Poesia Eterna – Luz na noite escura

(Recanto de poética dedicado à obra de S. João da Cruz)

Parceria com o Carmelo de Cristo Redentor – Aveiro

Presente e escondido*

«Muito bem fazes, ó alma,

em buscá-lo sempre escondido,

porque muito exaltas a Deus

e muito te chegas a ele

tendo-o por mais alto e profundo

que tudo quanto possas alcançar.

E, portanto, não repares em parte

nem em tudo o que as tuas potências

podem compreender.

Quero dizer que nunca te queiras satisfazer

no que entenderes de Deus,

mas no que não entenderes d’Ele;

e nunca pares em amar e deleitar-te

nisso que entenderes ou sentires de Deus,

mas ama e deleita-te

no que não podes entender e sentir d’Ele;

que isso é buscá-lo em fé.

Que, pois Deus é inacessível e escondido,

ainda que mais te pareça que o achas

e o sentes e o entendes,

sempre o hás-de ter por escondido

e hás-de servi-lo escondido em escondido.

E não sejas como muitos insipientes,

que pensam baixamente de Deus,

entendendo que, quando não o entendem

ou saboreiam ou sentem,

está Deus mais longe e mais escondido;

sendo mais verdade o contrário,

quer quanto menos distintamente o entendem,

mais se chegam a Ele, pois,

como diz o profeta David (Sl 17, 12):

Pôs esconderijo nas trevas.

Assim, chegando próximo d’Ele,

por força hás-de sentir trevas

na fraqueza do teu olho.

Fazes bem, pois, em todo o tempo,

tanto de adversidade,

como de prosperidade espiritual ou temporal,

ter a Deus por escondido,

e assim clamar por Ele, dizendo:

Aonde te escondeste?

*(CB 1, 12 in Eulogio Pacho, As mais belas páginas de S. João da Cruz, Edições Carmelo, Avessadas p.41.)

Imagem de Björn Habel por Pixabay