Seg. Jun 14th, 2021

No 25.º aniversário da morte de Júlia d’Almendra (1904-92) (3)

A missão de Júlia d’Almendra

Por Domingos Peixoto

Nos primeiros anos da década de 40, esteve em Portugal a eminente musicóloga francesa Solange Corbin a fazer uma importante pesquisa sobre as fontes documentais mais antigas da música gregoriana nos arquivos de igrejas e conventos[1]; Júlia d´Almendra assistiu a uma conferência por ela proferida no Instituto Francês, subordinada ao tema ‘A evolução da música em França, desde S. Gregório a Josquin Desprez’, onde ouviu, pela primeira vez, gravações de canto gregoriano pelos Monges Beneditinos da Abadia de São Pedro de Solesmes. Fascinada pelo novo mundo musical que descobrira, estudou canto gregoriano durante alguns meses com a própria Solange Corbin. Cerca de vinte anos mais tarde, entrevistada por ocasião do 10.º aniversário das Semanas Gregorianas, refere uma frase que foi decisiva na reviravolta da sua trajectória artística e profissional:

“É a ela [Solange Corbin] que devo a consciência dos largos horizontes que me nortearam por novos caminhos […] Impressionada, procurei-a mais tarde para lhe ouvir dizer que Portugal nada perdia com uma violinista a menos, mas que o campo da música sacra estava deserto e nele teria uma missão a executar”[2].

Estas palavras calaram fundo numa mulher de fé, disponível para o serviço da Igreja; assumiu plenamente esta missão, a que se dedicou de alma e coração até ao fim dos seus dias. A consciência desta missão será afirmada repetidas vezes, tanto no que se refere à actividade geral do Centro de Estudos Gregorianos, como ao campo específico do Órgão. A título de exemplo:

– ”No desenvolvimento da sua missão própria, o Centro de Estudos Gregorianos tem realizado várias manifestações: umas, que resultam do prestígio que se deve a si mesmo, como sessões solenes, inauguração do ano lectivo, etc.; outras, que são, por assim dizer, actividades de extensão com que se pretende desenvolver o âmbito cultural dos seus alunos”[3].

– “Prosseguindo a missão que a si mesmo impôs, de tornar mais conhecida a música de órgão no nosso país, [o Centro de Estudos Gregorianos] promove mais dois recitais deste instrumento, desta vez a cargo do conhecido organista Édouard Souberbielle”[4].

 

[1] Daqui resultaria a obra Essai sur la musique religieuse portugaise au moyen-âge (1100-1385), publicada pelo Instituto Francês (Lisboa) em 1952.

[2] Canto Gregoriano n.º 26, p.7.

[3] Arquivo do Centro Ward de Lisboa Júlia d’Almendra, ‘Actividades Didácticas’, p.1.

[4] Canto Gregoriano n.º 14, p.23; a mesma ideia no n.º 22, p.32.

(Foto: http://centroward.wixsite.com/centrowardlisboa/seg)