Sáb. Nov 27th, 2021

Rosto de Misericórdia

 MARIA DO CARMO VIEIRA TORRÃO

Pe. Georgino Rocha

Maria do Carmo Vieira Torrão – conhecida por Maria do Carmo e assim nomeada em “Rosto de Misericórdia” – nasce em Vale de Ílhavo, paróquia de São Salvador de Ílhavo, a 29 de Maio de 1934 e deixa-nos a 12 de Abril de 2003. Neste arco de tempo, quanta transformação na Igreja e na sociedade! E quantos desafios a urgirem resposta envolvente de todos, sobretudo dos mais despertos e conscientes de que a fé se “joga” na vida e a credibilidade da Igreja se testa na atenção à pessoa e às suas preocupantes situações. Os movimentos da Acção Católica surgem na dianteira deste despertar que, progressivamente, se vai enraizando a ponto de se fazer compromisso militante. Esta foi a primeira grande escola apostólica da Maria do Carmo.

Nascida numa família cristã consistente, tem uma infância feliz na companhia dos cinco irmãos sob a guarda cuidadosa do pai e de uma tia, pois ficara órfã de mãe aos dois anos. O carinho de todos suaviza a perda e faz a família “digerir” a dor.

As múltiplas facetas da vida da Maria do Carmo constituem um espelho polido do jeito cultivado de ser e de agir, revelando uma grandeza discreta e prestando um serviço eficaz nas situações que veio a encontrar no âmbito do trabalho profissional e apostólico e a assumir com serena determinação. Neste jeito se reverão muitas outras pessoas que fazem do silêncio a proclamação do bem feito e da doação generosa a “senha” de cada dia. O seu jeito de ser e agir surge mais eloquente em testemunhos que a seguir se apresentam do que na narração descritiva, por mais assertiva e clara que fosse.

VIA JESUS CRISTO NOS POBRES

A sua sensibilidade a quem está em necessidade era constante. Dir-se-ia que vivia feliz quando podia ser prestável a alguém. Em duas ocasiões, pude confirmar esta sua predisposição: no acolhimento aos retornados que ficaram a dormir no Centro de Pastoral – e foram dezenas – (após o 25 de Abril de 1974, dá-se o grande êxodo de portugueses residentes em Angola, êxodo provocado pelas forças revolucionárias) e na campanha de solidariedade com as vítimas do terramoto dos Açores e das cheias de Lisboa. Parece que se electrizava quando, perante a urgência, ninguém reagia. A Maria do Carmo era uma mulher de fé alimentada no contacto diário com os pobres em que via Jesus Cristo, com a adoração ao Santíssimo que reconhecia presente no sacrário, com leituras acessíveis, sobretudo da Bíblia e do Jornal do Gaiato. “ Os pobres são a minha consumição e a minha alegria”, dizia com frequência. (CV. 16.04.2003, pág. 2.)

BEM-DISPOSTA E DISPONÍVEL

Colabora no Secretariado Nacional de Liturgia a convite de Mons. Aníbal Ramos. Ajuda a organizar as primeiras semanas litúrgicas e torna-se conhecida e apreciada pela boa disposição e disponibilidade. Também ela, de algum modo, “ensinou Portugal a rezar” – como refere D. Manuel Trindade a respeito de Mons. Aníbal.

Faz parte da equipa da Cáritas, onde assume inicialmente o papel de acolhimento e de atendimento. Revela um jeito especial para a ajuda espontânea, a caridade informal. Ganha a amizade de quem “lhe bate à porta”. Alguns chamam-lhe “a mãe dos pobres”. Visitas assíduas são os ciganos,; com que carinho os recebia! A princípio, vêm por roupa e alimento. Depois, por amizade ou para saberem como vai a saúde. Sentiam-se bem, apesar dos contratempos. Colabora generosamente no lançamento e animação dos grupos sociocaritativos. (CV. 16.04.2003, pág. 2.)

MARIA DO CARMO ERA ASSIM

Ao longo do tempo que nos dedicou, aprendi muito com ela, trocávamos experiências, falávamos de Deus e da vida, era muito amiga e capaz de encher a nossa casa de uma alegria imensa (os Natais com ela, eram simplesmente inesquecíveis). Quando ria tinha um sorriso meigo … fazia-nos bem, estar junto dela… a qualquer pedido nosso a resposta era sempre “está bem”… Adoeceu… depressa demais … aceitou tudo com um sorriso … estava sempre tudo bem … transmitiu-me valores muito importantes para a minha vida e mostrou-me que é possível fazermos tudo pelos outros…temos sempre tempo… e que só somos felizes quando podemos ser prestáveis aos outros. Obrigada titi do Carmo por teres feito parte da minha vida, e me teres ensinado a dizer “Está bem”… Maria Luíza.

VENCIDA PELO AMOR DE DEUS

“Sempre que conversava com ela ficava-me a sensação de estar perante um ser cândido, tal era a sua simplicidade e capacidade de desvalorizar o que poderia ofuscar a relação com os outros”, diz o Presidente da Cáritas Portuguesa, Eugénio da Fonseca, adiantando querer testemunhar pessoalmente e, em nome da Cáritas Portuguesa, “manifestar a nossa sentida homenagem a quem, durante 30 anos, se dedicou a este serviço da acção social e caritativa da Diocese de Aveiro, em áreas tão determinantes e exigentes como são o acolhimento e atendimento e a animação de grupos sociocaritativos nas paróquias, serviço que foi interrompido pela falta de saúde que teimou em persistir e que foi agora vencida pelo Amor de Deus que, estou certo, já envolveu eternamente a Maria do Carmo na caridade plena.” (CV. 28.V.2003, pág. 2.)

OBRIGADO, MARIA DO CARMO

“Está bem” – responde-me com voz suave que tende a sumir-se. “Molhem os lábios” – pede quase a seguir. Sorve rapidamente a humidade e volta a mergulhar na zona da tranquilidade em que vivia os momentos prestes a findaram-se. É a última palavra que me deixa como testamento espiritual e define a sua atitude de vida. “Está bem” é resposta ao apelo que lhe havia feito no decurso da visita. Ao longo de trinta anos, fui testemunha desta adesão solícita, após informação adequada.

“A nossa diocese continua a precisar de si” – tinha-lhe segredado. Eu sabia que a “coisa” era grave, irreversível e de evolução rápida. Por isso, abrindo a ponta do véu, insinuava outra forma de poder vir a ser útil. As necessidades da nossa Igreja são evidentes: Sínodo dos Jovens, renovação do clero e das paróquias, formação dos leigos…

A fé vivida é agora visão contemplada. Que a Maria do Carmo saboreie a comunhão ardentemente desejada! Que a nossa Diocese possa contar com o seu valimento perante o Senhor da missão! (CV 16.04.2003, pág. 2.) E misericórdia irradia novas facetas de um estilo de vida admirável.