreja atinge uma moldura muito apreciável em Ponte de Vagos. Jeito apoiado no trabalho pastoral das Irmãs Salesianas e em equipas de leigos.

A paróquia cresce em relações humanas e ambiente familiar, em participação e comunidade, em afluência à assembleia dominical e interesse pelo aprofundamento das razões da fé eclesial. Surge a construção do novo templo. Redefinem-se os órgãos de cooperação. A vida, sobretudo na sua expressão jovem, adquire novo dinamismo.

A doença do P. João surge como factor de coesão paroquial, de interesse comum, de espírito missionário. E a ligação ao P. António Baptista, iniciador da obra que estava na base do actual Colégio e com fama de “virtude” heroica, mais acentuava. O doente precisava do benefício de quem podia interceder. Uma cadeia de oração perpassa em muitas famílias.

Conta comigo: Conto contigo. Com alegria

Este é o lema do último programa escolar que o P. João elabora com a equipa responsável pela direcção do Colégio. É também a mensagem que se conserva, como memória agradecida, na lápide da sua sepultura. Condensa o ideal de vida que sempre o animou. Aponta a sua missão no Céu.

“Sou sua enfermeira e farei tudo o que puder por si. Confie. Sou católica, catequista e ministro extraordinário da comunhão. Por isso compreendo a sua situação. Quero cooperar consigo até onde for possível”. “Está bem, está bem” – balbucia ele, prestes a apagar-se. É a última escrita da página da história da sua vida. Nela, a misericórdia reveste tons admiráveis: de alegria de servir, de disponibilidade para a mudança, de criatividade, de ousadia de sonhar e empreender, de confiar. “Conta comigo. Conto contigo. Com alegria”.

[1] Paulo Sérgio MARGARIDO FERREIRA (coord) De Gelfa a Calvão, p. 288

[2] Idem, o. c., 291