Ter. Dez 7th, 2021

No 25.º aniversário da morte de Júlia d’Almendra (1904-92) (6b)

Uma aposta na profissionalização do músico de Igreja

Por Domingos Peixoto

Júlia d’Almendra faz questão de sublinhar que profissionalização e apostolado não são incompatíveis, e que a solução para assegurar a qualidade na música litúrgica seria simples. Em primeiro lugar,

– “Que as nossas igrejas passassem a exigir aos seus colaboradores musicais – mestres de capela/directores de coro, cantores e organistas – a apresentação de certificados dos seus cursos, quer de música sacra, quer de órgão” e, em segundo lugar,

– “Que o artista que se consagrasse profissionalmente ao serviço musical da Igreja – o que não exclui o espírito do apostolado – pudesse contar com as garantias consignadas pelo Sindicato dos Músicos a todos os artistas musicais”[1].

O desleixo na formação dos músicos para a liturgia e a resistência à sua profissionalização constituem um problema de ontem e de hoje. Registe-se a palavra incómoda de Júlia d’Almendra em 1963, há mais de 50 anos: “O reconhecimento do músico de Igreja é condição essencial para o levantamento do nosso nível musical sacro”. E aponta o dedo à transigência das igrejas, “que musicalmente admitem o amadorismo, contentando-se eventualmente com os conhecimentos de ouvido dos curiosos musicais da paróquia”[2]. Mais tarde, não esconde o seu inconformismo com o rumo que a música sacra começa a tomar:

“A Igreja precisa, mais do que nunca, de chefes de coro competentes, de professores conscientes das suas responsabilidades, de cantores devidamente preparados, de fiéis capazes de cantar, de organistas que saibam o que é um órgão e conheçam o seu magnífico repertório. Indispensável se torna, pois, conservar, defender e favorecer a produção e audição de música sacra digna desse nome e da Igreja. Há que reagir para vencer a onda de mediocridade que envergonha a cultura musical do nosso tempo, invadindo e profanando a casa de Deus”[3].

 

[1] Canto Gregoriano n.º 26, p.9.

[2] Ib. n.º 26, p.8.

[3] Ib. n.º 67, p.24.

(Foto: http://centroward.wixsite.com/centrowardlisboa/j)